quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cessacionismo de férias

Uma situação que vivi recentemente em minhas férias me fez refletir um pouco no cessacionismo que defendo. Não sei quantos sabem, mas 2011 será o meu sexto ano consecutivo morando longe de minha terra natal, Recife. Digamos que o Deus soberano se utilizou dos ossos do meu ofício para me afastar um pouco do convívio familiar, ok? Pois bem.

Domingo passado, a caminho da igreja, vinha eu pensando com bastante esperança e otimismo na minha tão sonhada transferência para a Terrinha. No mesmo ônibus em que eu ia, estava um irmão de uma determinada denominação carismática. Levantei e solicitei parada, quando este irmão veio ao meu encontro e me disse algo mais ou menos assim: “Por que estás inquieto? O que o Senhor te prometeu há de cumprir. Sossega e crê”. Como geralmente tendemos a ser receptivos a palavras de ânimo e conforto, assenti com améns. Afinal de contas, o desejo de ser transferido é grande. Mas não demorou muito para que algumas questões (de cunho crítico) logo emergissem em minha mente.

A primeira delas diz respeito à atitude daquele irmão. Desconfiei que ele parecia ser daquele tipo que anda sedento por audiência, o que faz com que às vezes (ou, quase sempre) acabe falando pelos cotovelos. Embora eu só tenha percebido que ele estava no ônibus quando eu estava perto de descer, deu pra notar que ele já vinha falando algo para umas pessoas que estavam perto dele, um tanto alvoroçado. Parece que esta é uma forma de angariar aceitação e simpatia.

A segunda questão foi quanto ao caráter genérico daquela profecia (se é que assim podemos chamá-la). Visto que a inquietude humana diante de promessas ainda não concretizadas é absolutamente comum, fico me perguntando se aquela palavra veio mesmo “de Deus” ou da simples lógica da situação. É aquela velha história do pregador que, em plena segunda-feira e num sol de 40 graus, se dirige a uma multidão de “desempregados e com dor de cabeça”. Ora, precisa ser profeta para saber que naquele pequeno espaço físico há um montão de gente desempregada e com dor de cabeça? Não é uma “profecia” muito previsível?

A terceira questão, embora mais especulativa que as anteriores, merece consideração: e se eu não estivesse com minha bíblia na mão, será que aquele irmão me abordaria? Dificilmente, penso. Por que? Porque antes de se dirigir a mim ele olhou de soslaio para o que eu trazia nas mãos, e percebeu que eu era crente por conta da bíblia que eu portava. Foi aí que, então, ele resolveu “profetizar”.

Dado o caráter crítico das questões que listei acima, é provável que a esta altura o leitor esteja se perguntando se eu creio que Deus ainda usa pessoas para falar conosco, ao que respondo positivamente. Contudo, isso não é a mesma coisa que dizer que tal pessoa seja “profeta” nos mesmos termos que um Elias ou um Amós, uma vez que tal ofício cessou, considerando-se o progresso da revelação de Deus. Se você me perguntar se milagres ainda acontecem eu assentirei, é claro! Aliás, é por crer neles que eu oro a Deus para voltar para minha cidade natal, ainda que os ventos me sejam contrários. O que me resta além de crer e descansar em nEle? Contudo, devo ser cauteloso quando alguma voz chega aos meus ouvidos dizendo ser vinda dos céus, como algo do tipo “assim diz o SENHOR”. Nesse caso, é bom mesmo armar a tenda do escrutínio. À lei e ao testemunho (Is 8.20)!

Soli Deo Gloria!

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16 comentários:

Esli Soares disse...

Leo,

Por aqui chamamos isso de profetada, se bem que por outro lado, vou dar um voto de crédito ao distinto personagem.

Deus te prometeu alguma coisa? Então não fique inquieto, sossega e crê... hehehe

Abraços,
Esli Soares

Anônimo disse...

terra, gostaria que vc fosse mais cauteloso...

Alan Rennê disse...

Leonardo,

Puxa, vc me deu um baita susto! rsrsrsrs... ótimo texto!

Amplexos reformados e cessacionistas!

Anônimo disse...

Quanto ao cessacionismo, creio sim que Deus não precisa corrigir falta de informação específica para nenhum de seus filhos por já ter feito isso de forma soberana e completa nas escrituras que cumprem com perfeição e plenitude essa tarefa (2 Tm 3:16).
Mas também devemos levar em consideração o que deveríamos aprender com esses irmãos que creem nisso, afinal de contas em garnde parte o respeito que os evangélicos tem hoje em dia e a divulgação que o cristianismo alcançou na América do sul dá-se graças a Deus ter usado nossos irmãos carismáticos.
Doutrina o cristão desenvolverá graças à leitura contínua e o desejo de conhecer mais a Deus.
Agora quanto à reflexão a respeito de cessacionismo, fica a pergunta: nós que julgamos ter uma doutrina coerente com uma interpretação fiel e exegética da Palavra temos a mesma ousadia e a mesma atitude dos que pensamos nós não serem assim? Nós abordaríamos alguém com olhar apreensivo segurando uma Bíblia ou somente pensaríamos "será que ele é calvinista?"

Um abraço em Cristo,
Calebe.

Esli Soares disse...

Ei o que o anônimo quis dizer com "terra", será que ele estava profetizando tb???

Leonardo Bruno Galdino disse...

Esli,

Estou bastante descansado quanto a isso, eu diria. Mas sei que preciso fazê-lo sempre mais.

Abraços!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Terra,

Cauteloso quanto ao assunto ou quanto ao trato que dispensei ao irmão aqui no post?

Abraços!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Alan,

O título do post foi pra chamar a atenção mesmo.

Agora, que precisamos definir algumas coisas quanto ao cessacionismo que defendemos, isso precisamos! Ainda pretendo falar mais sobre esse assunto nos posts subsequentes, mas vou te adiantar umas questões para reflexãoo:

1) Quais dons exatamente cessaram?
2) Um dos aspectos do dom de profecia no NT é o de interpretar as Escrituras, certo? Pois é assim que Calvino entende também. Aliás, comentando Rm 12.6 Calvino diz que tal dom não cessou, e que Deus ainda o derrama em Sua Igreja. Ora, se este dom for o mesmo lá de 1 Co 14, então o que se segue?
3) Nós, reformados cessacionistas, não hesitamos em afirmar que Deus fala à igreja através da pregação, certo? Então quer dizer que, num certo sentido, cremos que ainda haja profetas (nos termos colocados pelo próprio Calvino)!

Foi só pra reflexão mesmo. Ainda estou dando uma pesquisada nisso. Depois postarei as resoluções.

Mais amplexos!

P.S.: Amplexos é a forma complexa de se abraçar, não é? rsrsrs!

Alan Rennê disse...

Leonardo,

Realmente, são questões de grande importância que necessitam ser definidas. Quanto ao dom de profecia, compreendo também o caráter predicativo do mesmo. Não obstante, diferentemente do que muitos pensam, não o vejo como a essência do dom em si. Sobre isso, meu irmão, gostaria de indicar um livro do Prof. Moisés Bezerril, intitulado: OS PROFETAS DO NOVO TESTAMENTO. Ele escreveu o presente trabalho como uma refutação à obra de Wayne Grudem. É muito interessante.

Caso vc não o tenha, por favor, envie-me seu endereço (em Santarém) por e-mail, que mandarei uma cópia (tenho autorização do autor para reproduzir, pois o mesmo está esgotado... rsrsrs). Meu e-mail é alanrenne@hotmail.com.

Amplexos!

P.S.: Pastoreio no mesmo estado onde vc mora atualmente, no Pará, não obstante, bem longe de Santarém, em Marabá. Talvez vc já tenha ouvido falar no pastor "neopuritano" de Marabá... rsrsrsrsrsrsr... cada uma...

Clóvis disse...

Leo,

Sabe que sou mais que contituísta, sou penteca assumido. Em seu lugar, no ônibus, faria os mesmos questionamentos. Pois de profecias generalistas e óbvias, os ônibus estão lotados.

Mas fiquei curioso. E se o teor da "profecia" (aspas provisórias, hehe) fosse mais específico, tipo:

“Por que estás inquieto? O que o Senhor te prometeu há de cumprir. Sossega e crê, pois Deus em breve te levará de volta para junto de seus familiares"

Qual seria a sua avaliação do episódio (estamos falando em tese, of course).

Em Cristo,

Clóvis

Leonardo Bruno Galdino disse...

Alan,

Como estou perto de mudar de residência, por ora acho melhor não arriscar te passar o endereço agora. Quando eu me mudar de fato, se de fato eu me mudar, certamente te enviarei meu (novo) endereço. Li algumas coisas do Bezerril, e o aprecio muito.

Se já ouvi falar no "neopuritano" Allan Renê? Claro que sim! hehehe! Mas como desconfio muito de certas generalizações, não dei muita bola.

Abraços!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Quase esqueci, Alan: é até bom mesmo esse livro não chegar agora, pois estou preparando uma série de postagens sobre o tema "profetas no Novo Testamento". Sabe como é que é, né? "Olha lá, Leonardo, o plagiador"... hehehe! É melhor deixar como está, por ora!

Valeu!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Clóvis,

Sobre isso você vai ter que me ouvir outra hora. hehehe! Brincadeira. A verdade é que estou pesquisando sobre o tema "profetas no Novo Testamento", e pretendo publicar uma série aqui no OR (e no 5C também, se couber. rs!). Mas já presenciei coisas desse tipo comigo mesmo. Deus ainda opera milagres, sim. Só não diria que o camarada lá tenha o dom. Como te falei, pretendo explicar isso posteriormente, se Deus permitir.

Abraços!

Clóvis disse...

Leo,

Vou aguardar. Eu creio no dom de profecia, ainda hoje. Mas desacredito de quase tudo o que se chama profecia nas igrejas de hoje (pentecostais e não pentecostais). Já tive oportunidade de confrontar alguns "videntes" que me entregaram profecias "de chaves e contratos assinados".

Se me permite, gostaria de recomendar o artigo "A essência da profecia" publicado no Cinco Solas.

Em Cristo,

Clóvis

Josias Sillva disse...

Meu amigo graça e paz.

Estivemos por pouco tempo conversando nas suas ferias, louvo a Deus por sua vida e fico feliz em ver como Deus tem te usado. Sou testemunha do teu crescimento espiritual, vi você chagar caladinho, tímido e logo começou a trabalhar com a juventude da igreja e hoje um teólogo.

Com relação a esse tema de profetadas, posso lhe dizer que Deus conhece o nosso íntimo, e sabe as nossas necessidades. Quando é Deus quem fala não ficamos confuso, pois ele não é Deus de confusão.

Recentemente recebi uma mesagem de Deus, mensagem que eu estava esperando pois havia pedido a Deus uma resposta, e não foi um desconhecido, mas foi um cervo de Deus, chegou em minha casa e me falou. Josias estava em oração na minha casa e você me veio na mente e o Espírito Santo de Deus me mandou te falar isso. E naquele momento ele me falou. Percebi que Deus estava respondendo uma questão que estava me pertubando, e que a dias estava orando a Deus pedindo uma orientação. Deus ainda fala, Deus ainda usa. Somos profetas de Deus.

A palavra de Deus não muda.
No mundo tudo passa, mas a Palavra de Deus permanece para sempre, quando Ele quer falar ele tem suas maneiras. No tempo de Balaão não existia animal tagarela. Mas Quando Deus quer falar com os seus ele sabe de qual maneira e como falar.

Deus continue te abençoando.
Continua crescendo na graça e no conhecimento da Palavra de Deus.

Javé Nisi.

Internautas Cristãos disse...

Leonardo,

O assunto é polêmico mesmo. Estamos apresentando uma apologia do cessacionismo fundamentalista na série "Fuja do Pentecostalismo" no blog www.internautascristaos.blogspot.com

Abraços.

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