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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dos "milagres" que não glorificam a Deus

Eu não pretendia escrever sobre isso hoje. Aliás, eu nem pretendia escrever hoje, uma vez que minhas atenções agora estão voltadas para minha mudança de cidade e com tudo o que isso acarreta (para quem não sabe, fui transferido para Santarém-PA e esta é a minha última semana aqui em SP). Mas, é que eu me deparei com algo que realmente me instigou. E me irritou! Na realidade, já faz tempo que coisas desse tipo tem me irritado. Não aguento mais ouvir falar em milagres, curas e “unções” que estão sendo derramadas por aí em nome de Deus, mas que em nada O glorificam. Sinceramente, sou meio desconfiado (ou “desconfiado e meio”, se preferirem) com certos “milagres” que tem sido divulgados por aí. Não apenas pelo fato de alguns serem extremamente bizarros e duvidosos, mas principalmente pelo fato de que a maioria deles não tem como meta o Soli Deo Gloria.

Acessando a internet hoje, “sem querer querendo” me deparei com mais um caso desses. Foi o do Valdir, “o homem que fala sem língua”.

Valdir de Souza era viciado em drogas há mais de 12 anos. Na madrugada do dia 28 de maio de 93, marcou um encontro com seus colegas em sua casa para mais uma noite de bebedeira. Naquela madrugada, embriagaram-se e drogaram-se até que Valdir começou a passar mal. Seu coração começou a bater forte e com movimentos taquicardíacos. Nisso, sua língua adormeceu e enrolou para dentro da garganta.


Ele conta que pediu ajuda aos seus colegas, porque já estava ficando sufocado. Apavorados, um deles tentou puxá-la para fora e, como não conseguia sustentá-la, segurou-a com sua própria boca, prendendo-a entre os dentes e cortou-a na metade.


As forças se acabaram e Valdir sentiu-se separado do seu corpo, e que seu espírito se dirigia para as trevas caminhando para o abismo. Ao vê-lo desmaiado, seus amigos o levaram para o Hospital Municipal do Tatuapé, onde teve sua língua completamente amputada pelos médicos. Desenganado pela Medicina, sem poder falar, recebeu a visita de sua mãe que lhe falou sobre Jesus Cristo. Ele fez um voto com Deus: que ao sair do hospital iria a uma igreja. Assim fez. Pegou uma Bíblia emprestada e foi. No momento em que era feita a oração pelos dons espirituais, foi à frente. Na oportunidade, aceitou a Jesus Cristo como Salvador de sua alma.


Durante a oração, pediu a Deus para que parasse de babar, voltasse a sentir paladar e que passasse a falar novamente. Segundo suas palavras, naquele momento a unção do Espírito Santo desceu sobre aquele lugar. Sentiu como se estivesse flutuando e uma língua invisível começou a bater de um lado para outro em sua boca. Disse ele: “Comecei a falar em línguas estranhas e a primeira palavra que pronunciei foi uma glorificação a Deus. Hoje falo, alimento-me normalmente, sinto paladar e paz completa com Deus”

[Fonte: clique aqui].

Sinceramente, a ideia de alguém flutuando com uma língua invisível batendo de um lado para o outro em sua boca é simplesmente inconcebível (para não dizer ridícula) para mim. E o pior de tudo é que pessoas assim geralmente acabam se transformando em pregadores itinerantes! Não. Eu não estou, aqui, duvidando se Deus ainda opera milagres nos dias de hoje. Creio, sim, que haja casos genuínos de curas operadas por Aquele que governa os céus e a terra. Contudo, não creio que todos os que arrogam para si legitimidade sejam mesmo genuínos. Além das muitas farsas e bizarrices flagrantes, há também muitas “atitudes suspeitas” naqueles que nos dizem que o que eles estão fazendo é para a glória de Deus.

Casos como o do Valdir tem sido o motivo da superlotação de muitos templos ditos evangélicos espalhados por esse país afora. As pessoas são atraídas não pelo Deus que operou o milagre, e sim pelo milagre em si mesmo. A situação é agravada ainda mais quando o caso recebe atenção da mídia, onde a pessoa que recebeu o “milagre” é convidada a dar o seu testemunho em algum programa de televisão famoso. E o curioso é que ninguém se interessa pelos milagres “ordinários”, como o abandono da mentira, da prostituição, da inveja, da malícia, do dolo, das relações extraconjugais, da ganância e das manifestações mais grotescas (e sutis, também) de pecado, e sim, pelos milagres sobrenaturais, como galinhas falando em línguas, pessoas que morreram e voltaram à vida, o câncer que desapareceu, homens que falam sem a língua e coisas do tipo. Para se ter uma ideia disso, em um dos programas do “apóstolo” Valdemiro Santiago, ele chegou ao ponto de dar um sabonete usado por ele a uma de suas ovelhas, para que esta fosse curada de uma certa enfermidade. E o pior de tudo é que essa tal senhora voltou depois para dar o seu testemunho dizendo que o sabonete usado pelo “apóstolo” estava realmente ungido por Deus, pois ela havia sido curada de fato! “Sabonete ungido”… Dá pra acreditar?!

Há tempos atrás eu diria que não consigo entender como é que as pessoas se deixam enganar a tal ponto. Mas hoje eu nem me pergunto mais, porque penso que já sei o porquê. Fico com Paul Washer, que disse que “os falsos profetas são o castigo de Deus para um povo rebelde”. PONTO. Não me surpreendo mais com essas esquisitices que acontecem no mundo gospel, porque foi o próprio apóstolo Paulo quem disse que nos últimos dias as pessoas procurarão pregadores que satisfaçam a coceira dos seus ouvidos (2Tm 4). E o fato é que, onde Deus não for verdadeiramente glorificado, a coceira só aumentará (para a própria destruição de quem a sente e de quem a “resolve”).

Soli Deo Gloria!

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A verdade sobre a mentira (parte 2) - Gnosticismo Antigo e Contemporâneo (1)

O Gnosticismo Antigo


“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (João, o apóstolo – 1Jo 2.22).



“A filosofia é a matéria básica da sabedoria mundana, intérprete temerária da natureza e da ordem de Deus. De fato, as próprias heresias são equipadas pela filosofia”[1]. Foi dessa forma que Tertuliano (160-240 d.C.) ligou a filosofia de seu tempo ao seu “filhote religioso” mais ilustre, o Gnosticismo, um amalgamado de filosofia pagã, esoterismo mitológico e elementos da doutrina apostólica que veio para tentar apagar o evangelho legado por Cristo e seus apóstolos da memória da Igreja. Dado o extremo grau de periculosidade que esse movimento representou para a manutenção da ortodoxia nas fileiras do cristianismo, não seria nenhum exagero afirmar que, de todas as heresias (“mentiras teológicas”) que a igreja primitiva teve que enfrentar, o Gnosticismo foi, sem sombra de dúvidas, a pior.

Definir o que foi o Gnosticismo não é uma tarefa fácil, mas vamos tentar, em princípio, nos deter a algumas de suas designações mais genéricas. Gnosticismo é um termo que deriva da palavra grega gnosis, que significa, literalmente, “conhecimento”. Para os gnósticos, a verdade é secreta, e somente é revelada a algumas pessoas detentoras de um “conhecimento” especial (daí o porquê do termo). A salvação da alma consiste exatamente em descobrir qual é essa “verdade”, voltando-se o indivíduo para dentro de si mesmo em busca de suas origens. Essa característica aproxima o gnosticismo do neoplatonismo, na sua busca de tentar restabelecer a união com a divindade a partir de uma interiorização contemplativa. Os gnósticos elaboraram uma teogonia[2] extremamente complexa a fim de explicar a origem do universo, incorrendo numa cosmovisão puramente dualista (Bem x Mal). Segundo eles, o Supremo e Verdadeiro Deus transcendente e último (não cognoscível), que habita acima dos universos criados, fez emanar de si mesmo todas as substâncias visíveis e invisíveis existentes no mundo. Dessas emanações vieram os éons, que eram seres divinos intermediários entre o Supremo Deus e nós. Um desses seres eônicos, chamado Sofia, teria feito emanar de si mesmo o deus (também chamado de “Demiurgo”) que criou o mundo material e psíquico, à imagem da sua própria imperfeição. Este deus (que é identificado com o Deus do Antigo Testamento), então, passou a pensar que era o próprio Deus Supremo, incorrendo em orgulho. É dessa forma que o gnosticismo explica as mazelas do mundo, bem como toda a corrupção deste, concluindo, com isso, que toda matéria é inerentemente má. É no meio de toda essa confusão que os gnósticos unem elementos da filosofia pagã e do misticismo esotérico das religiões de mistério para fazerem uma verdadeira “salada” mística e religiosa.

Ao contrário do que muita gente pensa, essa filosofia não nasceu dentro do cristianismo. Suas origens remontam às antigas tradições persas e babilônicas antes mesmo de Cristo ter nascido. Mas o grande problema para nós foi quando, tendo surgido o cristianismo, alguns cristãos presumiram que poderiam aliar as crenças gnósticas às doutrinas apostólicas, numa “tentativa de explicar Cristo em termos da filosofia pagã ou da ‘teosofia’”[3]. Isso resultou num verdadeiro desastre para a Igreja, uma mancha terrível na história do povo de Deus[4]. As ideias gnósticas passaram a fazer parte da dieta doutrinária de muitos grupos ditos cristãos, que já não sabiam mais delinear marcos entre a ortodoxia e a heresia. A habilidade dos mestres gnósticos em sintetizar noções gnósticas com conceitos cristãos, pegando emprestado destes algumas de suas terminologias, fez com que o próprio evangelho fosse redefinido, ainda que este se mostrasse totalmente pagão em eu âmago. Muitos passaram a ensinar que Jesus era um “éon” que se desviou astuciosamente do mundo das trevas para trazer esse “conhecimento” secreto (a gnosis), proporcionando aos espíritos da luz, que habitam nos seres humanos, a plena liberdade do cativeiro do mundo terreno e material. A doutrina apostólica, então, passou a ser mais um elemento a compor a “salada” gnóstica, que agora passou a autodenominar-se de “cristã”, o que fez com que o nome do Gnosticismo se associasse ao do Cristianismo até aos dias atuais (contudo, é bom que fique bastante claro que não havia um “cristianismo gnóstico”, como muitos estudiosos de história antiga o querem, e sim, um “gnosticismo cristão”).

Entretanto, essas simples definições e conceitos não são capazes de abranger todas as vertentes, modalidades e nuances próprias do gnosticismo que se instalou no seio da Igreja. O Gnosticismo, como um sistema de crenças, não era homogêneo. Havia uma ampla diversidade dentro do próprio movimento, já que “o pensamento gnóstico oferecia possibilidades para os ‘inventores’ de religiões, nas quais cada falso mestre podia inventar sua própria seita”[5]. Irineu (c. 180), bispo de Lyon, na Gália Romana, fala em pelo menos quatro tipos de gnosticismo existentes em seus dias: 1) Gnosticismo de tipo sírio (Saturnino); 2) Gnosticismo de tipo egípcio (Basílides, Valentino); Gnosticismo de tipo judaizante (Cerinto e os ebionitas); e 4) Gnosticismo de tipo pôntico (Márcion)[6]. Cada uma dessas variantes tinha suas próprias particularidades (sobre as quais não pretendemos entrar em detalhes agora). Uma coisa interessante é que, quando as premissas gnósticas conflitavam grosseiramente com as doutrinas apostólicas, os gnósticos “inventavam” suas próprias versões do evangelho. E o pior de tudo é que eles “assinavam” o documento como se o mesmo fosse de autoria dos apóstolos. Até a metade do século vinte, esses “evangelhos” somente eram conhecidos por nós através das obras polêmicas de seus críticos mais vorazes, como Irineu (130-200) em Contra as Heresias e Tertuliano (160-225) em Contra Márcion. Foi quando, em 1945, uma “biblioteca gnóstica” foi encontrada em Nag Hammadi, no Egito, contendo alguns manuscritos dos evangelhos gnósticos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, o Evangelho dos Egípcios e o Evangelho da Verdade. Esses “evangelhos” não visavam apenas a “‘preencher’ supostas lacunas nas informações dos canônicos (como, por exemplo, sobre a infância de Jesus), mas [...] apresentar versões diferentes dos fatos e pessoas retratados nesses evangelhos”[7]. Um bom exemplo desses “evangelhos” que procuravam redefinir o papel de alguns dos personagens tidos como os “vilões” da história é o famoso Evangelho de Judas (descoberto na caverna de El Mynia, no deserto do Egito, em 1978), no qual Judas, apresentado nos Evangelhos canônicos como um traidor, é redefinido como o único que realmente compreendeu a mensagem “secreta” que o Mestre veio trazer. Desse modo, Judas é transformado no “herói” da história, demolindo toda a sua tradicional fama de vilão. Embora sua descoberta tenha se dado tão recentemente, Irineu já fazia referências a ele na sua obra Contra as Heresias (Livro I, 31.1 – lá aparecem também uns tais de “cainitas”, uma seita que inocentava a Caim). E não apenas Irineu, mas todos os tratados polemistas asseveram que o gnosticismo foi um movimento marginal ao cristianismo, e não integrante deste; um intruso, e não um convidado; um “corpo estranho”, e não um órgão; uma gangrena que precisava ser removida às pressas, numa intervenção cirúrgica habilidosa.

Mas não devemos pensar que foi apenas no período pós-apostólico que essa heresia surgiu, não. Há claros indícios, a partir do próprio Novo Testamento, que a igreja neotestamentária enfrentou em suas fileiras uma forma incipiente de gnosticismo. Tertuliano afirma que Paulo tinha em mente a filosofia gnóstica quando advertiu aos cristãos colossenses para que estes tomassem cuidado com certas “filosofias e vãs sutilezas, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8)[8]. Sugere-se que os hereges de Colossos estavam unindo elementos judaicos, crenças populares da Frigia e “germens” de gnosticismo ao evangelho, promovendo um verdadeiro sincretismo religioso, o que lhes rendeu a pecha de “heresia colossense” – um sistema de crenças absolutamente estranho. É possível também que sejam essas as “fábulas” e “genealogias sem fim” que Paulo fala aos jovens pastores Timóteo (1Tm 1.4) e Tito (Tt 1.14), sobre as quais eles deveriam tomar o máximo de cuidado. Ainda que não nos seja possível fazer uma absoluta associação desses erros com o gnosticismo, devemos pelo menos reconhecer certos pontos de semelhança entre eles.

Contudo, as principais evidências da infiltração gnóstica na igreja neotestamentária encontram-se nos escritos do apóstolo João, especialmente nas suas cartas. Nelas, o apóstolo nos dá algumas informações do tipo de gnosticismo que a igreja de então estava enfrentando. A principal acusação de João contra os ensinos heréticos era que “muitos enganadores tem saído ao mundo, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2Jo 7 – ênfase minha). Na realidade, essa negação da encarnação de Jesus é uma doutrina gnóstica que ficou conhecida depois como Docetismo (do grego dokeo – lit. “parecer”, “aparência”). Essa variante gnóstica ensinava que todas as manifestações da natureza humana de Jesus eram apenas uma aparência, uma ilusão de ótica (uma espécie de holograma). Sendo assim, seguindo a premissa gnóstica básica de que a matéria é essencialmente má, os falsos mestres, além de negarem a humanidade de Jesus (encarnação), negavam também a própria crucificação e ressurreição deste, atribuindo tudo a uma mera ilusão, já que Deus não poderia ter assumido a forma humana, em Jesus. João também nos informa que os hereges, de igual modo, negavam a divindade de Jesus. Essa outra variante gnóstica pode ser atribuída a um homem chamado Cerinto, que residia em Éfeso e foi, inclusive, contemporâneo (e possível adversário) do próprio João. De acordo com Irineu, um polemista do segundo século, Cerinto “representava Jesus como não tendo nascido de uma virgem, mas como sendo filho de José e Maria segundo o curso comum da geração humana, enquanto que era, não obstante, mais justo prudente e sábio do que os outros homens. Além disso, depois do seu batismo, Cristo desceu sobre ele, em forma de pomba, vindo do Supremo Regente, e que depois proclamou o desconhecido Pai, e realizou milagres. Mas por fim Cristo separou-se de Jesus, e então Jesus sofreu e ressuscitou, enquanto Cristo permaneceu impassível [isto é, “não sujeito a dor ou ferimento”], visto que era um ser espiritual”[9]. A ideia de Cerinto sugere que Jesus não era verdadeiramente Deus, mas que foi habitado pelo Cristo, uma emanação do éon divino que desceu sobre o homem Jesus. Esse Cristo veio sobre Jesus por ocasião do seu batismo, mas o deixou por ocasião da sua crucificação. Isso faz com que a divindade de Jesus seja algo imposto, vindo de fora, e não inerente a ele. Esse pensamento de Cerinto foi aderido pelos Ebionitas[10], uma seita gnóstica de tipo judaizante do fim do primeiro século. Para João, contudo, tanto a negação da encarnação quanto da divindade de Jesus constitui-se em verdadeira mentira teológica. Uma das definições que o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa dá para mentira é “aquilo [...] que se aproxima da verdade ou é real apenas na aparência” (ênfase minha). João concordaria plenamente com essa definição. Se Cristo era apenas uma “aparência”, como queriam os docetistas, então o próprio Deus era um mentiroso, e Jesus, uma mentira; se Jesus não tinha um corpo físico, então ele não foi para a cruz para morrer pelos nossos pecados, muito menos ressuscitou para a nossa justificação (cf. Rm 4.25). Por este motivo, para o apóstolo João qualquer coisa que se aproxime da verdade, mas que não seja exatamente a Verdade, não passa de pura mentira; qualquer um que negue que Jesus é o Cristo (plenamente humano e plenamente divino) é um mentiroso (1Jo 2.22).

As fortes ênfases joaninas à retidão do viver cristão em oposição às dissoluções carnais sugerem que esses falsos mestres também ensinavam que o cristão poderia pecar à vontade, pois não fazia diferença alguma, visto que a carne má. O apóstolo combate essa ideia com veemência, dizendo que “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9 – ênfase minha). Outra característica desses falsos mestres era a sua flagrante falta de amor para com os outros irmãos, uma vez que o acesso às verdades espirituais (a “gnose”) pertencia somente aos “iluminados”. Isto posto, duas categorias de crentes foram criadas: a dos “iluminados” e a dos “não-iluminados”. João combate essa falácia ao dizer que “se [...] andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7 – ênfase minha). O apóstolo é mais enfático ainda quando diz que “se alguém disser: Amo a Deus, e odiar seu irmão, é mentiroso, pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20 – ênfase minha). João é tão vigoroso em seu combate ao erro que ele adverte a um grupo de cristãos a não receber em suas casas qualquer um que não traz a sã doutrina, muito menos dar-lhes as boas-vindas, “porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das duas obras más” (2Jo 10,11). Quanto a isso, Irineu, em sua conhecida obra Contras as Heresias, no livro III, nos traz um episódio interessante envolvendo João e Cerinto, contado por Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo de João: “E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso e tendo visto Cerinto nos banhos, saltou para fora das termas sem ter-se banhado e disse: ‘Fujamos, não ocorra que também as termas venham abaixo por estar dentro Cerinto, o inimigo da verdade’”[11]. O zelo que João nutria pela verdade legou para os cristãos subseqüentes a munição necessária para que o erro religioso fosse combatido.

De fato, a heresia gnóstica teve que mover um verdadeiro arsenal de defensores da ortodoxia: os polemistas[12]. Inácio de Antioquia, Irineu, Justino, o mártir, Tertuliano e Hipólito foram alguns deles. Não era fácil combater os mestres gnósticos, pois, além de eles serem ótimos debatedores, o próprio gnosticismo, como já vimos, era bastante diversificado. Alguém comparou o gnosticismo à Hidra, um monstro (serpente) mitológico que tinha várias cabeças. Quando se cortava uma, nascia outra em seu lugar. Assim era o gnosticismo dos primeiros séculos. Por essa razão, essa heresia, enquanto sistema, não era fácil de ser refutada, uma vez que suas premissas possibilitavam aos inventores de religião criar o seu próprio “gnosticismo” com os elementos que preferissem. Dentre os principais mestres gnósticos estavam Saturnino (c.120); Basílides (c. 130); Valentino (c. 140), seu sucessor; Carpócrates; Cerinto; e Cerdon, dentre outros[13]. Mas nenhum deles, talvez, tenha chegado aos pés de um homem natural do Ponto, chamado Márcion (c. 160), sucessor de Cerdon. Dentre os mestres gnósticos ele foi, sem sombra de dúvidas, um dos maiores inimigos do cristianismo. Alguns chegam até a afirmar que, se havia alguém capaz de aniquilar o cristianismo nos primeiros séculos, esse alguém era Márcion. Irineu dedica boa parte da sua obra Contra as Heresias no combate a esse falso mestre, acusando-o de, por exemplo, mutilar o Evangelho de Lucas, “rejeitando narrativas referentes ao nascimento do Senhor”, uma vez que era docetista. Márcion também, segundo Irineu, mutilou as cartas de Paulo, “eliminando delas tudo que declara ser o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo o Deus que fez o mundo, bem como o ensino dos profetas anunciando o advento de nosso Senhor”. Ele estava criando o seu próprio cânon, o que forçou a Igreja a delimitar e reconhecer quais eram os livros verdadeiramente inspirados. Além disso, ele “persuadiu seus discípulos de que merecia mais crédito do que os apóstolos que legaram o Evangelho”[14]. Inácio de Antioquia também parece combater os ensinos de Márcion quando adverte os cristãos de sua época: “Torna-te surdo, quando te falam de um Jesus Cristo fora daquele que foi da família de Davi, filho de Maria, nasceu autenticamente, comeu e bebeu, padeceu verdadeiramente sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado e morreu verdadeiramente... De que me valeria estar em cadeias, se Cristo sofreu somente na aparência, como certos pretendem? Esses, sim, não passam de meras aparências”[15]. A pergunta feita por Inácio ecoa o mesmo argumento que Paulo havia exposto aos coríntios: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a nossa fé” (1Co 15.14). Outro polemista importante, Tertuliano, afirma que Márcion herdou o “bom deus” sossegado dos estóicos, uma vez que Márcion cria que o deus do Antigo Testamento é mau, cruel e imperfeito. Por este motivo ele se negava a identificar o deus veterotestamentário com o Deus do Novo Testamento que, segundo ele, era o verdadeiro Pai de Jesus. Tertuliano ainda afirma que “quando Márcion afirma que a alma perece, obedece a Epicuro; quando nega a ressurreição da carne, segue o parecer de uma dentre todas as filosofias; quando confunde matéria e Deus, repete a lição de Zenon; quando alude a um deus de fogo, torna-se aluno de Heráclito”[16]. Toda essa série de coisas fez com que Márcion se tornasse a persona non grata mais eminente dentre os hereges de sua época. Isso é atestado por uma ocasião em que ele, ao topar com Policarpo, perguntou-lhe: “Reconheces quem eu sou?”, ao que Policarpo respondeu: “Reconheço. És o primogênito de Satanás”[17]. Decerto, havia muitos outros hereges gnósticos altamente perigosos, mas entrar em detalhes sobre a vida de cada um nos exigiria uma investigação mais intensa (e extensa).

A influência gnóstica foi realmente uma praga dentro da Igreja, pois sua filosofia serviu de base para todas as outras heresias que surgiriam logo em seguida, principalmente àquelas que envolviam a Pessoa de Cristo e a Trindade[18]. Mas isso foi, de certa forma, bom, porque foi ali que a Igreja começou a cerrar fileiras e a fazer algumas definições teológicas importantes, como aconteceu nos concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), por exemplo. As heresias, num certo sentido, “ajudaram” a Igreja na formulação dos credos mais importantes do cristianismo, como o famoso Credo Apostólico. Como bom calvinista, penso que tudo foi providencial. É claro que não podemos cair no erro de “louvar” os hereges por isso, mas também devemos reconhecer o que de positivo tudo isso trouxe à fé cristã de um modo geral.

Como deve ter ficado mais do que evidente em nossa breve pesquisa, o gnosticismo é totalmente incompatível com a doutrina dos apóstolos e, por extensão, com todo o restante das Escrituras. As tentativas de se conciliar as duas partes não passam de teimosia incrédula. Os mestres gnósticos não estavam atacando apenas pontos “periféricos” do evangelho, e sim, o próprio cerne dele: a Cruz de Cristo. Sem a cruz não há Cristo; sem a cruz não há ressurreição; sem a cruz não há justificação; sem a cruz não há redenção; em suma, sem a cruz não há evangelho. Os gnósticos, a exemplo de muitas pessoas hoje, queriam chegar a Deus sem Cristo; queriam a salvação sem a cruz. Mas o esforço desses hereges não foi suficiente para aniquilar a cruz, pois o próprio Cristo havia prometido que “as portas do inferno” não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mt 16.18). A ortodoxia, a despeito dos fortes ataques que sofreu, se manteve de pé. Entretanto, os rastros do antigo gnosticismo perduraram, chegando até aos dias de hoje por diversos meios e de diversas formas e nomes, continuando a incomodar a Igreja militante de Cristo aqui na terra. A mentira ainda ronda por aí. Mas esse é um assunto para uma próxima conversa.

Continua na próxima postagem da série “A verdade sobre a mentira”, se Deus permitir.


Soli Deo Gloria!

Para baixar o artigo em PDF, clique aqui.
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[1] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 32).
[2] “Doutrina concernente à origem dos deuses, quase sempre relacionada com a formação do mundo” (verbete Teogonia, do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Larousse – versão eletrônica).
[3] H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. Aste, SP, 1998. Págs. 77.
[4] Uma tradição antiga atribui a Simão, o mago samaritano sobre o qual Lucas relata em Atos 8.9-25, a responsabilidade pela introdução do gnosticismo no cristianismo (cf. Eusébio de Cesaréia. História Eclesiástica. Livro IV, cap. 22.5).
[5] MacArthur, John. Guerra pela verdade. Editora Fiel, 2008. Pág. 121.
[6] Irineu. Adversus Haeresis. Na realidade, Irineu não fala explicitamente em quatro tipos de gnosticismo. Isso foi deduzido por Henry Bettenson, a partir da obra de Irineu Contra as Heresias (H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. Aste, SP, 1998. Pág. 77-80).
[7] Ver Santos, João Alves dos. Cristianismo e Gnosticismo: uma avaliação de sua incompatibilidade ao ensejo da publicação do “Evangelho de Judas”. Revista Fides Reformata XI, nº 1 (2006). Págs. 53, 54.
[8] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 33).
[9] Adversus Haeresis. XXVIII. 1. Citado por John Stott em I, II e III João – introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1982. Pág. 41.
[10] Para mais detalhes, ver Eusébio de Cesaréia em História Eclesiástica. Livro II, cap. XXVII.1-6.
[11] História Eclesiástica. Livro IV, cap. 14.6.
[12] “Polemista” difere de “Apologista” pelo fato de que os polemistas defendiam a fé dos ataques internos (dos hereges), ao passo que os apologistas, dos ataques externos (dos pagãos, agnósticos etc.).
[13] Para uma lista mais completa, ver História Eclesiástica. Livro IV.
[14] Irineu. Contra as Heresias. I.XXVII.2-3. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Págs. 80-81).
[15] Inácio. Ad Trall. IX-X. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 77).
[16] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 33).
[17] Idem. Livro IV, cap. 14.7.
[18] Como o Arianismo, o Monarquianismo (Patripassionista e Sabeliano), o Apolinarismo, o Nestorianismo e o Eutiquianismo, por exemplo, além do Montanismo, que Tertuliano veio abraçar depois.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A verdade sobre a mentira (parte 1) – “A mentira sobre a Verdade”

Tertuliano estava coberto de razão quando disse que “o demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la” [1]. Na ocasião, ele estava em defesa da ortodoxia em meio a uma controvérsia cristológica, em meados do século III, onde muitos inimigos da cruz lançavam mão da própria Verdade para negar tanto a plena divindade quanto a plena humanidade de Cristo. Não era uma discussão sobre a forma de batismo ou governo da igreja; sobre usos e costumes ou a guarda de dias sagrados – era o próprio cerne do Evangelho que estava em jogo. Os falsos mestres estavam contando mentiras sobre a Verdade, levando muitas vidas à completa ruína eterna.

Na realidade, a assertiva de Tertuliano remonta aos primórdios da humanidade, ao Éden. Ali, vemos entrar em ação o especialista par excellence na arte de perverter a Verdade. O homem vivia em comunhão com a Verdade (Deus), até o dia em que a Mentira (Satanás) desviou-lhe do caminho, cegando-lhe o entendimento. A Serpente, após ter questionado a Verdade da Palavra de Deus, torceu-a por completo, ao dizer à mulher: “é certo que não morrerás” (Gn 3.1-4). E, depois de questionar e torcer a verdade, a Serpente inventa uma versão “alternativa” dela: “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5 – itálico meu). Esse engodo maligno resultou na Queda da raça humana, trazendo-lhe conseqüências terríveis. Ainda no livro de Gênesis, temos uma pequena mostra de como isso foi trágico. O primeiro assassinato da história humana foi mediado pela mentira. Caim chamou seu irmão Abel para ir ao campo com o único propósito de matá-lo (Gn 4.8). Abraão, o “pai da fé”, utilizou-se da mentira para se safar da morte, quando esteve no Egito, causando maldição àquela terra (Gn 12.10-20). Os irmãos de José, depois de terem-no vendido, molharam sua túnica com sangue de bode, para que seu pai, Jacó, pensasse que José havia sido comido por feras selvagens (Gn 37.29-35). A mulher do faraó egípcio Potifar, ao ser rejeitada por José, quando o tentava, disse a seu marido que foi José quem tentou agarrá-la, causando a prisão deste (Gn 39.7-20). A tragédia nesses exemplos está justamente no fato de que a mentira angariou credibilidade em detrimento da verdade.

Nos evangelhos, notamos como Jesus lidou com essa questão. Durante seu ministério aqui na terra, ele se deparou com alguns judeus que tentavam torcer a verdade a seu favor, dizendo que tinham por pai a Abraão e, por conseguinte, a Deus (Jo 8.39-41). Jesus foi inexoravelmente incisivo com eles, dizendo-lhes que, na realidade, eles eram filhos do diabo, o “pai da mentira” (Jo 8.44). Jesus não se utilizou de eufemismos para amenizar a real condição daqueles que vivem subvertendo a verdade da Palavra de Deus. Quando Jesus estava para ser julgado, “os principais sacerdotes e todo o Sinédrio” procuravam um testemunho falso (pseudomartys) contra ele, “a fim de o condenarem à morte” (Mt 26.59). Dentre as muitas falsas testemunhas que havia, apenas duas decidiram comparecer ao tribunal. Aliás, segundo o que prescrevia a Lei, seriam necessárias no mínimo duas testemunhas no caso de se requerer a pena de morte a alguém (Nm 35.30; Dt 17.6; 19.15ss). A acusação delas foi a seguinte: “Este [ou seja, Jesus] disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias” (Mt 26.61). Ora, se formos ler o que Jesus disse em João 2.19 (“Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei”) veremos que a informação daquelas pessoas procedia. Entretanto, o que faz delas falsas e mentirosas é justamente o fato de usarem um aspecto da verdade contra A Verdade! Elas, além de não haverem compreendido o que Jesus quis dizer com “destruir o santuário”, incorreram na violação do nono mandamento: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16), tornando-se, com isso, passíveis da punição divina (se bem que já o eram desde o ventre!). A mentira é inimiga mortal da Cruz.

Para o apóstolo Paulo, tudo o que a mente humana não-regenerada pensa e fala acerca da Verdade é mentira, ainda que o homem conserve lampejos da imago Dei (cf. At 17.28 e todo o contexto). Aliás, para o apóstolo, a raiz da idolatria está justamente no fato de que os homens “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm 1.25). Paulo está escrevendo num contexto em que ele atrela a idolatria humana à sua natureza corrupta. Quando se é corrupto por natureza, a deturpação de toda e qualquer noção de verdade é deliberada. Essa verdade já havia sido ecoada pelo salmista Davi, quando disse que “desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras” (Sl 58.3 – itálico meu). É por esse motivo que Paulo instrui os cristãos de Éfeso a deixarem a mentira (Ef 4.25), revestindo-se do “novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24 – itálico meu). Paulo ainda nos mostra algumas ramificações da mentira. Ele nos fala em “falsos irmãos” (pseudadelphos – 2Co 11.26; Gl 2.4); “falsos apóstolos” (pseudapostolos – 2Co 11.13); e daqueles que vivem “falando mentiras” (pseudologos – 1Tm 4.2). Esses tais são emissários de Satanás, que se passam por ministros de Cristo e da justiça (2Co 11.13-15). Como é de se notar, o maior perigo não está fora da igreja, e sim, dentro dela, por conta dos lobos disfarçados de ovelhas que se infiltram sorrateiramente nos arraiais. Pedro (2Pe 2.1) e João (1Jo 4.1) também alertam a seus destinatários sobre o perigo desses “falsos profetas” (pseudoprophetes).

A mentira atravessou os séculos e chegou até aqui intacta. A diferença é que ela só mudou de roupa. Se a igreja primitiva, que ainda estava sob a tutela dos apóstolos sofria desse mal, o que dizer da igreja do século XXI, na qual o próprio conceito de uma única Verdade é rechaçado? Qualquer um que hoje defenda a existência de uma verdade única logo é taxado de intolerante, fundamentalista e intransigente. Isso explica a confusão doutrinária que se estabeleceu em nosso meio. Há uma gama enorme de sofismas pós-modernos que são aceitos como verdade em muitos círculos ditos cristãos. E o resultado disso é que a Verdade tem sido deliberadamente subvertida a fim de endossar práticas e doutrinas totalmente antagônicas à Bíblia. A velha Serpente está a todo vapor!

Em dias em que a Verdade tem sido tão subjugada e corrompida, cabe à igreja de Deus, que é a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15), ser a sua guardiã. Deus não outorgou esse poder a nenhuma outra instituição que porventura exista na face da terra, a não ser à sua própria Igreja, que ele comprou com o sangue do Seu Filho. O mundo descrente tem militado de todas as formas contra a Revelação de Deus. As modernas campanhas ateístas são prova disso. Uma verdadeira “guerra” pela Verdade foi instaurada. Urge, pois, que os bons “soldados de Cristo” estejam aptos a combater os inimigos da cruz nessa batalha.

Soli Deo Gloria!


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[1]H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo. Editora Aste, 2001. Pág. 81


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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Heresias escondidas dentro de uma Cabana



O escritor canadense William Paul Young saiu do anonimato para a fama ao publicar um livro que se tornaria, em muito pouco tempo, um verdadeiro sucesso. Com mais de dois milhões de cópias vendidas e status de best-seller, “A Cabana” tem cativado a mente de muitas pessoas ao redor do mundo, especialmente/inclusive dos cristãos. Em linhas gerais, o livro conta a história de Mackenzie Allen Phillips, o “Mack”, um pai de família que encontra a Deus depois de ter sua filha caçula, Missy, raptada e brutalmente assassinada por um maníaco assassino de crianças (um serial killer). Cerca de três anos e meio depois do ocorrido, Deus, ou melhor, “Papai”, manda uma carta para Mack marcando um encontro com ele exatamente na cabana onde a polícia havia encontrado o vestido usado por Missy todo encharcado de sangue. Mack, depois de lutas intensas consigo mesmo, resolve aceitar o “encontro”, mesmo desconfiando de uma possível cilada do assassino de sua filha. Ao chegar lá, Mack tem uma, ou melhor, três surpresas: Deus lhe aparece na pessoa de uma mulher “negra enorme e sorridente” (pág. 73). Logo depois aparecem o Espírito Santo, na pele de uma mulher asiática, chamada Sarayu, e Jesus, um homem médio-oriental (hebreu, pra ser mais preciso) vestido de calça jeans e camisa xadrez. A partir de então, Mack vai viver uma inesquecível aventura ao lado dessa ilustre “Trindade”.

Qualquer cristão que tenha um mínimo de conhecimento de História da Igreja saberá que A Cabana nada mais é do que o ressurgimento de algumas das antigas heresias que tumultuaram a vida e o andamento da Igreja Antiga, principalmente aquelas que envolviam questões sobre a Trindade. Do ponto de vista teológico, o livro oscila entre heresias implícitas e explícitas; do ponto de vista literário, entre frases de efeito medíocres (quase sempre) e alguns poucos insights interessantes. Seu enredo envolvente propõe-se a apanhar os desavisados.

Não sei qual foi a experiência eclesiástica do autor de A Cabana, mas posso presumir que não foi das melhores. Torna-se patente, em muitas partes do livro, o desprezo pela igreja e pela adoração corporativa, ressaltando-se e a valorização da experiência pessoal, como bem reza a cartilha pós-moderna.
[Mack] Percebeu que estava travado e que as orações e os hinos dos domingos não serviam mais, se é que já haviam servido [...] Mack estava farto de Deus e da religião, farto de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam fazer nenhuma diferença expressiva nem provocar qualquer mudança real. Mack certamente desejava mais (pág. 54 – versão digital. Itálico meu).
Parece que a intenção inicial do livro não é a de levar os leitores a uma nova perspectiva sobre a Trindade, e sim, que eles desacreditem da Igreja como sendo a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e sigam atrás de outras alternativas de encontrar Deus. Em minha opinião, esse é o maior perigo que o livro oferece.

Quando o assunto, finalmente, é a Trindade, A Cabana traz à tona várias heresias antigas (não pretendo fazer comentários exaustivos sobre todas elas). Como já disse anteriormente, Mack vai à cabana encontrar Deus, que lhe aparece no corpo de uma mulher de pele negra. Logo de cara, vemos a verdadeira alma do paganismo, a saber, materializar Deus dando-lhe alguma forma física. Entendo perfeitamente que se trata de um romance e, como tal, precisa de personagens para dar substância ao enredo. Mas, em se tratando do Senhor Deus Todo-Poderoso, essa regra não deve ser aplicada em hipótese alguma. É exatamente isso que Deus expressamente proíbe no Segundo Mandamento (Ex 20.4-5). Jesus mesmo declarou que “Deus é Espírito” (Jo 4.24). Não devemos emprestar a Deus as formas vãs e tolas que concebemos em nossas mentes pecaminosas (cf. Rm 1).

Uma das antigas heresias às quais me referi há pouco é o Patripassianismo, doutrina monarquianista[1] segundo a qual foi o próprio Deus quem morreu na cruz, em vez de Jesus. Tertuliano combateu esse ensino com bastante veemência. Quando, certa vez, ele disse que “o demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la”, estava se referindo justamente a essa heresia, que estava sendo largamente difundida por Práxeas. Ele continua dizendo que “Ele [o demônio] defende a unidade de Deus, o onipotente criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética[2]”. Em uma passagem de A Cabana essa heresia é claramente visível:
Papai não respondeu, apenas olhou para as mãos dos dois. O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como as que agora presumia que Jesus também tinha nos dele. Ela permitiu que ele tocasse com ternura as cicatrizes, marcas de furos fundos, e finalmente Mack ergueu os olhos para os dela (pág. 86. Itálico meu).
Embora Jesus seja Deus, sabemos que não foi Deus, o Pai, quem morreu na cruz. Deus não tem as marcas dos pregos em seus punhos, como A Cabana quer que acreditemos. Foi o Seu Filho quem foi crucificado. No afã de ressaltar a unidade da Trindade, o Monarquianismo acabou resumindo tudo a uma só pessoa. Em mais uma declaração claramente sabeliana[3], “Papai” diz a Mack que “quando nós três penetramos na existência humana sob a forma do Filho de Deus, nos tornamos totalmente humanos” (pág. 85). Mas não é esse o ensino bíblico. A Palavra de Deus é bastante clara quando se refere ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como sendo Pessoas distintas que possuem uma mesma essência (ver Mt 28.29; 2 Co 13.13; 1 Jo 5.7; 2 Jo 3). E o pior de tudo é que, para confundir ainda mais o leitor, “Papai” desdiz tudo o que houvera dito antes, dizendo que
Não somos três deuses e não estamos falando de um deus com três atitudes, como um homem que é marido, pai e trabalhador. Sou um só Deus e sou três pessoas, e cada uma das três é total e inteiramente o um (pág. 87).
Seria algo equivalente à “Metamorfose Ambulante” proposta por Raul Seixas (“eu vou lhes dizer agora o oposto do que eu disse antes”)? Será que dá pra confiar no “Deus” proposto por William P. Young?

Mas os problemas não param por aí. Como se não bastasse, o livro também nega a divindade de Jesus. Em uma conversa entre Mack e Papai, Mack pergunta:
— Mas... e todos os milagres? As curas? Ressuscitar os mortos? Isso não prova que Jesus era Deus... você sabe, mais do que humano?
— Não, isso prova que Jesus é realmente humano.
[Papai continua...]
— Fez isso como um ser humano dependente e limitado que confia na minha vida e no meu poder de trabalhar com ele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém (pág. 90).
Ora, o que temos aqui não é o velho Ebionismo, que pregava que Jesus tornou-se Messias pelo Espírito Santo? Ou, ainda, o Arianismo, que dizia que Jesus era um simples homem elevado a uma categoria superior à dos demais seres humanos? O autor faz um divórcio entre a Humanidade e a Divindade de Jesus quando diz que “Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém”, quando, na realidade, as duas naturezas de Cristo são inseparáveis. Nas palavras de John Stott, “Jesus não é Deus disfarçado de homem e nem um homem disfarçado de Deus”. Ele é Deus-Homem, como bem foi definido em Calcedônia no ano de 451 d.C. E para dar mais ênfase ainda na humanidade de Cristo, a personagem Jesus “deixara cair uma grande tigela com algum tipo de massa ou molho no chão, e a coisa tinha se espalhado por toda parte” (pág. 95), o que rendeu boas gargalhadas a Mack e Papai. Era só o que faltava: um Jesus todo atrapalhado!

O livro prossegue no enredo seguindo a tônica do “o importante é relacionar-se”. Nada de imposições, de regras. Amor pressupõe liberdade. Baseado nesse pensamento o autor constrói, ou melhor, desconstrói a questão da hierarquia na Trindade. É assim que “Jesus” define a questão:
Esta é a beleza que você vê no meu relacionamento com Abba e Sarayu. Nós somos de fato submetidos uns aos outros, sempre fomos e sempre seremos. Papai é tão submetida a mim quanto eu a ela, ou Sarayu a mim, ou Papai a ela (pág. 129 – versão digital).
Sarayu, que personifica o Espírito Santo, diz que a hierarquia não faria sentido entre a Trindade (pág. 112). Como é que fica, então, frases como “Seja feita a vossa vontade”? Não havia uma submissão do Filho ao Pai? Jesus disse que desceu do céu para "fazer a vontade do Pai"(Jo 6.38). A Cabana não se coaduna com a Bíblia aqui.

Outro ponto que chama alguma atenção no livro é a questão da onisciência de Deus. Apesar de em alguns pontos ela ser ressaltada (págs. 81, 147, 148, 174, 192 e 206, e.g.), o livro parece bem confuso neste aspecto. Nas páginas 129-130, por exemplo, Jesus diz que “é impossível ter poder sobre o futuro, porque ele não é real, e jamais será”. Sophia, uma personagem que representa a Sabedoria de Deus (Teosofismo?) diz que Deus não pôde impedir a morte de Missy (pág. 151), e que tal tragédia “não foi nenhum plano de Papai” (pág. 152). Entretanto, mais uma vez ele se contradiz, ao afirmar que poderia ter impedido o que aconteceu a Missy (pág. 204). Os leitores mais familiarizados com as tendências teológicas pós-modernas saberão que isso se trata de Teísmo Aberto, uma doutrina que remonta ao Socinianismo do século XVI. Segundo essa ideia, o futuro não pode ser plenamente conhecido (nem mesmo por Deus!), pois depende das ações dos seres humanos (chamados de “agentes livres”). Isso inclui também as tragédias naturais (como o Tsunami, por exemplo). Se isso é verdade, como é que fica, então, a questão do Dilúvio? E de Sodoma e Gomorra? Não foi o próprio Deus quem orquestrou tudo? Não é justamente isso que Ele diz em Isaías 45.7 (“... faço a paz e crio o mal”)? William P. Young parece não acreditar muito nisso.

A verdade do Evangelho é outra questão que está em jogo em A Cabana. Como diria a máxima modernista, “tudo o que é sólido desmancha-se no ar”. Nada de certezas, convicções. Papai mesmo é quem diz a Mack que “a fé não cresce na casa da certeza” (pág. 176), declaração que faria Brian McLaren e Ricardo Gondim babarem! Sarayu diz: “gosto demais da incerteza” (pág. 190). Em outra ocasião Papai diz a Mack: “Quem quer adorar um Deus que pode ser totalmente conhecido, hein? Não há muito mistério nisso” (págs. 85 e 86 – versão digital). E as farpas contra a igreja continuam. Jesus diz: “não crio instituições” (pág. 166). Logo em seguida, numa declaração hilariante, ele afirma categoricamente: “eu não sou cristão” (pág. 168). Aliás, para esse Jesus, o evangelho não é exclusividade. Diante do pluralismo religioso “Jesus” é bastante inclusivista. Ele mesmo diz que
Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa (pág. 168).
Realmente, para um Deus que disse que “a morte dele [de Cristo] e sua ressurreição foram a razão pela qual eu agora estou totalmente reconciliado com o mundo” (pág. 180 – itálico meu) isso não é problema. Universalismo? Imagina! “Não preciso castigar as pessoas pelos pecados” (pág. 109). “Em Jesus eu perdoei todos os humanos por seus pecados contra mim, mas só alguns escolheram relacionar-se comigo”, disse Papai (pág. 209). Que estranho, não? Todo mundo perdoado e alguns que se relacionam? Bom, se é ele quem está falando, quem sou eu para questionar? No meio de toda essa confusão Mack parecia mesmo estar totalmente perdido. Foi “barrado” inclusive de ter seu momento devocional, quando foi perguntar pelas orações, ouvindo da boca de Papai: “nada é um ritual” (pág. 194). Coitadinho do Mack! Não tinha razão em nada! Mesmo quando pensou em Jesus como referencial de vida, um exemplo a ser seguido, ouviu da boca do próprio: “minha vida não se destinava a tornar-se um exemplo a copiar” (pág. 136). E agora, José, ou melhor, Mack? Caía por terra diante de seus olhos toda a instrução apostólica para que sejamos “imitadores de Deus” (Ef 5.1; 1Pe 1.16).

Ainda não acabou. Falta o “filé mignon”. Que tal uma pitadinha de Espiritismo para temperar nossa estória? Pois é. Mack vê sua filha, Missy! Uau! Que emocionante, hein? Foi Sophia (uma médium?) quem proporcionou esse encontro (pág. 153). E tem mais. Mack reencontra o seu pai (pág. 200), que ele havia envenenado depois de ter levado uma surra que o deixou de cama por duas semanas quando ele tinha apenas 13 anos de idade. Abre parêntese. O pai de Mack era um alcoólatra que batia na esposa, e Mack contou isso a um irmão da igreja da qual seu pai era membro. Fecha parêntese. Esse era um segredo que Mack guardava a sete chaves. Realmente, ele tinha muitas feridas que precisavam ser curadas. Então, por que não fazê-lo com uma sessão espírita? Os dois se abraçaram e fizeram as pazes, com direito a beijinho na boca e tudo (pág. 201). Jesus gosta tanto dessa ideia de beijar na boca que resolve fazer o mesmo com Papai (pág. 205).

Perdoem-me aqueles que ainda não leram o livro, pois revelei muitos dos seus suspenses. Achei por bem não expor absolutamente tudo de errado que encontrei. Expus apenas aquilo que considerei necessário. É perfeitamente compreensível o fato de A Cabana encabeçar o ranking dos livros mais vendidos[4], afinal de contas as pessoas estão à procura de um "Deus" (deus!) que se ajuste às suas pretensões. O que nos preocupa, entretanto, é saber que dentre os que financiam esse tipo de heresia estão aqueles que se professam crentes em Cristo. Sei que se trata de uma ficção, mas infelizmente não é dessa forma ela tem sido encarada. Perguntado sobre o que ele quer que as pessoas concluam ao lerem A Cabana, numa entrevista, William P. Young declarou que deseja que as pessoas “saibam ou tenham a noção de que Deus é bem maior do que eles já imaginaram”[5]. Lembrando de trechos do livro, sinceramente ainda não consigo enxergar grandeza alguma no “Deus” apresentado por Young. O que vi foi uma divindade deficiente que se curva aos caprichos humanos. Continuo preferindo o Deus que se revelou nas Escrituras. Este sim é a minha Rocha!

“Se alguém vos prega evangelho que vá
além daquele que recebeste,
seja anátema”! (Gl 1.9)

Soli Deo Gloria!!!

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Obs.: As referências tiradas do livro variam entre a versão impressa (Editora Sextante, 2008) e uma versão digital (e-book). Li o livro na versão impressa e fiz minhas anotações, mas devolvi-o ao dono (peguei o livro emprestado!). Depois anotei mais coisas na versão digital. É por isso que eu especifico as páginas e suas respectivas versões quando faço citações.

[1] O Monarquianismo, doutrina desenvolvida no final do século II e início do III, enfatizava tanto a unidade de Deus que acabou se transformando em numa espécie de Unitarismo, negando a realidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo como Pessoas distintas.
[2] Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo, 2001. Editora Aste, Pág. 81.
[3] Sabélio ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só e mesma essência, três nomes diferentes para a mesma substância. “Deus se manifestou como Pai no Velho Testamento, depois como Filho para redimir o homem e como Espírito após a ressurreição de Cristo. Não houve, então, três pessoas em Deus mas três manifestações” (Earle E. Cairns. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo - SP, 1988. Editora Vida Nova, Pág. 83). Esse ensino ficou conhecido como Monarquianismo Modalista.
[4] Segundo a Revista Veja, em http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/
[5] http://www.youtube.com/watch?v=EaGMliCxyWY.

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