sábado, 19 de março de 2011

Lulu Santos e o Novo Calvinismo

lulusantos2Sem querer aumentar ainda mais o celeuma em torno das fervorosas discussões sobre o Novo Calvinismo (NC), e já correndo o risco de ser considerado como alguém totalmente avesso ao movimento (o que não é verdade, evidentemente), vou revelar aqui uma brincadeira que fiz alhures (via chat) com alguns colegas quando me referi àquela que poderia ser a modinha dos novos calvinistas. Trata-se da música O último romântico, de Lulu Santos, que assim reza em seus versos iniciais:

Faltava abandonar a velha escola/ tomar o mundo feito Coca-Cola.

É claro que não se trata de nenhuma análise “séria” do movimento, haja vista o elemento lúdico embutido na própria comparação em si. Sim, fiz isso mais como quebra-gelo mesmo, e até pensei se valeria a pena mesmo o post. Mas em que se pese essa proposta de ruptura com as velhas formas (ou, o velho modus operandi, de repente) e a consequente propagação de uma mensagem mais contextualizada para a cultura na qual está inserida – o ser “missional”, no caso do NC –, penso que a relação que fiz tem lá a sua validade, o que torna o este post, digamos, “publicável”, segundo penso.

Mas se é pra falar de coisa séria, aqui vai uma crítica. E mais uma vez me aproprio da deixa do Lulu, só que agora no que tange ao romantismo. Tenho notado que alguns irmãos que se identificam com o NC tem se deixado levar por uma postura quase acrítica quanto ao movimento, o que faz com que se irritem facilmente quando alguém questiona certos pontos de suas perspectivas. E o pior é que não são exclusivamente os ditos “neopuritanos” quem levantam as questões, mas até mesmo gente que está mais próxima do arraial do Piper do que do arraial do Peter Masters. E é justamente isso o que me preocupa, pois a impressão que tenho é que muitos estão simplesmente pegando arrego numa onda que nem bem sabem o que é, mas que já se apressam em defendê-la com unhas e dentes. Temo também que essa atitude irrefletida de alguns, somada aos seus ânimos acirrados pela "oposição", possa interferir de forma trágica no resultado pretendido por eles próprios, o que não seria nada bom para o calvinismo no Brasil. Para que seja um movimento realmente frutífero e duradouro [olha eu palpitando aí, gente!] – e não apenas um modismo –, é preciso que os novos calvinistas juntem o ouro, a prata e as pedras preciosas do que há de melhor na tradição reformada, largando de mão as madeiras, fenos e palhas de nossos modelos equivocados (cf. 1 Co 3.10-15). É necessário também que se vá com calma, muita calma, para que a noiva não se canse antes do baile.

É por essas e outras que tenho me recolhido ao silêncio nesses dias. Ainda preciso ler muito sobre o assunto para poder me definir como “a” ou “b”, se é que o farei. Mas de uma coisa eu sei: que a Fé Reformada é muito maior do que o Velho ou o Novo calvinismos. Maior até do que o próprio Calvino, como eu já disse alhures. E se porventura estivermos procurando estabelecer A ou B como o padrão último do que venha a ser um verdadeiro reformado, de modo que rompamos com as Escrituras e com a fé legada pelos nosso pais, então seremos achados não apenas os últimos românticos, mas também como os últimos tolos (isto se não deixarmos o mau exemplo para as futuras gerações, que também poderão continuar endossando essa nossa tolice). Que Deus nos dê discernimento!

Soli Deo Gloria!

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11 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

Não sei quem está mais herege, você ou o Esli, com essa de usar estas músicas que, além de gosto duvidoso, são de uns baita ímpios! rsrssrs
Olha, mano, estou tentando acompanhar de perto os movimentos do movimento (rs). Não vi reações belicosas como você disse, mas temo por elas. E também não posso me afirmar novo (tenho séria desconfiança que serei ainda menos novo que neo). Mas, de todo modo, somos todos novos reformados... No mínimo no sentido que somos uma nova geração de reformados. Então espero que a coisa toda valha a pena. Tomara!
NEle,
Roberto

Heitor Alves disse...

Belo texto Bruno!

Tenho acompanhado silenciosamente os blogs e sites que escrevem sobre o NC. Confesso que à primeira vista, o movimento lembra um pouco do neopentecostalismo das igrejas do tipo Renascer e Bola de Neve, não acha?

Sem falar de um dos pontos fortes do movimento que é a continuidade dos dons revelacionais, algo que eu nego terminantemente. E ainda, um dos principais nomes do NC é o de Mark Driscol que nega a expiação limitada.

Ou seja, o movimento já nasce com sérios problemas, descaracterizando quase totalmente o velho calvinismo que conhecemos.

Mas aguardemos os próximos capítulos para ver quais as intenções e propostas do NC. Confesso que ainda tá muito cedo.

Abraços.

Allen Porto disse...

Bom demais!
Merece ser publicado no 5C!
Deus te abençoe e preserve a tua lucidez!
abraço

Leonardo Bruno Galdino disse...

Roberto,

faz tanto tempo que você não dá as caras por aqui e quando aparece é pra me comparara ao Herege do Esli? Só não recusei seu comment porque AINDA o considero muito, tá? rsrsrsrsrs!

Sobre a tendência belicosa dos novos calvinistas, tenho visto lampejos dela. E, como você, temo que ela se avolume mais. Oro para que não! Mas você falou uma coisa certíssima: que somos, no mínimo, uma nova geração de reformados. Também oro para que isso valha muito a pena.

Abraços!

Leonardo Bruno Galdino disse...

A todos os que leram o post atá agora:

Fiz uma pequena, mas necessária modificação no post. No terceiro parágrafo, onde se lia "E é justamente isso o que me preocupa, pois a impressão que tenho é que muitos estão simplesmente pegando arrego numa onda que nem bem sabem o que é, mas que defendem com unhas, dentes e, quiçá, armas (metaforicamente, tá?). Ao meu ver, essa postura beligerante de alguns novos calvinistas, ainda que provocada por seus opositores, poderá interferir de forma trágica no resultado pretendido por eles próprios, o que não seria nada bom para o calvinismo no Brasil, diga-se de passagem", retirei a parte que fala sobre a suposta beligerância dos novos calvinistas (leiam a edição atual). Devo esta mudança aos comentários pertinentes do Roberto (acima) e do Helder (via chat), que me alertaram para uma possível paranoia (embora nenhum dos dois tenha usado tal termo) da minha parte. Também coloquei algo a mais depois da referência ao texto de 1 Co 3.5-10.

Portanto, ao Roberto e ao Helder (especialmente) estendo minha gratidão pelo alerta.

SDG!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Heitor,

achei a comparação com a Renascer e a Bola de Neve muito forçada. E, ainda que você quisesse se referir ao movimento de igreja emergente, os paralelos cabíveis precisariam ser traçados.

A questão dos dons revelacionais é algo que transcende o NC. Calvino, por exemplo, cria na continuidade da profecia, e disso poucos da velha escola (digo, do Velho Calvinismo) falam. Mas como eu falei, Calvino não pode ser tomado como a medida da fé reformada. Dentro desse mesmo raciocínio, Driscoll não pode ser tomado como o "dono" do NC, embora seja o seu expoente mais notável (ou, mais comentado). A visão que ele tem da Expiação Limitada é, no mínimo, curiosa. Ele parece defender que Cristo comprou todos os seres humanos indistintamente, mas somente os eleitos para a salvação. Talvez ele esteja querendo ressaltar o senhorio de Cristo sobre todas as coisas. E parece que ele não é o único a pensar assim. Mas, por ora, discordo dessa perspectiva. Prefiro pensar que a morte de Cristo, ainda que suficiente para todos e eficiente só para os eleitos (Dort 2), teve por meta a compra somente dos crentes. Mas quero ler mais do Driscoll para poder emitir um julgamento mais adequado.

Quanto aos problemas do NC, eles existem de fato. Assim como existem no VC. O melhor que temos a fazer, como você mesmo sugeriu, é mesmo esperar pra ver no que isso tudo vai dar. Além, é claro, de continuar buscando por reforma e reavivamento em nosso meio.

Abraços!

Leonardo Bruno Galdino disse...

Allen,

Valeu pelo encorajamento, mas não sei se vou publicar no 5C não. rs! Bom, daqui pra meia-noite eu decido. hehe!

Forte abraço!

Heitor Alves disse...

Bruno,

Achou forçada? Vejamos:

Uma das vertentes do NC parece ser uma aproximação mais íntima com o mundo, utilizando-se de suas próprias características para atrair jovens a Cristo. Roupas despojadas e rasgadas, linguagem mais jovial, gírias, introdução de estilos musicais mundanos na igreja... Bruno, isso não soa familiar?

Os jovens das igrejas Renascer e Bola de Neve gostam disso. Pixam suas paredes com denas bíblicas, os cultos são mais modernos lembrando shows com luzes e efeitos. O estilo de pregação do pastor é mais voltado para os teens usando de linguagem mais popular e com roupas bem despojadas.

Você achou forçada? Eu não!

Mais como disse, muita coisa pode mudar pois o movimento ainda está em fase de estruturação. Resta saber como ela chegará por aqui.

Abraços.

Leonardo Bruno Galdino disse...

Heitor,

continuo achando a comparação forçada pelo seguinte motivo: você está generalizando todo o movimento como se todos os novos calvinistas pertencessem a essa vertente mais "descolada". Eu, particularmente, tenho muitas reservas quanto a esse descolamento todo, mas não chego ao ponto de condenar todo o movimento, pois sei que nem todos pensam/agem dessa maneira.

Como você mesmo disse, Heitor, o movimento ainda está se estruturando. Por esse motivo, nossas críticas não podem ser precipitadas nem generalistas. Vamos ver mesmo como o NC chegará por aqui, e retermos o que é bom.

Abraços!

Weliton Borges disse...

Olá,
Realmente devemos ter um cuidado para que o NC não seja apenas uma modinha no Brasil. Tem um bom texto sobre isso no iProdigo.

Eu não creio que NC seja apenas uma modinha no Brasil, geralmente penso como o Pr. Lobão, isso nem chegará ao Brasil. Toda via é totalmente pertinente a preocupação exposta do texto.

Quanto ao prefixo concordo que pouca diferença faz, o importante é o conteúdo. Porém vejo que esta rotulação tem muito a ver com a nossa cultura pragmática herdada do USA.

Mas gostaria de ressaltar que até o rótulo Calvinista, não deixa de ser uma tentativa de imposição de sua identidade, e visto que o “calvinismo brasileiro” é, pelo menos, distante do europeu dos séculos XVI, XVII e XVIII, esta imposição acontece mais pela imposição cultural (tradições e costumes) do que pelo esclarecimento doutrinário. Nisto vejo que será difícil não ter um rótulo “novo” para o movimento.

Sugiro que nem os novos nem os velhos adotem estes rótulos. Sugiro que trabalhemos uma identidade cristã, não faz diferença se calvinista, arminiano, neopuritando ou neoreformado.
O importante é parecermos com Cristo, e nisto que voltemos às escrituras.

Graça e Paz

Heitor Alves disse...

Bruno,

Todo grupo tem excessões e o NC não foge à regra. É claro que dentro de um determinado grupo há uma minoria que não concorde com as idéias da maioria, mas ainda assim o grupo será identificado com as idéias da maioria. A experiência prova isso, cara!

Há uma tendência nossa (que eu acho errada) de fazer parte de um grupo sem adotar 100% de suas implicações. Um determinado grupo que permite que seus membros discorde de um ou dois pontos, esse grupo ficará descaracterizado, sem identidade. Isso é ruim. Ora, se eu não consigo concordar com TUDO, então eu saio (ou me desfilio).

Se o NC tá nascendo nos EUA com a característica de uma evangelização mais ao estilo teen, eu não posso minimizar o problema por causa de alguns adeptos que discorde disso. Eu não posso traçar uma característica de um grupo com base nas discordâncias da minoria!

Portanto, me desculpe a insistência, acho que a minha comparação acima faz sentido.!rsrs

Abração!!!

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