quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cristo: Ponto de convergência, ponto de divergência

Convergência: ato ou efeito de convergir; disposição de dois ou mais elementos lineares que se dirigem para ou se encontram no mesmo ponto; tendência para aproximação ou união em torno de um assunto ou de um fim comum; confluência, concorrência.

Divergência: afastamento progressivo; diferença de opinião; desentendimento, discordância; qualidade daquilo que diverge, que tem limites infinitos.

Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.


Para muitas pessoas ao redor do mundo Jesus foi uma figura extremamente controversa. Muitos o enxergam como um revolucionário, ao passo que outros, como um pacifista, um apaziguador. Para uns, aquele que agrega; para outros, aquele que segrega. Mas o fato é que as Escrituras o apresentam das duas formas, tanto como um ponto de convergência quanto como um ponto de divergência. Jesus, real e finalmente, trouxe a lume o que o pregador de Eclesiastes quis dizer com “tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de rasgar e tempo de coser” (Ec 3. 3,7). Esse é um dos paradoxos mais notáveis da fé cristã.

De fato, a Bíblia nos apresenta Jesus como sendo o ponto de convergência da fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos (cf. Jd 3). Essa fé reúne todos os eleitos, e apenas estes, em um único rebanho, sob a regência de um único Pastor (cf. Jo 10). Em torno do Cristo Ressurreto, o povo redimido se reúne para uma adoração solene, onde tudo é mono. O louvor é uníssono. A fé ensinada, entoada e proclamada é uma só. E o Objeto dessa mesma fé e de todo o nosso louvor também é um só. Como bem diz um famoso hino cristão, “um só rebanho, um só Pastor; uma só fé em um só Salvador”. Essa reunião em torno do Supremo Pastor só foi (e continua sendo) possível graças à promessa que o Deus dos Antigos, “que não pode mentir” (Tt 1.2), fez a Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Essa promessa apontava claramente para uma grande convergência de povos das mais variadas culturas, que se reuniriam em torno dAquele que foi “designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.4). O próprio Evangelho, “o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras” (Rm 1.2), teve seu cumprimento cabal na pessoa e obra de Jesus, o centro convergente de toda a Escritura vetero e neotestamentária (Rm 1.3. cf. Hb 1.1-2). Isso significa que o centro Bíblia não é aquela “folhinha branca” entre Malaquias e Mateus, muito menos a fé de Abraão ou a mansidão de Moisés, menos ainda Zaqueu ou Lázaro (para bom entendedor…) – o centro das Escrituras é o Descendente de Davi, Jesus, o Cristo (Rm 1.3)! Ele, sim, foi quem comprou para Deus “os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9) com seu precioso sangue vertido na cruz do calvário, fazendo com que a salvação se estendesse para fora dos portões de Israel, a todos aqueles que creem. Como bem diz outro hino cristão famoso, “de todas as tribos, povos e raças, muitos virão Te louvar”. Além desse tipo de convergência “soteriológica”, digamos, segundo o apóstolo Paulo haverá também uma espécie de “convergência cósmica”, onde “todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” encontrar-se-ão em Cristo “na dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1.10). Calvino entende essa passagem como sendo a restauração escatológica de todas as coisas em Cristo (cf. Rm 8.18-22), uma vez que a Queda simplesmente “despedaçou” a humanidade decaída juntamente com toda a criação. Ainda segundo o reformador, é somente em Cristo que encontramos conserto para os cacos. Tanto em relação à humanidade quanto ao restante da criação, Cristo se apresenta como o elemento convergente. De fato, é como se ele fosse uma espécie de redemoinho, que traz para dentro de si tudo o que estiver em sua órbita.

Mas não nos enganemos quanto a essa “órbita”, pois nela não se encontra o mundo inteiro (Universalismo, Expiação Geral), e sim, apenas o povo escolhido de Deus (cf. Mt 1.21). Não nos enganemos também pensando que Cristo é sempre esse redemoinho convergente que traz tudo o que está em sua órbita para dentro de si mesmo. Ele também é um vulcão, que repele e destroi todo elemento desconhecido que o circula. Essa realidade pode se tornar dura demais para quem pensa que Jesus é apenas um “ponto de convergência”, um “carinha legal”, mas o seu próprio ministério mostra como ele divergia duramente dos inimigos da cruz. Isso acontecia porque a Bíblia apresenta-nos alguém que seria uma grande “pedra de tropeço” em Sião (Is 28.16), e tanto Paulo (em Rm 9.32,33) quanto Pedro (em 1Pe 2.4-8) identificam essa pedra justamente com Cristo. Para Paulo, Jesus é a “pedra de tropeço” (ponto de divergência) para todo aquele que pensa que poderá ser salvo pelas obras, quer seja judeu, quer seja gentio. O apóstolo argumenta no contexto da aludida passagem que a fé salvífica pertence somente àqueles que foram eleitos. Decerto, os judeus se consideravam o povo da Aliança e, por conseguinte, herdeiros automáticos da salvação. Mas Paulo derruba essa empáfia dizendo que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos” (Rm 9.6,7). Para o apóstolo somente “os filhos da promessa” é quem são os verdadeiros herdeiros (Rm 9.8). Os judeus incrédulos pensavam que estavam caminhando bem, até se depararem com a Pedra que estava no meio dos seus caminhos. Seguindo o mesmo raciocínio, mas com uma ênfase diferente, Pedro argumenta que nossos sacrifícios são agradáveis a Deus única e exclusivamente por intermédio de Cristo, “a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa” (1Pe 2.4,5). Alinhando seu pensamento ao de Paulo, Pedro ainda diz que Cristo é a “pedra angular” que os construtores da auto-justificação rejeitaram e na qual tropeçaram, de acordo com o fim para o qual vieram a este mundo (1Pe 2.7,8). Esse tropeço deliberado simplesmente fere aquilo que é considerado o coração do evangelho, a doutrina da justificação pela fé somente, que, segundo Lutero, é o “artigo de fé mediante o qual a Igreja permanece de pé ou cai”. Certamente, todo aquele que tropeça nessa verdade, pensando que poderá se auto-justificar diante de Deus mediante obras, cairá terrível e irremediavelmente no Juízo Final.

O brado de Solus Christus dos reformadores não foi sem propósito. Ele indica que somente Cristo é digno de louvor; que somente Cristo é o Mediador; que somente Cristo é o Salvador; que somente Cristo é o cerne da História da Redenção; e que, por isso, somente Cristo é a chave hermenêutica para se compreender as Escrituras. A Igreja Romana viola essa verdade ao apresentar outros “centros” (pontos de convergência) contíguos a Cristo. As grandes religiões do mundo erram por não reconhecerem que há um só Deus e Senhor de tudo e de todos. Os falsos evangelhos espalhados por aí também traem as Escrituras quando apresentam outras prioridades (prosperidades) que não seja Cristo. Todas as outras doutrinas e filosofias humanas andam bem, até encontrarem Cristo, a “pedra de tropeço”, pelo caminho. Qualquer tentativa de deslocar a Cristo do centro que só a Ele pertence constitiu-se em total divergência da Verdade. Como disse Calvino, “desviar-se de Cristo, ainda que seja apenas por um passo, significa privar-se alguém do evangelho”. Para quem é alvo da convergência de Cristo, ou seja, quem está na sua órbita de salvação (os eleitos), novos céus e nova terra o espera. Mas para quem é alvo da sua divergência (os “intrusos” na órbita – o joio), apenas parafraseio o puritano Richard Sibbes: “de que adiantaria você ter todas as criaturas a seu favor se o próprio Cristo* é o seu divergente**”?

Soli Deo Gloria!
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*No original, “Deus”; ** “inimigo”.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A verdade sobre a mentira (parte 2) - Gnosticismo Antigo e Contemporâneo (1)

O Gnosticismo Antigo


“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (João, o apóstolo – 1Jo 2.22).



“A filosofia é a matéria básica da sabedoria mundana, intérprete temerária da natureza e da ordem de Deus. De fato, as próprias heresias são equipadas pela filosofia”[1]. Foi dessa forma que Tertuliano (160-240 d.C.) ligou a filosofia de seu tempo ao seu “filhote religioso” mais ilustre, o Gnosticismo, um amalgamado de filosofia pagã, esoterismo mitológico e elementos da doutrina apostólica que veio para tentar apagar o evangelho legado por Cristo e seus apóstolos da memória da Igreja. Dado o extremo grau de periculosidade que esse movimento representou para a manutenção da ortodoxia nas fileiras do cristianismo, não seria nenhum exagero afirmar que, de todas as heresias (“mentiras teológicas”) que a igreja primitiva teve que enfrentar, o Gnosticismo foi, sem sombra de dúvidas, a pior.

Definir o que foi o Gnosticismo não é uma tarefa fácil, mas vamos tentar, em princípio, nos deter a algumas de suas designações mais genéricas. Gnosticismo é um termo que deriva da palavra grega gnosis, que significa, literalmente, “conhecimento”. Para os gnósticos, a verdade é secreta, e somente é revelada a algumas pessoas detentoras de um “conhecimento” especial (daí o porquê do termo). A salvação da alma consiste exatamente em descobrir qual é essa “verdade”, voltando-se o indivíduo para dentro de si mesmo em busca de suas origens. Essa característica aproxima o gnosticismo do neoplatonismo, na sua busca de tentar restabelecer a união com a divindade a partir de uma interiorização contemplativa. Os gnósticos elaboraram uma teogonia[2] extremamente complexa a fim de explicar a origem do universo, incorrendo numa cosmovisão puramente dualista (Bem x Mal). Segundo eles, o Supremo e Verdadeiro Deus transcendente e último (não cognoscível), que habita acima dos universos criados, fez emanar de si mesmo todas as substâncias visíveis e invisíveis existentes no mundo. Dessas emanações vieram os éons, que eram seres divinos intermediários entre o Supremo Deus e nós. Um desses seres eônicos, chamado Sofia, teria feito emanar de si mesmo o deus (também chamado de “Demiurgo”) que criou o mundo material e psíquico, à imagem da sua própria imperfeição. Este deus (que é identificado com o Deus do Antigo Testamento), então, passou a pensar que era o próprio Deus Supremo, incorrendo em orgulho. É dessa forma que o gnosticismo explica as mazelas do mundo, bem como toda a corrupção deste, concluindo, com isso, que toda matéria é inerentemente má. É no meio de toda essa confusão que os gnósticos unem elementos da filosofia pagã e do misticismo esotérico das religiões de mistério para fazerem uma verdadeira “salada” mística e religiosa.

Ao contrário do que muita gente pensa, essa filosofia não nasceu dentro do cristianismo. Suas origens remontam às antigas tradições persas e babilônicas antes mesmo de Cristo ter nascido. Mas o grande problema para nós foi quando, tendo surgido o cristianismo, alguns cristãos presumiram que poderiam aliar as crenças gnósticas às doutrinas apostólicas, numa “tentativa de explicar Cristo em termos da filosofia pagã ou da ‘teosofia’”[3]. Isso resultou num verdadeiro desastre para a Igreja, uma mancha terrível na história do povo de Deus[4]. As ideias gnósticas passaram a fazer parte da dieta doutrinária de muitos grupos ditos cristãos, que já não sabiam mais delinear marcos entre a ortodoxia e a heresia. A habilidade dos mestres gnósticos em sintetizar noções gnósticas com conceitos cristãos, pegando emprestado destes algumas de suas terminologias, fez com que o próprio evangelho fosse redefinido, ainda que este se mostrasse totalmente pagão em eu âmago. Muitos passaram a ensinar que Jesus era um “éon” que se desviou astuciosamente do mundo das trevas para trazer esse “conhecimento” secreto (a gnosis), proporcionando aos espíritos da luz, que habitam nos seres humanos, a plena liberdade do cativeiro do mundo terreno e material. A doutrina apostólica, então, passou a ser mais um elemento a compor a “salada” gnóstica, que agora passou a autodenominar-se de “cristã”, o que fez com que o nome do Gnosticismo se associasse ao do Cristianismo até aos dias atuais (contudo, é bom que fique bastante claro que não havia um “cristianismo gnóstico”, como muitos estudiosos de história antiga o querem, e sim, um “gnosticismo cristão”).

Entretanto, essas simples definições e conceitos não são capazes de abranger todas as vertentes, modalidades e nuances próprias do gnosticismo que se instalou no seio da Igreja. O Gnosticismo, como um sistema de crenças, não era homogêneo. Havia uma ampla diversidade dentro do próprio movimento, já que “o pensamento gnóstico oferecia possibilidades para os ‘inventores’ de religiões, nas quais cada falso mestre podia inventar sua própria seita”[5]. Irineu (c. 180), bispo de Lyon, na Gália Romana, fala em pelo menos quatro tipos de gnosticismo existentes em seus dias: 1) Gnosticismo de tipo sírio (Saturnino); 2) Gnosticismo de tipo egípcio (Basílides, Valentino); Gnosticismo de tipo judaizante (Cerinto e os ebionitas); e 4) Gnosticismo de tipo pôntico (Márcion)[6]. Cada uma dessas variantes tinha suas próprias particularidades (sobre as quais não pretendemos entrar em detalhes agora). Uma coisa interessante é que, quando as premissas gnósticas conflitavam grosseiramente com as doutrinas apostólicas, os gnósticos “inventavam” suas próprias versões do evangelho. E o pior de tudo é que eles “assinavam” o documento como se o mesmo fosse de autoria dos apóstolos. Até a metade do século vinte, esses “evangelhos” somente eram conhecidos por nós através das obras polêmicas de seus críticos mais vorazes, como Irineu (130-200) em Contra as Heresias e Tertuliano (160-225) em Contra Márcion. Foi quando, em 1945, uma “biblioteca gnóstica” foi encontrada em Nag Hammadi, no Egito, contendo alguns manuscritos dos evangelhos gnósticos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, o Evangelho dos Egípcios e o Evangelho da Verdade. Esses “evangelhos” não visavam apenas a “‘preencher’ supostas lacunas nas informações dos canônicos (como, por exemplo, sobre a infância de Jesus), mas [...] apresentar versões diferentes dos fatos e pessoas retratados nesses evangelhos”[7]. Um bom exemplo desses “evangelhos” que procuravam redefinir o papel de alguns dos personagens tidos como os “vilões” da história é o famoso Evangelho de Judas (descoberto na caverna de El Mynia, no deserto do Egito, em 1978), no qual Judas, apresentado nos Evangelhos canônicos como um traidor, é redefinido como o único que realmente compreendeu a mensagem “secreta” que o Mestre veio trazer. Desse modo, Judas é transformado no “herói” da história, demolindo toda a sua tradicional fama de vilão. Embora sua descoberta tenha se dado tão recentemente, Irineu já fazia referências a ele na sua obra Contra as Heresias (Livro I, 31.1 – lá aparecem também uns tais de “cainitas”, uma seita que inocentava a Caim). E não apenas Irineu, mas todos os tratados polemistas asseveram que o gnosticismo foi um movimento marginal ao cristianismo, e não integrante deste; um intruso, e não um convidado; um “corpo estranho”, e não um órgão; uma gangrena que precisava ser removida às pressas, numa intervenção cirúrgica habilidosa.

Mas não devemos pensar que foi apenas no período pós-apostólico que essa heresia surgiu, não. Há claros indícios, a partir do próprio Novo Testamento, que a igreja neotestamentária enfrentou em suas fileiras uma forma incipiente de gnosticismo. Tertuliano afirma que Paulo tinha em mente a filosofia gnóstica quando advertiu aos cristãos colossenses para que estes tomassem cuidado com certas “filosofias e vãs sutilezas, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8)[8]. Sugere-se que os hereges de Colossos estavam unindo elementos judaicos, crenças populares da Frigia e “germens” de gnosticismo ao evangelho, promovendo um verdadeiro sincretismo religioso, o que lhes rendeu a pecha de “heresia colossense” – um sistema de crenças absolutamente estranho. É possível também que sejam essas as “fábulas” e “genealogias sem fim” que Paulo fala aos jovens pastores Timóteo (1Tm 1.4) e Tito (Tt 1.14), sobre as quais eles deveriam tomar o máximo de cuidado. Ainda que não nos seja possível fazer uma absoluta associação desses erros com o gnosticismo, devemos pelo menos reconhecer certos pontos de semelhança entre eles.

Contudo, as principais evidências da infiltração gnóstica na igreja neotestamentária encontram-se nos escritos do apóstolo João, especialmente nas suas cartas. Nelas, o apóstolo nos dá algumas informações do tipo de gnosticismo que a igreja de então estava enfrentando. A principal acusação de João contra os ensinos heréticos era que “muitos enganadores tem saído ao mundo, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo” (2Jo 7 – ênfase minha). Na realidade, essa negação da encarnação de Jesus é uma doutrina gnóstica que ficou conhecida depois como Docetismo (do grego dokeo – lit. “parecer”, “aparência”). Essa variante gnóstica ensinava que todas as manifestações da natureza humana de Jesus eram apenas uma aparência, uma ilusão de ótica (uma espécie de holograma). Sendo assim, seguindo a premissa gnóstica básica de que a matéria é essencialmente má, os falsos mestres, além de negarem a humanidade de Jesus (encarnação), negavam também a própria crucificação e ressurreição deste, atribuindo tudo a uma mera ilusão, já que Deus não poderia ter assumido a forma humana, em Jesus. João também nos informa que os hereges, de igual modo, negavam a divindade de Jesus. Essa outra variante gnóstica pode ser atribuída a um homem chamado Cerinto, que residia em Éfeso e foi, inclusive, contemporâneo (e possível adversário) do próprio João. De acordo com Irineu, um polemista do segundo século, Cerinto “representava Jesus como não tendo nascido de uma virgem, mas como sendo filho de José e Maria segundo o curso comum da geração humana, enquanto que era, não obstante, mais justo prudente e sábio do que os outros homens. Além disso, depois do seu batismo, Cristo desceu sobre ele, em forma de pomba, vindo do Supremo Regente, e que depois proclamou o desconhecido Pai, e realizou milagres. Mas por fim Cristo separou-se de Jesus, e então Jesus sofreu e ressuscitou, enquanto Cristo permaneceu impassível [isto é, “não sujeito a dor ou ferimento”], visto que era um ser espiritual”[9]. A ideia de Cerinto sugere que Jesus não era verdadeiramente Deus, mas que foi habitado pelo Cristo, uma emanação do éon divino que desceu sobre o homem Jesus. Esse Cristo veio sobre Jesus por ocasião do seu batismo, mas o deixou por ocasião da sua crucificação. Isso faz com que a divindade de Jesus seja algo imposto, vindo de fora, e não inerente a ele. Esse pensamento de Cerinto foi aderido pelos Ebionitas[10], uma seita gnóstica de tipo judaizante do fim do primeiro século. Para João, contudo, tanto a negação da encarnação quanto da divindade de Jesus constitui-se em verdadeira mentira teológica. Uma das definições que o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa dá para mentira é “aquilo [...] que se aproxima da verdade ou é real apenas na aparência” (ênfase minha). João concordaria plenamente com essa definição. Se Cristo era apenas uma “aparência”, como queriam os docetistas, então o próprio Deus era um mentiroso, e Jesus, uma mentira; se Jesus não tinha um corpo físico, então ele não foi para a cruz para morrer pelos nossos pecados, muito menos ressuscitou para a nossa justificação (cf. Rm 4.25). Por este motivo, para o apóstolo João qualquer coisa que se aproxime da verdade, mas que não seja exatamente a Verdade, não passa de pura mentira; qualquer um que negue que Jesus é o Cristo (plenamente humano e plenamente divino) é um mentiroso (1Jo 2.22).

As fortes ênfases joaninas à retidão do viver cristão em oposição às dissoluções carnais sugerem que esses falsos mestres também ensinavam que o cristão poderia pecar à vontade, pois não fazia diferença alguma, visto que a carne má. O apóstolo combate essa ideia com veemência, dizendo que “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9 – ênfase minha). Outra característica desses falsos mestres era a sua flagrante falta de amor para com os outros irmãos, uma vez que o acesso às verdades espirituais (a “gnose”) pertencia somente aos “iluminados”. Isto posto, duas categorias de crentes foram criadas: a dos “iluminados” e a dos “não-iluminados”. João combate essa falácia ao dizer que “se [...] andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7 – ênfase minha). O apóstolo é mais enfático ainda quando diz que “se alguém disser: Amo a Deus, e odiar seu irmão, é mentiroso, pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20 – ênfase minha). João é tão vigoroso em seu combate ao erro que ele adverte a um grupo de cristãos a não receber em suas casas qualquer um que não traz a sã doutrina, muito menos dar-lhes as boas-vindas, “porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das duas obras más” (2Jo 10,11). Quanto a isso, Irineu, em sua conhecida obra Contras as Heresias, no livro III, nos traz um episódio interessante envolvendo João e Cerinto, contado por Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo de João: “E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso e tendo visto Cerinto nos banhos, saltou para fora das termas sem ter-se banhado e disse: ‘Fujamos, não ocorra que também as termas venham abaixo por estar dentro Cerinto, o inimigo da verdade’”[11]. O zelo que João nutria pela verdade legou para os cristãos subseqüentes a munição necessária para que o erro religioso fosse combatido.

De fato, a heresia gnóstica teve que mover um verdadeiro arsenal de defensores da ortodoxia: os polemistas[12]. Inácio de Antioquia, Irineu, Justino, o mártir, Tertuliano e Hipólito foram alguns deles. Não era fácil combater os mestres gnósticos, pois, além de eles serem ótimos debatedores, o próprio gnosticismo, como já vimos, era bastante diversificado. Alguém comparou o gnosticismo à Hidra, um monstro (serpente) mitológico que tinha várias cabeças. Quando se cortava uma, nascia outra em seu lugar. Assim era o gnosticismo dos primeiros séculos. Por essa razão, essa heresia, enquanto sistema, não era fácil de ser refutada, uma vez que suas premissas possibilitavam aos inventores de religião criar o seu próprio “gnosticismo” com os elementos que preferissem. Dentre os principais mestres gnósticos estavam Saturnino (c.120); Basílides (c. 130); Valentino (c. 140), seu sucessor; Carpócrates; Cerinto; e Cerdon, dentre outros[13]. Mas nenhum deles, talvez, tenha chegado aos pés de um homem natural do Ponto, chamado Márcion (c. 160), sucessor de Cerdon. Dentre os mestres gnósticos ele foi, sem sombra de dúvidas, um dos maiores inimigos do cristianismo. Alguns chegam até a afirmar que, se havia alguém capaz de aniquilar o cristianismo nos primeiros séculos, esse alguém era Márcion. Irineu dedica boa parte da sua obra Contra as Heresias no combate a esse falso mestre, acusando-o de, por exemplo, mutilar o Evangelho de Lucas, “rejeitando narrativas referentes ao nascimento do Senhor”, uma vez que era docetista. Márcion também, segundo Irineu, mutilou as cartas de Paulo, “eliminando delas tudo que declara ser o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo o Deus que fez o mundo, bem como o ensino dos profetas anunciando o advento de nosso Senhor”. Ele estava criando o seu próprio cânon, o que forçou a Igreja a delimitar e reconhecer quais eram os livros verdadeiramente inspirados. Além disso, ele “persuadiu seus discípulos de que merecia mais crédito do que os apóstolos que legaram o Evangelho”[14]. Inácio de Antioquia também parece combater os ensinos de Márcion quando adverte os cristãos de sua época: “Torna-te surdo, quando te falam de um Jesus Cristo fora daquele que foi da família de Davi, filho de Maria, nasceu autenticamente, comeu e bebeu, padeceu verdadeiramente sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado e morreu verdadeiramente... De que me valeria estar em cadeias, se Cristo sofreu somente na aparência, como certos pretendem? Esses, sim, não passam de meras aparências”[15]. A pergunta feita por Inácio ecoa o mesmo argumento que Paulo havia exposto aos coríntios: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a nossa fé” (1Co 15.14). Outro polemista importante, Tertuliano, afirma que Márcion herdou o “bom deus” sossegado dos estóicos, uma vez que Márcion cria que o deus do Antigo Testamento é mau, cruel e imperfeito. Por este motivo ele se negava a identificar o deus veterotestamentário com o Deus do Novo Testamento que, segundo ele, era o verdadeiro Pai de Jesus. Tertuliano ainda afirma que “quando Márcion afirma que a alma perece, obedece a Epicuro; quando nega a ressurreição da carne, segue o parecer de uma dentre todas as filosofias; quando confunde matéria e Deus, repete a lição de Zenon; quando alude a um deus de fogo, torna-se aluno de Heráclito”[16]. Toda essa série de coisas fez com que Márcion se tornasse a persona non grata mais eminente dentre os hereges de sua época. Isso é atestado por uma ocasião em que ele, ao topar com Policarpo, perguntou-lhe: “Reconheces quem eu sou?”, ao que Policarpo respondeu: “Reconheço. És o primogênito de Satanás”[17]. Decerto, havia muitos outros hereges gnósticos altamente perigosos, mas entrar em detalhes sobre a vida de cada um nos exigiria uma investigação mais intensa (e extensa).

A influência gnóstica foi realmente uma praga dentro da Igreja, pois sua filosofia serviu de base para todas as outras heresias que surgiriam logo em seguida, principalmente àquelas que envolviam a Pessoa de Cristo e a Trindade[18]. Mas isso foi, de certa forma, bom, porque foi ali que a Igreja começou a cerrar fileiras e a fazer algumas definições teológicas importantes, como aconteceu nos concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), por exemplo. As heresias, num certo sentido, “ajudaram” a Igreja na formulação dos credos mais importantes do cristianismo, como o famoso Credo Apostólico. Como bom calvinista, penso que tudo foi providencial. É claro que não podemos cair no erro de “louvar” os hereges por isso, mas também devemos reconhecer o que de positivo tudo isso trouxe à fé cristã de um modo geral.

Como deve ter ficado mais do que evidente em nossa breve pesquisa, o gnosticismo é totalmente incompatível com a doutrina dos apóstolos e, por extensão, com todo o restante das Escrituras. As tentativas de se conciliar as duas partes não passam de teimosia incrédula. Os mestres gnósticos não estavam atacando apenas pontos “periféricos” do evangelho, e sim, o próprio cerne dele: a Cruz de Cristo. Sem a cruz não há Cristo; sem a cruz não há ressurreição; sem a cruz não há justificação; sem a cruz não há redenção; em suma, sem a cruz não há evangelho. Os gnósticos, a exemplo de muitas pessoas hoje, queriam chegar a Deus sem Cristo; queriam a salvação sem a cruz. Mas o esforço desses hereges não foi suficiente para aniquilar a cruz, pois o próprio Cristo havia prometido que “as portas do inferno” não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mt 16.18). A ortodoxia, a despeito dos fortes ataques que sofreu, se manteve de pé. Entretanto, os rastros do antigo gnosticismo perduraram, chegando até aos dias de hoje por diversos meios e de diversas formas e nomes, continuando a incomodar a Igreja militante de Cristo aqui na terra. A mentira ainda ronda por aí. Mas esse é um assunto para uma próxima conversa.

Continua na próxima postagem da série “A verdade sobre a mentira”, se Deus permitir.


Soli Deo Gloria!

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[1] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 32).
[2] “Doutrina concernente à origem dos deuses, quase sempre relacionada com a formação do mundo” (verbete Teogonia, do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Larousse – versão eletrônica).
[3] H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. Aste, SP, 1998. Págs. 77.
[4] Uma tradição antiga atribui a Simão, o mago samaritano sobre o qual Lucas relata em Atos 8.9-25, a responsabilidade pela introdução do gnosticismo no cristianismo (cf. Eusébio de Cesaréia. História Eclesiástica. Livro IV, cap. 22.5).
[5] MacArthur, John. Guerra pela verdade. Editora Fiel, 2008. Pág. 121.
[6] Irineu. Adversus Haeresis. Na realidade, Irineu não fala explicitamente em quatro tipos de gnosticismo. Isso foi deduzido por Henry Bettenson, a partir da obra de Irineu Contra as Heresias (H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. Aste, SP, 1998. Pág. 77-80).
[7] Ver Santos, João Alves dos. Cristianismo e Gnosticismo: uma avaliação de sua incompatibilidade ao ensejo da publicação do “Evangelho de Judas”. Revista Fides Reformata XI, nº 1 (2006). Págs. 53, 54.
[8] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 33).
[9] Adversus Haeresis. XXVIII. 1. Citado por John Stott em I, II e III João – introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1982. Pág. 41.
[10] Para mais detalhes, ver Eusébio de Cesaréia em História Eclesiástica. Livro II, cap. XXVII.1-6.
[11] História Eclesiástica. Livro IV, cap. 14.6.
[12] “Polemista” difere de “Apologista” pelo fato de que os polemistas defendiam a fé dos ataques internos (dos hereges), ao passo que os apologistas, dos ataques externos (dos pagãos, agnósticos etc.).
[13] Para uma lista mais completa, ver História Eclesiástica. Livro IV.
[14] Irineu. Contra as Heresias. I.XXVII.2-3. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Págs. 80-81).
[15] Inácio. Ad Trall. IX-X. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 77).
[16] Tertuliano. De praescr. Haeret. (c.200) VII. Citado por H. Bettenson em Documentos da Igreja Cristã (Aste, SP, 1998. Pág. 33).
[17] Idem. Livro IV, cap. 14.7.
[18] Como o Arianismo, o Monarquianismo (Patripassionista e Sabeliano), o Apolinarismo, o Nestorianismo e o Eutiquianismo, por exemplo, além do Montanismo, que Tertuliano veio abraçar depois.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A verdade sobre a mentira (parte 1) – “A mentira sobre a Verdade”

Tertuliano estava coberto de razão quando disse que “o demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la” [1]. Na ocasião, ele estava em defesa da ortodoxia em meio a uma controvérsia cristológica, em meados do século III, onde muitos inimigos da cruz lançavam mão da própria Verdade para negar tanto a plena divindade quanto a plena humanidade de Cristo. Não era uma discussão sobre a forma de batismo ou governo da igreja; sobre usos e costumes ou a guarda de dias sagrados – era o próprio cerne do Evangelho que estava em jogo. Os falsos mestres estavam contando mentiras sobre a Verdade, levando muitas vidas à completa ruína eterna.

Na realidade, a assertiva de Tertuliano remonta aos primórdios da humanidade, ao Éden. Ali, vemos entrar em ação o especialista par excellence na arte de perverter a Verdade. O homem vivia em comunhão com a Verdade (Deus), até o dia em que a Mentira (Satanás) desviou-lhe do caminho, cegando-lhe o entendimento. A Serpente, após ter questionado a Verdade da Palavra de Deus, torceu-a por completo, ao dizer à mulher: “é certo que não morrerás” (Gn 3.1-4). E, depois de questionar e torcer a verdade, a Serpente inventa uma versão “alternativa” dela: “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5 – itálico meu). Esse engodo maligno resultou na Queda da raça humana, trazendo-lhe conseqüências terríveis. Ainda no livro de Gênesis, temos uma pequena mostra de como isso foi trágico. O primeiro assassinato da história humana foi mediado pela mentira. Caim chamou seu irmão Abel para ir ao campo com o único propósito de matá-lo (Gn 4.8). Abraão, o “pai da fé”, utilizou-se da mentira para se safar da morte, quando esteve no Egito, causando maldição àquela terra (Gn 12.10-20). Os irmãos de José, depois de terem-no vendido, molharam sua túnica com sangue de bode, para que seu pai, Jacó, pensasse que José havia sido comido por feras selvagens (Gn 37.29-35). A mulher do faraó egípcio Potifar, ao ser rejeitada por José, quando o tentava, disse a seu marido que foi José quem tentou agarrá-la, causando a prisão deste (Gn 39.7-20). A tragédia nesses exemplos está justamente no fato de que a mentira angariou credibilidade em detrimento da verdade.

Nos evangelhos, notamos como Jesus lidou com essa questão. Durante seu ministério aqui na terra, ele se deparou com alguns judeus que tentavam torcer a verdade a seu favor, dizendo que tinham por pai a Abraão e, por conseguinte, a Deus (Jo 8.39-41). Jesus foi inexoravelmente incisivo com eles, dizendo-lhes que, na realidade, eles eram filhos do diabo, o “pai da mentira” (Jo 8.44). Jesus não se utilizou de eufemismos para amenizar a real condição daqueles que vivem subvertendo a verdade da Palavra de Deus. Quando Jesus estava para ser julgado, “os principais sacerdotes e todo o Sinédrio” procuravam um testemunho falso (pseudomartys) contra ele, “a fim de o condenarem à morte” (Mt 26.59). Dentre as muitas falsas testemunhas que havia, apenas duas decidiram comparecer ao tribunal. Aliás, segundo o que prescrevia a Lei, seriam necessárias no mínimo duas testemunhas no caso de se requerer a pena de morte a alguém (Nm 35.30; Dt 17.6; 19.15ss). A acusação delas foi a seguinte: “Este [ou seja, Jesus] disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias” (Mt 26.61). Ora, se formos ler o que Jesus disse em João 2.19 (“Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei”) veremos que a informação daquelas pessoas procedia. Entretanto, o que faz delas falsas e mentirosas é justamente o fato de usarem um aspecto da verdade contra A Verdade! Elas, além de não haverem compreendido o que Jesus quis dizer com “destruir o santuário”, incorreram na violação do nono mandamento: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16), tornando-se, com isso, passíveis da punição divina (se bem que já o eram desde o ventre!). A mentira é inimiga mortal da Cruz.

Para o apóstolo Paulo, tudo o que a mente humana não-regenerada pensa e fala acerca da Verdade é mentira, ainda que o homem conserve lampejos da imago Dei (cf. At 17.28 e todo o contexto). Aliás, para o apóstolo, a raiz da idolatria está justamente no fato de que os homens “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm 1.25). Paulo está escrevendo num contexto em que ele atrela a idolatria humana à sua natureza corrupta. Quando se é corrupto por natureza, a deturpação de toda e qualquer noção de verdade é deliberada. Essa verdade já havia sido ecoada pelo salmista Davi, quando disse que “desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras” (Sl 58.3 – itálico meu). É por esse motivo que Paulo instrui os cristãos de Éfeso a deixarem a mentira (Ef 4.25), revestindo-se do “novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24 – itálico meu). Paulo ainda nos mostra algumas ramificações da mentira. Ele nos fala em “falsos irmãos” (pseudadelphos – 2Co 11.26; Gl 2.4); “falsos apóstolos” (pseudapostolos – 2Co 11.13); e daqueles que vivem “falando mentiras” (pseudologos – 1Tm 4.2). Esses tais são emissários de Satanás, que se passam por ministros de Cristo e da justiça (2Co 11.13-15). Como é de se notar, o maior perigo não está fora da igreja, e sim, dentro dela, por conta dos lobos disfarçados de ovelhas que se infiltram sorrateiramente nos arraiais. Pedro (2Pe 2.1) e João (1Jo 4.1) também alertam a seus destinatários sobre o perigo desses “falsos profetas” (pseudoprophetes).

A mentira atravessou os séculos e chegou até aqui intacta. A diferença é que ela só mudou de roupa. Se a igreja primitiva, que ainda estava sob a tutela dos apóstolos sofria desse mal, o que dizer da igreja do século XXI, na qual o próprio conceito de uma única Verdade é rechaçado? Qualquer um que hoje defenda a existência de uma verdade única logo é taxado de intolerante, fundamentalista e intransigente. Isso explica a confusão doutrinária que se estabeleceu em nosso meio. Há uma gama enorme de sofismas pós-modernos que são aceitos como verdade em muitos círculos ditos cristãos. E o resultado disso é que a Verdade tem sido deliberadamente subvertida a fim de endossar práticas e doutrinas totalmente antagônicas à Bíblia. A velha Serpente está a todo vapor!

Em dias em que a Verdade tem sido tão subjugada e corrompida, cabe à igreja de Deus, que é a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15), ser a sua guardiã. Deus não outorgou esse poder a nenhuma outra instituição que porventura exista na face da terra, a não ser à sua própria Igreja, que ele comprou com o sangue do Seu Filho. O mundo descrente tem militado de todas as formas contra a Revelação de Deus. As modernas campanhas ateístas são prova disso. Uma verdadeira “guerra” pela Verdade foi instaurada. Urge, pois, que os bons “soldados de Cristo” estejam aptos a combater os inimigos da cruz nessa batalha.

Soli Deo Gloria!


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[1]H. Bettenson. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo. Editora Aste, 2001. Pág. 81


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Escrevendo sobre/sob turbulência(s)

Na minha infanto-adolescência, como é de praxe nessa fase da vida, eu pensava que era capaz de realizar algumas “proezas”. Não citarei todas, obviamente, mas uma delas era tentar escrever dentro do ônibus, voltando da escola. A cada lombada eu fazia uma pausa, mas não adiantava muita coisa – a estrada, por (ainda) ser de paralelepípedo, me impedia de escrever legivelmente, e o que sobrava eram somente garranchos medonhos. Por perceber que não conseguiria escrever, eu me contentava apenas em ler, o que também era quase impossível de se realizar, haja vista a irregularidade da pista. As turbulências do caminho me impossibilitavam de tais coisas.

Alguns anos se passaram e aqui estou eu, com meu lap-top, sentado à mesa do meu quarto, encontrando as mesmas dificuldades. Obviamente, não me refiro a ônibus ou a paralelepípedos, e sim, à tarefa de escrever, que continua árdua, embora não pelos mesmos motivos de antes, exatamente. Hoje, minhas “turbulências” são outras, e variam desde a falta de ideias (“insigths”) à falta de tempo. Quando as ideias fluem, nem sempre tenho tempo para transcrevê-las; o contrário também é verdade. O que me resta, então, é sobreviver das poucas anotações que consigo fazer quando algo me salta à mente, para escrever numa oportunidade próxima. Não são muitas as vezes em que se encontra uma situação ideal, que combine tempo disponível e ideias abundantes, aliadas a um lugar bem tranqüilo onde se possa escrever com razoável paz. Quando não dispomos de nada disso, a porta para o desespero se abre (principalmente para um blogueiro como eu, que precisa manter seu blog “atualizado”).

Minhas elucubrações sobre esse assunto me fizeram viajar um pouco pela história do povo de Deus. Fiquei a pensar em Moisés, escrevendo o Pentateuco. Ora, ele não estava escrevendo em seu escritório particular, com ar-condicionado, lap-top e cafezinho ao lado. Ele estava em pleno deserto com os israelitas! O que dizer, então, de Davi? Boa parte dos salmos que ele escreveu foi em circunstâncias extremamente adversas (e.g. Sl 23; 51 etc.). Talvez o melhor exemplo seja o do apóstolo Paulo. Ele mesmo nos diz, por exemplo, que escreveu sua segunda carta aos coríntios “no meio de muitos sofrimentos em angústias de coração” (2Co 2.4). Os “sofrimentos” que o apóstolo tem em mente são, certamente, físicos (cf. 2Co 1.8; 11.23-27), ao passo que as “angústias de coração” tem a ver com a sua extrema “preocupação com todas as igrejas” (2Co 11.28) – especialmente a de Corinto. Há uma grande probabilidade de que a sua primeira carta aos coríntios também tenha sido escrita em circunstâncias semelhantes. Paulo estava em Éfeso quando a escreveu. Ele nos diz, por exemplo, que lutou com feras[1] naquela cidade (1Co 15.32) e que, a despeito da “porta grande e oportuna” que se lhe tinha aberto para o trabalho, “muitos adversários” se insurgiram contra ele (1Co 16.8,9). Escrevendo pela segunda vez ao jovem pastor Timóteo, o já debilitado Paulo prevê seu próprio martírio (2Tm 4.6-8). Aqui, sugere-se que ele tenha escrito em precárias condições de saúde. Pesa também o fato de que pelo menos um terço das suas cartas (Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon)[2] foi escrito da prisão. Há outros também, como o apóstolo João, por exemplo, que escreveu o último livro da Bíblia quando estava exilado na ilha de Patmos, “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1.9).

O período da Reforma também tem algo a nos dizer sobre isso, especialmente em se tratando das suas figuras mais proeminentes. Um bom exemplo foi Lutero. Não era raro encontrá-lo jogando frascos de tinta de escrever ao ar, pensando estar atingindo o diabo! Seus tormentos não o deixavam trabalhar em paz. Mas foi numa dessas situações que ele escreveu um dos hinos cristãos mais famosos de todos os tempos, Castelo Forte, quando fugia da perseguição de Carlos V, em 1529. Além disso, traduziu todo o Novo Testamento diretamente do grego para o alemão em menos de um ano, tendo completado a tradução de toda a Bíblia em 1534. “Não só foi a primeira Bíblia do povo alemão em sua própria língua como tornou a forma padrão da língua germânica”[3]. Tudo isso Lutero realizou sob fortes ameaças dos seus inimigos, e não numa “torre de marfim” inatingível.

O caso de João Calvino é ainda mais interessante. Depois da sua “repentina” conversão, o jovem reformador decidira se dedicar inteira e exclusivamente à reflexão e ao estudo das Escrituras. Resoluto disso, “com a intenção de estudar e escrever em reclusão e tranqüilidade”[4], ele partiu para o sul da Alemanha. Quando estava em Estrasburgo, porém, sua rota teve que ser alterada (uma guerra entre Carlos V e Francis I fez com que as tropas bloqueassem a estrada para Estrasburgo), e Calvino teve que desviar por Genebra. Lá ele encontrou William Farel, líder protestante naquela cidade, que insistiu para que Calvino permanecesse lá. Vou deixar para que o próprio Calvino nos conte de como Farel o convenceu a ficar em Genebra:

Farel, que inflamava-se com um zelo extraordinário pelo avanço do evangelho, imediatamente empregou todas as suas forças para me convencer a ficar naquele lugar. E depois que descobriu que o desejo do meu coração era dedicar-me aos estudos particulares, razão pela qual queria me manter livre de outras ocupações, e percebendo que nada conseguiria com súplicas, ele prosseguiu falando de uma maldição que Deus lançaria sobre o meu isolamento e a tranqüilidade dos estudos que eu buscava, caso me recusasse a prestar auxílio quando a necessidade era tão urgente. Fiquei tão assustado com esta maldição que desisti da viagem que tencionava fazer[5].


Certamente, Calvino realizou seu sonho, a saber, o de se dedicar à reflexão e ao estudo das Escrituras. Foi em Genebra que ele editou e publicou sua obra-prima: As Institutas da Religião Cristã. Foi lá, também, que ele começou a comentar os livros das Escrituras, começando por Romanos. Dos sessenta e seis livros da Bíblia, Calvino comentou quarenta e oito, sendo vinte e quatro do Antigo Testamento vinte e quatro do Novo Testamento. Mas não pensemos que ele encontrou em Genebra a “tranqüilidade” que ele tanto desejava. Foi em meio a inúmeras tribulações que o reformador lapidou toda a teologia que ele nos legou. Além das perseguições, que não foram poucas, havias os problemas familiares. Morreram-lhe três filhos (um aborto, um ao nascer, e outro com apenas duas semanas de vida). Logo em seguida, em 1549, foi a vez de sua esposa, Idelette Stordeur, o deixar. Ela morreu de tuberculose. Tudo isso veio como uma faca afiada no peito do reformador. Como se não bastasse, Calvino ainda tinha que conviver com seus próprios problemas de saúde, que eram seriíssimos, e que muitas vezes o impediram de exercer seu ministério de forma mais intensa. Ainda assim, ele arrumou tempo e disposição para pregar cerca de quatro mil sermões durante toda a sua breve vida, deixando-nos toda uma herança gigantesca. Ele morreu aos 54 anos, em 27 de maio de 1564, enquanto comentava o livro do profeta Ezequiel.

Mas não é preciso ir muito longe em nossa pesquisa, não. Bem pertinho de nós, aqui no Brasil, fiquei muito feliz quando li os agradecimentos do Dr. Augustus Nicodemus em seu livro A Bíblia e seus intérpretes. Ele dedica sua última nota de agradecimento à sua esposa Minka. Ele diz que

Sem a sua compreensão e paciência eu não teria como terminar esta pesquisa, que já passa dos dez anos. Ao dedicar-se ainda mais a Hendrika, Samuel, David e Anna, nossos filhos, ela se deu por mim, comprando-me tempo precioso para terminar esta obra[6].


O que pouca gente percebe é que Augustus Nicodemus não escreveu esse livro da noite para o dia – foram mais de dez anos de pesquisa! E não somente isso, mas ele teve que abdicar de parte da sua dedicação aos próprios filhos, para que essa preciosa pérola da literatura evangélica nacional chegasse a nossas mãos. Isso sem contar com os possíveis imprevistos, intempéries, problemas de saúde etc. Acredito que ninguém, quando vai comprar uma joia, fica se perguntando a quantos graus Celsius o ouro bruto teve que ser submetido para que se chegasse ao produto final. Estamos interessados somente na obra-prima, e não nos processos que levaram a ela. Contudo, essa visão limitada, utilitária e imediatista faz com que não atribuamos o valor devido às coisas.

Muitos outros nomes ainda poderiam ser citados, mas preferi restringir esse meu modesto tour a esses poucos exemplos. Não consigo me imaginar na pele Calvino, por exemplo, tanto pela literatura que produziu, quanto pelas circunstâncias em que isso se deu, e ainda mais pela grandeza da sua teologia. Se os simples afazeres diários me fazem perder o prumo (e o texto), o que diria eu das perseguições, doenças e perdas diárias? Entretanto, entendo que cada época encerra as suas próprias dificuldades. Moisés conviveu com as dele, e Lutero também. Cada um na sua. É preciso que nós, cidadãos/escritores/(blogueiros!) do século XXI, saibamos conviver com as nossas “turbulências” também, “remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.16).


“Aproveitai as oportunidades” (Cl 4.5)!

Soli Deo Gloria!

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[1]Não devemos entender “feras” no seu sentido literal, uma vez que a expressão que a antecede, “como homem”, significa “falar figuradamente”. Provavelmente Paulo tem em mente os seus perseguidores, especialmente os seus patrícios judeus.
[2]Ainda se tem dúvidas sobre outras, como II Timóteo, por exemplo.
[3] Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos – uma história da igreja cristã. Editora Vida Nova, São Paulo – SP, 1995. 2ª Ed. Pág. 238.
[4]Em Lawson, Steven J. A arte expositiva de Calvino. Editora Fiel, São José dos Campos – SP, 2008. Pág. 23. Itálico meu.
[5]Idem.
[6]Lopes, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. Cultura Cristã, São Paulo – SP, 2ª Ed. 2007. Pág. 9.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Deus nas mãos de pecadores irados*

O pastor congregacional e teólogo estadunidense Jonathan Edwards ficou mundialmente famoso nos âmbitos secular e religioso por ter pregado um dos sermões mais impactantes e conhecidos da história do Cristianismo. Após ter ficado três dias sem comer e dormir, pedindo a Deus que lhe desse a Nova Inglaterra, Edwards, de posse de um manuscrito segurado tão rente aos olhos que tapava seu rosto à multidão (ele era míope), começou a explanar aos seus ouvintes a real e aterrorizante situação dos “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, baseando-se apenas em um trecho de Deuteronômio 32.35 (“... a seu tempo, quando resvalar o seu pé). Esse sermão foi proferido na noite de 8 de julho de 1741, na capela de Enfield, no estado de Connecticut (EUA), por ocasião do “Grande Despertamento” ocorrido naquela região.

Mais de dois séculos e meio se passaram, e o sermão de Edwards ainda é lembrado com alguma nostalgia por parte de muitos cristãos hodiernos. As alusões aos ouvintes agarrando-se aos bancos por pensarem que iam cair no fogo do inferno enquanto Edwards pregava são abundantes nos lábios dos pregadores e nas penas (ou teclas) dos escritores das épocas subsequentes. Entretanto, um grave erro aconteceu nessa transição de épocas. Os pregadores modernos presumiram que poderiam aperfeiçoar a abordagem de Edwards, e o resultado disso foi uma verdadeira tragédia para a sã doutrina. Começando por Charles Finney (1792-1895) até aos pregadores contemporâneos, a pregação declinou da centralidade em Deus para as necessidades do homem. A ira do Criador cedeu espaço aos caprichos da criatura nos discursos humanistas, inadequadamente chamados de pregação, fazendo com que a soberania de Deus fosse banida do ideário popular dito evangélico.

Isso resultou em um processo de descaracterização do evangelho. A força e firmeza doutrinária tão característica nos puritanos cedeu lugar a um novo tipo de “fé” que emergia dos ideais iluministas. O pragmatismo finneyano alterou radicalmente o modus operandi da igreja, que agora passou a existir unicamente para agradar aos homens. Os fins passaram a justificar os meios quando o assunto era ganhar os perdidos. “Não importa o método. Se deu certo, é porque é de Deus” – um arroubo triunfalista que sugere a ideia de um “pragmatismo consagrado”[1]. Isso fez com que os pregadores adequassem sua pregação e teologia a essa nova concepção de ser igreja no mundo, mesmo que tal adequação implicasse em flagrante contradição com ensinamentos claros das Escrituras. O sistema calvinista de doutrina foi rejeitado por se mostrar “opressivo” e por impedir a “manifestação da potencialidade humana”, com suas “ênfases na soberania de Deus, na depravação do homem, na escravidão da vontade e na conseqüente incapacidade humana para as grandes escolhas”[2]. A rejeição aos postulados dos reformadores foi deliberada.

Todo esse legado finneyano chegou intacto ao século XXI. Se na época de Finney o pecador era convidado a “aceitar” a Jesus, hoje ele não somente é conclamado a fazê-lo, mas também a “determinar” que seja por Deus abençoado, já que agora um “pacto” foi estabelecido. As pessoas são alimentadas com a ideia de que, agora que são crentes, tem o direito de ser abençoadas, e “ai” de Deus se alguma cláusula nesse “contrato” for violada. Nesse caso, Deus senta calado no banco dos réus para ser julgado pelo homem. Isso sem falar na aversão que os crentes modernos tem a palavras negativas como “ira”, “pecado”, “inferno” etc., palavras essas que foram abolidas do vocabulário de muitos pregadores contemporâneos (a não ser quando se fala da “infidelidade” financeira dos fieis). Para muitos cristãos da atualidade, falar em um Deus irado é uma ofensa grosseira aos ouvidos do cidadão pós-moderno. A própria noção de um Deus irado é incompatível com a sua natureza bondosa de Pai. O homem, pensam eles, não precisa conhecer um Deus irado, e sim, um Deus de amor, que está sempre de braços abertos. Toda essa ordem de coisas faz com que o título do sermão de Jonathan Edwards seja convertido para “Deus nas mãos de pecadores irados”, como bem observou R. C. Sproul, significando algo mais do que uma simples mudança na ordem das palavras.

Felizmente, Jonathan Edwards não viveu o suficiente para ver como os pregadores modernos torceram impiedosamente o seu sermão. Ele morreu de varíola em março de 1758, mas provavelmente morreria de infarto se porventura ainda lhe restasse uns séculos a mais de vida. Fico a refletir no que Edwards pensaria dos tele-evangelistas e “avivalistas” da atualidade, muitos dos quais se auto-intitulam “apóstolos” e “profetas”, que ficam querendo incutir na mente das ovelhas que elas agora podem tudo, inclusive inquirir a Deus, exigindo-lhe a sua parte no acordo. Não conheço nenhum pronunciamento de Edwards sobre esse particular, mas suponho que ele pregaria algo parecido com “Pregadores nas mãos de um Deus irado”. Nesse caso, seria bom que ele ainda estivesse vivo. A menos que novas vozes surjam no meio de todo esse escombro eclesiástico, para que Deus promova outro “Grande Despertamento” em nossos dias.

Soli Deo Gloria!!!

*Esta frase é do R. C. Sproul.
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[1] Termo cunhado por Peter Wagner. Ver PORTELA, Solano. Planejando os rumos da igreja: Pontos positivos e críticas de posições contemporâneas. Nota de rodapé nº 9, Fides Reformata, vol. I, nº 2 (julho-dezembro 1996), 84.
[2] SOUSA, Jadiel Martins. Charles Finney e a secularização da igreja. São Paulo. Edições Parakletos, 2002. Pág. 92.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sandálias, sexo e terceira idade (o que é que a "Havaianas" tem?)

O que é que sandálias tem a ver com sexo? Para o pessoal das famosas Havaianas, tudo a ver. A marca exibiu, há pouco tempo atrás (e por pouco tempo), uma campanha publicitária (clique aqui) onde uma neta e sua avó conversavam num restaurante. O ator Cauã Reymond entra no recinto, e a avó diz à sua neta que é de um cara desses que ela precisa. Sua neta responde que deve ser muito “chato” casar com um famoso. Então, a avó diz à sua neta: “Mas quem falou em casamento? Estou falando é de sexo!”. Sua neta fica estupefata com a declaração da avó, que completa: “e ainda sou eu que sou atrasada?”. Depois da reclamação de muitos consumidores, a agência responsável pela propaganda resolveu tirá-la do ar. Em contrapartida, outra campanha (clique aqui) foi feita, agora para justificar porque a anterior foi suprimida. Na atual campanha, a mesma vovó diz que “em respeito a elas [às pessoas que reclamaram da propaganda] a Havaianas decidiu tirar o comercial da TV”. Porém, como houve também aqueles que amaram a propaganda, a vovó (com um sorriso mais largo do que o anterior) ainda diz que “em respeito a elas, a Havaianas decidiu manter o comercial na internet” (como se a internet fosse tão inacessível hoje em dia), exaltando a decisão “democrática” da Havaianas. Ela conclui sua participação (se é que será a última, mesmo) dizendo ao telespectador: “viu como eu sou moderninha”?

Não é de hoje que o sexo é o assunto central das propagandas publicitárias. Hoje em dia qualquer comercial, seja de sandálias, postos de gasolina, cerveja (principalmente) e etc. tem que apelar para a sensualidade para se manter vivo num mercado cada vez mais competitivo (se eu não falar de sexo, outro vem e fala). Os publicitários imaginam que, estimulando a libido da massa, o produto terá maior aceitação no mercado. E é exatamente isso que acontece. Se a lógica do capitalismo (selvagem) é criar necessidades para então satisfazê-las, então por que não criar uma necessidade sexual numa sociedade ávida por sexo, com o fim exclusivo de “ganhá-la”? Se esse recurso ajuda, então por que não lançar mão dele? Qual o problema nisso? Se o produto tem a ver com sexo, pouco importa. O que importa é ser “moderninho”.

O que mais me impressionou nisso tudo foi até que ponto uma senhora já de idade se submeteu para ganhar uns trocados (R$). De repente ela nem acredite na bandeira que levantou na propaganda. Mas, quando o dinheiro fala mais alto, até os cabelos brancos baixam a voz. Quantos por cento será que a vovó da Havaianas representa para a parcela da velha-guarda? Será que além dela existem mais vovós e vovôs aderindo a essa ideia? Se a resposta for positiva, quem ficará com a parte “chata” da moral e dos bons costumes?

Não creio que um discurso moralista dará jeito nessa situação. Tudo isso que acontece aponta para a derrocada moral dos nossos tempos. Nossa sociedade assina, dia após dia, o seu próprio atestado de falência. E quando a indecência é intrínseca, não importa a idade. A “Juventude Transviada” (1955) de James Dean já chegou à terceira idade, e nada parece ter mudado. Agora ela é uma “Terceira Idade Transviada” (se depender da vovó da Havaianas). Não sei quantas pessoas reclamaram da propaganda junto aos órgãos públicos, se é que alguém o fez. Ao que tudo indica, a propaganda saiu do ar porque os consumidores reclamaram à própria empresa que a veiculou, e como ela viu que poderia perder dinheiro, tirou-a do ar (somente do “ar” televisivo) e depois se explicou, em outra propaganda, para mostrar o seu “compromisso” com sua clientela. Também não sei se a reclamação foi por causa da propaganda do sexo ou se foi por causa do denegrimento da imagem do pessoal da terceira idade. Se foi pela primeira causa ou pela segunda, ou ainda por ambas, o fato é que a reclamação em si foi um aspecto positivo. Mas, embora haja algum louvor nisso, ainda não é o suficiente. Se os reclamantes não forem transformados em “novas criaturas” (2Co 5.17), continuarão sendo trevas, ainda que guardiões da moral e dos bons costumes. É preciso algo mais do que simplesmente reclamar: “necessário é nascer de novo” (Jo 3.7). E isso não fará com que eles deixem de usar as sandálias Havaianas, e sim, que rejeitem certas "sugestões" de sua parte.

Soli Deo Gloria!!!


P.S.: Ah! Respondendo à pergunta da paráfrase a Carmem Miranda no título desta postagem, a "Havaianas" não apenas calça os seus pés, mas também tem muito "amor" (sexo) pra dar.



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A propósito do “ET do Panamá”

Na semana passada, mais precisamente na quinta-feira (17/09), o mundo ficou surpreso com a aparição de um animal bizarro, de aparência esquisita, encontrado por quatro adolescentes na localidade de Cerro Azul, no Panamá. Os adolescentes panamenhos disseram que mataram o bicho a pedradas porque temeram ser atacados pela criatura. Pela aparência descomunal e “alienígena” do bicho, as comparações a seres extraterrestres logo não demoraram a aparecer. As autoridades locais ainda não conseguiram identificar o “corpo”, descartando, com isso, todas as especulações circundantes. Porém, alguns biólogos já se antecipam dizendo que o bicho pode ser uma espécie de preguiça.

Fico impressionado como notícias sensacionalistas “bombam” na mídia com a única finalidade de serem desmentidas logo em seguida pelos especialistas de plantão (que tal o “Detetive Virtual” do Fantástico?). Mas, nesse caso do “ET do Panamá”, algo pode ser aproveitado a guisa de ilustração. Para fins didáticos, vou considerar a hipótese dos referidos biólogos como verídica para o que pretendo abordar (ainda que depois seja comprovado que se tratava de uma espécie em extinção. Nesse caso, terei de escrever algo sobre o Evolucionismo). Suponhamos que o bicho se trata mesmo de uma preguiça (lembrem-se: é uma ilustração, e, como tal, tem as suas limitações).

Há muitos crentes hoje que se desculpam de suas “preguiças” (usarei aspas quando for metafórico) atribuindo seus insucessos a uma conspiração maligna (o “ET”, nesse caso). Para os tais, sempre que um filho de Deus fracassa em algum empreendimento é porque a mão do inimigo está por trás. Nesse caso, é necessário passar por uma “sessão de descarrego” ou algo do gênero. Conheço crente que está até hoje desempregado porque fica somente orando em casa, esperando o empregador vir chamá-lo na porta. “Eu estou só vigiando e orando, irmão. E a Palavra diz que ‘Deus não rejeita oração’. A oração do justo pode muito em seus efeitos”. O interessante é que esse mesmo crente que cita de cor Tiago 5.16 (“a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” – ARC) é incapaz de lembrar-se de Provérbios 6.6: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio”; e mais: “Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?” (Pv 6.9). ABRE PARÊNTESE. Certo dia eu conversava com um irmão sobre uma situação hipotética que me ocorreu à mente. Ei-la: Conheço um irmão que estava muito desejoso de passar em um concurso público muito concorrido. Muito fervoroso, ele me falou que ia pedir umas orientações ao “apóstolo” fulano de tal, e perguntou o que eu achava da ideia. Eu lhe sugeri que, em vez de ficar correndo atrás do “apóstolo”, que ele consultasse a esposa deste: a apostila. FECHA PARÊNTESE.

Mas isso não é uma particularidade das ovelhas, não. Já ouvi muitos pastores se desculpando de suas “preguiças” ministeriais colocando a culpa nas circunstâncias. Não deu para visitar uma ovelha enferma porque o “diabo” (o “ET”) o enfermou também; não deu para preparar um sermão expositivo para o culto dominical porque “tive que atender a umas urgências” (que, geralmente, não eram mais urgentes do que a pregação). Tudo isso se explica porque hoje a maioria dos pastores se divide entre o ministério e mais um emaranhado de atividades extras, e não dão a devida prioridade ao rebanho que Deus lhes confiou. Essa é a causa, dentre outras, da pobreza dos púlpitos e do raquitismo do rebanho. Se não há tempo para preparar um sermão, então não há nutrição para as ovelhas. Só restam ao rebanho os fast-foods espirituais: contam-se duas ou três piadinhas, mais uma ilustração, uns chavões básicos (de preferência em voz gritante), e pronto. Tudo isso em vinte minutos, no máximo (e quando dá). Aliás, o fast-food é o prato favorito dos preguiçosos: não dá trabalho, é prático e é gostoso. Confesso que, todas as vezes em que não estou com muita coragem para preparar um prato mais salutar, lanço mão de um hambúrguer, no carrinho de lanche mais próximo, para não ter o trabalho de fazer em casa. Sei que não sou o único a fazer isso (“quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”!). Mas, em se tratando de alimento espiritual, somente o alimento sólido é que pode matar a fome. O resto só distrai a barriga.

Não sei quando é que o caso do “ET do Panamá” será resolvido. Talvez as pesquisas só sejam concluídas quando o assunto cair no esquecimento. Mas uma coisa é fato: o Panamá, a partir de então, não será conhecido apenas pelo seu Canal (o “Canal do Panamá”): agora eles tem um “ET” próprio, que não é aquele hollywoodiano inventado por Steven Spielberg. A não ser que o bicho seja mesmo uma preguiça (para o desespero dos panamenhos e dos crentes preguiçosos).

Soli Deo Gloria!!!