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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dos "milagres" que não glorificam a Deus

Eu não pretendia escrever sobre isso hoje. Aliás, eu nem pretendia escrever hoje, uma vez que minhas atenções agora estão voltadas para minha mudança de cidade e com tudo o que isso acarreta (para quem não sabe, fui transferido para Santarém-PA e esta é a minha última semana aqui em SP). Mas, é que eu me deparei com algo que realmente me instigou. E me irritou! Na realidade, já faz tempo que coisas desse tipo tem me irritado. Não aguento mais ouvir falar em milagres, curas e “unções” que estão sendo derramadas por aí em nome de Deus, mas que em nada O glorificam. Sinceramente, sou meio desconfiado (ou “desconfiado e meio”, se preferirem) com certos “milagres” que tem sido divulgados por aí. Não apenas pelo fato de alguns serem extremamente bizarros e duvidosos, mas principalmente pelo fato de que a maioria deles não tem como meta o Soli Deo Gloria.

Acessando a internet hoje, “sem querer querendo” me deparei com mais um caso desses. Foi o do Valdir, “o homem que fala sem língua”.

Valdir de Souza era viciado em drogas há mais de 12 anos. Na madrugada do dia 28 de maio de 93, marcou um encontro com seus colegas em sua casa para mais uma noite de bebedeira. Naquela madrugada, embriagaram-se e drogaram-se até que Valdir começou a passar mal. Seu coração começou a bater forte e com movimentos taquicardíacos. Nisso, sua língua adormeceu e enrolou para dentro da garganta.


Ele conta que pediu ajuda aos seus colegas, porque já estava ficando sufocado. Apavorados, um deles tentou puxá-la para fora e, como não conseguia sustentá-la, segurou-a com sua própria boca, prendendo-a entre os dentes e cortou-a na metade.


As forças se acabaram e Valdir sentiu-se separado do seu corpo, e que seu espírito se dirigia para as trevas caminhando para o abismo. Ao vê-lo desmaiado, seus amigos o levaram para o Hospital Municipal do Tatuapé, onde teve sua língua completamente amputada pelos médicos. Desenganado pela Medicina, sem poder falar, recebeu a visita de sua mãe que lhe falou sobre Jesus Cristo. Ele fez um voto com Deus: que ao sair do hospital iria a uma igreja. Assim fez. Pegou uma Bíblia emprestada e foi. No momento em que era feita a oração pelos dons espirituais, foi à frente. Na oportunidade, aceitou a Jesus Cristo como Salvador de sua alma.


Durante a oração, pediu a Deus para que parasse de babar, voltasse a sentir paladar e que passasse a falar novamente. Segundo suas palavras, naquele momento a unção do Espírito Santo desceu sobre aquele lugar. Sentiu como se estivesse flutuando e uma língua invisível começou a bater de um lado para outro em sua boca. Disse ele: “Comecei a falar em línguas estranhas e a primeira palavra que pronunciei foi uma glorificação a Deus. Hoje falo, alimento-me normalmente, sinto paladar e paz completa com Deus”

[Fonte: clique aqui].

Sinceramente, a ideia de alguém flutuando com uma língua invisível batendo de um lado para o outro em sua boca é simplesmente inconcebível (para não dizer ridícula) para mim. E o pior de tudo é que pessoas assim geralmente acabam se transformando em pregadores itinerantes! Não. Eu não estou, aqui, duvidando se Deus ainda opera milagres nos dias de hoje. Creio, sim, que haja casos genuínos de curas operadas por Aquele que governa os céus e a terra. Contudo, não creio que todos os que arrogam para si legitimidade sejam mesmo genuínos. Além das muitas farsas e bizarrices flagrantes, há também muitas “atitudes suspeitas” naqueles que nos dizem que o que eles estão fazendo é para a glória de Deus.

Casos como o do Valdir tem sido o motivo da superlotação de muitos templos ditos evangélicos espalhados por esse país afora. As pessoas são atraídas não pelo Deus que operou o milagre, e sim pelo milagre em si mesmo. A situação é agravada ainda mais quando o caso recebe atenção da mídia, onde a pessoa que recebeu o “milagre” é convidada a dar o seu testemunho em algum programa de televisão famoso. E o curioso é que ninguém se interessa pelos milagres “ordinários”, como o abandono da mentira, da prostituição, da inveja, da malícia, do dolo, das relações extraconjugais, da ganância e das manifestações mais grotescas (e sutis, também) de pecado, e sim, pelos milagres sobrenaturais, como galinhas falando em línguas, pessoas que morreram e voltaram à vida, o câncer que desapareceu, homens que falam sem a língua e coisas do tipo. Para se ter uma ideia disso, em um dos programas do “apóstolo” Valdemiro Santiago, ele chegou ao ponto de dar um sabonete usado por ele a uma de suas ovelhas, para que esta fosse curada de uma certa enfermidade. E o pior de tudo é que essa tal senhora voltou depois para dar o seu testemunho dizendo que o sabonete usado pelo “apóstolo” estava realmente ungido por Deus, pois ela havia sido curada de fato! “Sabonete ungido”… Dá pra acreditar?!

Há tempos atrás eu diria que não consigo entender como é que as pessoas se deixam enganar a tal ponto. Mas hoje eu nem me pergunto mais, porque penso que já sei o porquê. Fico com Paul Washer, que disse que “os falsos profetas são o castigo de Deus para um povo rebelde”. PONTO. Não me surpreendo mais com essas esquisitices que acontecem no mundo gospel, porque foi o próprio apóstolo Paulo quem disse que nos últimos dias as pessoas procurarão pregadores que satisfaçam a coceira dos seus ouvidos (2Tm 4). E o fato é que, onde Deus não for verdadeiramente glorificado, a coceira só aumentará (para a própria destruição de quem a sente e de quem a “resolve”).

Soli Deo Gloria!

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A propósito do “ET do Panamá”

Na semana passada, mais precisamente na quinta-feira (17/09), o mundo ficou surpreso com a aparição de um animal bizarro, de aparência esquisita, encontrado por quatro adolescentes na localidade de Cerro Azul, no Panamá. Os adolescentes panamenhos disseram que mataram o bicho a pedradas porque temeram ser atacados pela criatura. Pela aparência descomunal e “alienígena” do bicho, as comparações a seres extraterrestres logo não demoraram a aparecer. As autoridades locais ainda não conseguiram identificar o “corpo”, descartando, com isso, todas as especulações circundantes. Porém, alguns biólogos já se antecipam dizendo que o bicho pode ser uma espécie de preguiça.

Fico impressionado como notícias sensacionalistas “bombam” na mídia com a única finalidade de serem desmentidas logo em seguida pelos especialistas de plantão (que tal o “Detetive Virtual” do Fantástico?). Mas, nesse caso do “ET do Panamá”, algo pode ser aproveitado a guisa de ilustração. Para fins didáticos, vou considerar a hipótese dos referidos biólogos como verídica para o que pretendo abordar (ainda que depois seja comprovado que se tratava de uma espécie em extinção. Nesse caso, terei de escrever algo sobre o Evolucionismo). Suponhamos que o bicho se trata mesmo de uma preguiça (lembrem-se: é uma ilustração, e, como tal, tem as suas limitações).

Há muitos crentes hoje que se desculpam de suas “preguiças” (usarei aspas quando for metafórico) atribuindo seus insucessos a uma conspiração maligna (o “ET”, nesse caso). Para os tais, sempre que um filho de Deus fracassa em algum empreendimento é porque a mão do inimigo está por trás. Nesse caso, é necessário passar por uma “sessão de descarrego” ou algo do gênero. Conheço crente que está até hoje desempregado porque fica somente orando em casa, esperando o empregador vir chamá-lo na porta. “Eu estou só vigiando e orando, irmão. E a Palavra diz que ‘Deus não rejeita oração’. A oração do justo pode muito em seus efeitos”. O interessante é que esse mesmo crente que cita de cor Tiago 5.16 (“a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” – ARC) é incapaz de lembrar-se de Provérbios 6.6: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio”; e mais: “Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?” (Pv 6.9). ABRE PARÊNTESE. Certo dia eu conversava com um irmão sobre uma situação hipotética que me ocorreu à mente. Ei-la: Conheço um irmão que estava muito desejoso de passar em um concurso público muito concorrido. Muito fervoroso, ele me falou que ia pedir umas orientações ao “apóstolo” fulano de tal, e perguntou o que eu achava da ideia. Eu lhe sugeri que, em vez de ficar correndo atrás do “apóstolo”, que ele consultasse a esposa deste: a apostila. FECHA PARÊNTESE.

Mas isso não é uma particularidade das ovelhas, não. Já ouvi muitos pastores se desculpando de suas “preguiças” ministeriais colocando a culpa nas circunstâncias. Não deu para visitar uma ovelha enferma porque o “diabo” (o “ET”) o enfermou também; não deu para preparar um sermão expositivo para o culto dominical porque “tive que atender a umas urgências” (que, geralmente, não eram mais urgentes do que a pregação). Tudo isso se explica porque hoje a maioria dos pastores se divide entre o ministério e mais um emaranhado de atividades extras, e não dão a devida prioridade ao rebanho que Deus lhes confiou. Essa é a causa, dentre outras, da pobreza dos púlpitos e do raquitismo do rebanho. Se não há tempo para preparar um sermão, então não há nutrição para as ovelhas. Só restam ao rebanho os fast-foods espirituais: contam-se duas ou três piadinhas, mais uma ilustração, uns chavões básicos (de preferência em voz gritante), e pronto. Tudo isso em vinte minutos, no máximo (e quando dá). Aliás, o fast-food é o prato favorito dos preguiçosos: não dá trabalho, é prático e é gostoso. Confesso que, todas as vezes em que não estou com muita coragem para preparar um prato mais salutar, lanço mão de um hambúrguer, no carrinho de lanche mais próximo, para não ter o trabalho de fazer em casa. Sei que não sou o único a fazer isso (“quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”!). Mas, em se tratando de alimento espiritual, somente o alimento sólido é que pode matar a fome. O resto só distrai a barriga.

Não sei quando é que o caso do “ET do Panamá” será resolvido. Talvez as pesquisas só sejam concluídas quando o assunto cair no esquecimento. Mas uma coisa é fato: o Panamá, a partir de então, não será conhecido apenas pelo seu Canal (o “Canal do Panamá”): agora eles tem um “ET” próprio, que não é aquele hollywoodiano inventado por Steven Spielberg. A não ser que o bicho seja mesmo uma preguiça (para o desespero dos panamenhos e dos crentes preguiçosos).

Soli Deo Gloria!!!
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Análise da Música "Os Sonhos de Deus", de Ludmila Ferber


[Escrevi esse texto a irmãos de um grupo de louvor de uma igreja histórica que queriam incorporar a referida música aos cânticos congregacionais de sua igreja local. Acredito que, por isso, os leitores reformados hão de compreender minha parcimônia.]

Se tentaram matar os teus sonhos
Sufocando o teu coração
Se lançaram você numa cova
E, ferido, perdeu a visão
Não desista, não pare de crer
Os sonhos de Deus jamais vão morrer
Não desista, não pare de lutar
Não pare de adorar
Levanta teus olhos e vê:
Deus está restaurando os teus sonhos
E a tua visão
Recebe a cura
Recebe a unção
Unção de ousadia
Unção de conquista
Unção de multiplicação


Análise

A música fala sobre uma pessoa que está sendo ameaçada de ver os seus sonhos mortos e o coração sufocado; que foi jogada ferida e sem visão dentro de uma cova. A autora, então, encoraja tal pessoa a não desistir; a não deixar de crer; não parar de lutar, de adorar; a levantar os olhos e ver que Deus está restaurando os seus sonhos e a sua visão, pois “os sonhos de Deus jamais vão morrer”. A seguir ela declara que a pessoa receba a cura e a unção de ousadia, de conquista e de multiplicação.

A começar pelo título a música já comete um erro teológico gravíssimo: o de afirmar que Deus sonha. Essa afirmação (“os sonhos de Deus jamais vão morrer”) não encontra sustentação bíblica nem teológica. Quando afirmo que Deus “sonha” eu estou tirando-O da sua posição de soberania e reduzindo-O à categoria de ser submisso. Deus não sonha, Ele age (“E disse Deus: ‘Haja luz’. E houve luz” – Gn 1.3); Deus não sonha, Ele determina (“Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda” – Sl 139.16). Portanto, devemos ter muito cuidado em atribuir metáforas a Deus que não se harmonizam com os seus atributos.

Esse erro que acabamos de detectar puxa um outro, que é o de tornar Deus passivo na história e o homem senhor dela. Note que, na música, o sujeito não é Deus, e sim, o homem. Ou seja, para que as coisas aconteçam é preciso que você, e não Deus, tome a iniciativa. Esse pensamento, que na realidade é uma doutrina, é conhecido como “Confissão Positiva”, que prega que você deve ter um pensamento positivo para ser vitorioso. A autora apela para os sentidos do ouvinte, e não para a razão, ao usar palavras como “sonho”, “coração”, “visão”, “cura” e “unção” para indicar que atitude se deve tomar diante das dificuldades. Além disso, parece haver aqui uma pitada de “batalha espiritual” (“não desista, não pare de lutar”), que é um tema bem presente nos grupos denominados neopentecostais.

O refrão é o expoente máximo de toda a teologia contida no restante da música, pois nele estão os seus elementos essenciais. “Recebe a cura/ recebe a unção/ unção de ousadia/ unção de conquista/ unção de multiplicação”: aqui estão algumas das palavras-chave do movimento conhecido como G-12 (Grupo dos 12, em referência aos doze apóstolos), do qual a autora é adepta (assim como Diante do Trono, David Quinlan e outros). Receber a cura, aqui, significa ter a “visão dos 12”, frase bastante usada por esse grupo; receber a unção pode significar, dentre outras coisas, receber o título de apóstolo, como o fazem muitos dos líderes do G-12, para não dizer todos, ou mesmo uma capacitação especial; unção de ousadia significa não medir esforços para combater os principados e potestades, fazendo com que o evangelho seja pregado, não importa de que forma; unção de conquista significa, por exemplo, declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus”, conquistando as regiões celestes que estão dominadas pelas hostes malignas, por meio de “Marcha pra Jesus” e coisas do gênero; unção de multiplicação significa igreja em células, método de crescimento das igrejas neopentecostais que adotam a filosofia do G-12 (uma célula contém doze pessoas; cada célula tem um líder; doze células são lideradas por um pastor-supervisor, e assim sucessivamente).

Para concluir gostaria de dizer que o desejo de encorajar a um irmão que está passando por dificuldades, sejam elas materiais ou espirituais, é absolutamente legítimo, e a música tem um papel muito importante nisso. Mas quando ela ultrapassa certos limites impostos pela própria Palavra de Deus e presume ser usada nos cânticos congregacionais é necessário que se analise se realmente ela se encaixa nos padrões confessionais da igreja, desde que os mesmos sejam bíblicos.

Leonardo Bruno Galdino

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