segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Quantas bicicletas Deus tem?

Já é o segundo domingo consecutivo que estamos estudando sobre a doutrina da predestinação na escola dominical em nossa congregação. E, apesar de se tratar de uma congregação presbiteriana, as dificuldades em torno da doutrina ainda persistem nos corações e mentes de alguns – tanto a dificuldade em entendê-la quanto (principalmente!) em aceitá-la. Conversando sobre o assunto com minha esposa em casa, ela me lembrou de um ex-pastor nosso, o qual gostava de explicar a eleição da seguinte maneira: imagine que eu tenho uma bicicleta, e vejo dois garotos na rua. Resolvo, então, dar minha bicicleta a um deles. Alguém poderia me questionar por que eu dei a um e não ao outro, ao que eu responderia dizendo que a bicicleta é minha, e a dou a quem quiser. Não levei em conta quaisquer méritos ou deméritos nas crianças, simplesmente escolhi uma para ser agraciada. Assim, pois, é com a salvação: Deus a dá a quem Ele quer e ninguém pode reclamar disso, pois é algo que pertence a Ele. Fiz questão de levar a ilustração para a classe, mas com a seguinte pergunta: tudo bem, mas... teria Deus apenas uma bicicleta? Na realidade, levantei a questão como que me colocando no lugar de alguém que não aceita a doutrina da eleição incondicional tal como é explanada pela fé reformada. E, com isso, acabei aguçando ainda mais a polêmica que já estava sendo travada ali, mas com a intenção de dar uma resposta depois, obviamente.

Respostas? Há, se levarmos em conta, dentre outras coisas, a relação suficiência-eficiência. Encontramos um bom exemplo disso nos Cânones de Dort, no capítulo que trata sobre a morte de Cristo e a salvação do homem por meio dela:

Esta morte do Filho de Deus é o único e perfeito sacrifício pelos pecados, de valor e dignidade infinitos, abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.

Cânones de Dort, II.3. Ênfase minha.

Ou seja, embora a morte de Cristo seja “abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro”, ela é eficiente apenas nos eleitos, como o próprio documento diz em seguida:

Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus o Pai, que a eficácia vivificante e salvífica da preciosíssima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e por conseguinte os traria infalivelmente à salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo por meio do sangue na cruz (pelo qual Ele confirmou a nova aliança) redimisse efetivamente de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos, e Lhe foram dado pelo Pai.

Idem, II.8. Ênfase minha.

Isto posto, podemos voltar à nossa ilustração da bicicleta: Deus até teria mais para dar, mas resolveu não fazê-lo. E por que não o fez, sendo Ele mesmo bom? Penso ser justamente aí que reside boa parte do problema quando falamos da exclusiva soberania de Deus na salvação do homem. Aliás, a própria pergunta em si já apresenta um grave problema de perspectiva. Já disse algumas vezes que todo e qualquer queixume contra a doutrina da eleição incondicional reside no fato de que o homem se acha bom por natureza e, por conseguinte, merecedor da graça (a “bicicleta”) de Deus. Na realidade, Cristo morreu por mim porque eu merecia ser salvo. É quando o homem passa, então, a confundir a justiça de Deus com a sua própria.

Minha resposta à pergunta por que Deus, mesmo sendo bom não quis Se valer da suficiência da Sua graça para alcançar a todos os que jazem nas trevas é justamente porque a Sua justiça seria ofuscada pelo seu amor, visto que não seria manifesta. Ora, o pecado não poderia passar impune. Se passasse, Deus, que odeia o pecado, deixaria de ser justo e santo. Assim sendo, o amor de Deus não pode ser dissociado do seu corolário, que é a Sua ira, a qual Paulo diz que "se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" (Rm 1.18). E quando o amor sacrifica a justiça, o que temos não pode ser o amor bíblico e divino, mas um amor defeituoso e totalmente incapaz de redimir aquilo a que se propõe. Poderíamos afirmar, ainda com base nessa passagem paulina, que privar Deus de Sua ira santa é suprimir a verdade (justiça) para que a mentira (injustiça) prevaleça.

Acho que deveríamos pensar duas vezes antes de querermos sobrepor nossos "trapos de imundícia" (Is 64.6) à pureza do Senhor. E antes de reclamar qualquer "bicicleta" a Deus, que déssemos uma atenção especial às palavras do profeta Jeremias: "por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados" (Lm 3.39). Mas isso, quantos querem?

Soli Deo Gloria!

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O imutável amor de Deus


Esboço de um sermão que preguei ontem à noite na Igreja Presbiteriana do Ibura (Recife-PE). 
***
“Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” (Malaquias 3.6).

INTRODUÇÃO
Vocês me reputariam por herege caso eu afirmasse que nossos pecados, por piores que sejam, não são capazes de fazer com que Deus diminua o Seu amor por nós, os Seus eleitos? 

EXPOSIÇÃO
A queixa básica do povo parecia ser a de que Deus o havia esquecido, pois os ímpios estavam prosperando, enquanto que Israel, não (2.17; 3.15). Mesmo tendo Deus já declarado o Seu amor exclusivo para com a Casa de Israel, ela desdenhava dele (1.1-5). Para o povo, não havia vantagem nenhuma em um viver piedoso, visto que os ímpios (aparentemente) estavam escapando ao Juízo de Deus (3.14, 15).
- Pós-exílio.

A infidelidade dos sacerdotes 
  1. Profanação do culto (1.6-14): Deus, o pai desonrado e senhor desrespeitado (v. 6). “A mesa do Senhor é desprezível” (v. 7 e 12). O v. 13 é descrito doravante como o roubo nos dízimos e ofertas (3.7).
  2. Negligência da Lei: violação da aliança com Levi (tribo designada para os serviços litúrgicos). 1) negligência no ensino da Lei (v. 7, 8); e 2) parcialidade na aplicação da Lei (2.9). Ver exemplo prático disso em 3.5. Todo esse mau exemplo por parte dos sacerdotes estava fazendo com que muitos tropeçassem (v. 8). Isso estava se refletindo no dia-a-dia do povo, que também estava sendo infiel para com Deus.
A infidelidade do povo
  1. Casamento misto (2.10-12) – uma profanação da aliança (v. 10) e do santuário do Senhor (v. 11). Falar sobre a “Idolatria matrimonial”.
  2. Divórcio massivo (2.13-16). Deus não estava aceitando a oferta do povo por causa da infidelidade conjugal dele (v. 13, 14). As circunstâncias do texto indicam que os homens estavam se divorciando de suas esposas para se casarem com mulheres pagãs. Casamento é aliança, de modo que infidelidade conjugal significa infidelidade da aliança. Deus diz que odeia o divórcio! O casamento é uma instituição tão santa que violá-la, seja por casamento misto ou divórcio, constitui-se em uma quebra da Aliança para com Deus.
Diante de um quadro de infidelidade e rebelião como esse, restaria ainda algum vestígio de amor de Deus para com o Seu povo? Se sim, por meio de quê ele evidenciaria esse amor?

A resposta de Deus: Jesus, o “Anjo da Aliança”

Jesus é identificado como o “Senhor”, como o “Anjo da Aliança” (3.1) e como o “sol da justiça” (4.2) que traria salvação para o povo (cf. Mt 1.21).

Pensando especificamente nesse ato de amor do Pai em nos dar o Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados, João irrompe numa contundente declaração: “Deus é amor” (1 Jo 4.8). João 3.16amor de boa vontade (beneplácito), deliberação em fazer o bem (“o mundo” = “aqueles que não têm nada” – Owen); João 14.23amor de aceitação; chamado para desfrutar de comunhão com o Pai. Não há qualquer possibilidade de comunhão em amor com o Pai sem a mediação do Filho.

O imutável amor de Deus (3.6)

“O amor do Pai é constante: aqueles a quem ama ele ama até o fim e sempre da mesma maneira” (Owen). Contudo, o fato de Deus não mudar o Seu amor para conosco não significa que Ele não altere as dispensações da Sua graça. Diante da nossa rebeldia e incredulidade, Ele nos reprova, castiga, esconde de nós a sua face, nos fere. Mas isso não significa que Seu amor por nós é diminuído. Como disse John Owen, “se qualquer tipo de provocação pudesse afastar o amor de Deus para conosco, já não existiria amor há muito tempo”. (Ver também o Salmo 78.32-38).

APLICAÇÃO: O que Deus exige de nós?

1) Receber o Seu amor. “Até que o amor do Pai seja recebido, não temos nenhuma comunhão com ele” (Owen). E como receber esse amor? Pela fé – mas não uma fé imediata, e sim mediada pelo Filho. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vem ao Pai senão for por mim” (Jo 14.6);

2) Corresponder ao Seu amor em amor. “Deus ama para que seja amado. Tudo começa no amor de Deus e termina no nosso amor para com Ele” (Owen). Não devemos nos fiar na graça de Deus e na imutabilidade do Seu amor por nós para vivermos de forma licenciosa e libertina. É bom lembrar que o “Anjo da Aliança” também seria instrumento de justiça (3.2-4; 4.1-3).

Soli Deo Gloria!
Leonardo Bruno Galdino.
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os crentes, esses incompreendidos...


Por John Owen

Os santos são as pessoas mais mal-compreendidas do mundo. Se os santos disserem: “Venham ter comunhão conosco” (ver 1 Jo 1.3), não estão os homens prontos a dizer: “Por quê? Quem são vocês? Vocês são um triste bando de pessoas sediciosas e facciosas (ver At 17.6; 28.22). Fiquem sabendo que desprezamos qualquer comunhão com vocês. Quando pretendermos deixar a comunhão com todos os homens honestos e dignos, então iremos até vocês”. No entanto, como os homens estão enganados! A comunhão verdadeira deles [dos crentes] é com o Pai: que os homens pensem o que quiserem sobre isso, os santos têm comunhão íntima, espiiritual revigorante e celestial na mútua comunicação de amor com o próprio Pai. Como são mal compreendidos, declara o apóstolo: “Por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretando, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co 2.6-8). Em geral, é assim que são vistos: como pobres, inferiores, pessoas detestáveis e nem um pouco melhores que isso, quando, de fato, são os únicos personagens nobres e grandes no mundo. Pense sobre a companhia que possuem: a do Pai – quem é mais glorioso? A mercadoria que negociam é o amor – o que é mais precioso? Sem dúvida, são as coisas mais excelentes sobre a terra (Sl 16.3).

In: Comunhão com o Deus Trino (Cultura Cristã, 2010, p. 99).
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ele nos amou primeiro, não o contrário!


Por John Owen

“Não consigo fazer meu coração ser recíproco ao amor de Deus. Se pudesse ver a minha alma colocada sobre ele, então poderia crer que sua alma se agradou de mim”.


Esse é o curso mais absurdo que  seus pensamentos podem tomar, uma maneira racional de roubar Deus de sua glória. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou seu Filho”, diz o Espírito Santo (1 Jo 4.10-11). Porém, invertemos essa ordem e dizemos: “Nisto consiste o amor: não em que Deus me tenha amado, mas que eu o amei primeiro”. Isso significa roubar a glória que pertence a Deus: ou seja, enquanto nos ama sem uma causa em nós mesmos, tendo em nós toda a razão do mundo em amá-lo, agimos contrariamente e enfatizamos algo em nós que nos faz objeto de seu amor, destacando nossa iniciativa em amar a Deus. De maneira que o amamos antes de conhecermos qualquer característica amável nele, ou seja, quer nos ame quer não. Essa é uma forma carnal que nunca trará glória a Deus, nem paz para a alma. Abandone, então, seus raciocínios; aceite o amor de Deus como um puro ato de fé, e assim abra a sua alma para o Senhor na comunhão de amor.


In: Comunhão com o Deus Trino (Cultura Cristã, 2010, p. 98).


Soli Deo Gloria!
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Micro-entrevista com João Calvino (1 Co 13.10)

- Calvino, em 1 Coríntios 13.10 Paulo diz que "quando vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado". Em sua opinião, quando virá essa perfeição?
- Em verdade, ela começa na morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; ela, porém, não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final, como logo veremos. Portanto, desse fato concluímos que é algo em extremo estúpido alguém fazer toda esta discussão aplicar-se ao período intermediário.

[1 Coríntios. Ed. Parakletos, p. 406, 407].
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Quando Deus aprova o aborto

Publicado originalmente no 5 Calvinistas.


Talvez o que eu tenho a dizer aqui neste post seja chocante para muitos, especialmente para quem me conhece como um cristão conservador em matéria de política, ética e teologia. Mas, lendo o excelente livro Purificando o Coração da Idolatria Sexual, do Dr. John D. Street (Editora Nutra, 2009), não tive como escapar da dura realidade dessa constatação. Sim, Deus se agrada de um aborto que foi fruto de uma sexualidade pervertida!

Antes que alguém me tenha por herege, gostaria de justificar o meu ponto com as pertinentes observações do Dr. Street ao texto de Tiago 1.14,15:
Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.
Almeida Revista e Atualizada.
Na realidade, este post é mais um endosso ao livro do Dr. Street, enquanto termino de lê-lo (e, também, um ensaio para uma provável resenha). A certa altura do livro ele propõe um “paradigma de quatro estágios” para a escravidão sexual, o qual foi apropriadamente inferido da passagem bíblica supracitada (na realidade, o tal paradigma serve para qualquer pecado). Portanto, lido o texto de Tiago e desfeita a impressão de heresia que deixei transparecer no início (assim espero), prossigamos para os apontamentos do Dr. Street.


Primeiro estágio: alguns desejos depravados internos são estimulados pelo pensamento ou pela experiência (p. 53).
Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz (Tg 1.14).
Um dos grandes diferenciais do livro do Dr. Street talvez seja a sua abordagem essencialmente bíblica – não necessariamente pelas citações bíblicas, mas sobretudo por uma questão de cosmovisão –, diferente do que vemos em boa parte dos livros cristãos sobre o assunto. O autor não busca respostas nas teorias de comportamento seculares, mas nas proposições das Escrituras. Fatores externos como revistas e filmes pornográficos não são os nossos únicos inimigos, visto que eles “necessitam de um aliado dentro do homem para serem eficazes”. Portanto, se o nosso foco está apenas nessas questões (externas), estamos apenas dando a oportunidade para que o inimigo se entranhe ainda mais nos recônditos do nosso coração, visto que é lá que ele está alojado. Para que a cobiça – esse primeiro estágio de uma completa ruína –, então, seja vencida é preciso “identificar o inimigo real e conhecer o campo de batalha” (p. 54). Ou seja: que antes de “amarrar” Satanás possamos atentar para o mal que habita em nós! Chamemos esse primeiro estágio – a cobiça atiçada – de flerte e um convite para a cama.


Segundo estágio: A cobiça concebe num coração fértil quando ela ganha o consentimento da vontade (p. 56).
Então, a cobiça, depois de haver concebido … (Tg 1.15a).
É bom que fique bem claro a essa altura que o ser tentado, por si só, não é pecado. O flerte pode ser interrompido desviando-se o olhar (pois os olhos são “a lâmpada do corpo” – Mt 6.22), e o convite para a cama pode ser perfeitamente rejeitado. Contudo, quando não se é forte o suficiente para adotar tal procedimento, a cobiça encontra terreno fértil no coração, nele concebendo.  O autor do livro observa que “a terminologia grega usada em Tiago 1.13-15 é similar aos termos empregados para referir-se à sedução de uma prostituta” (p. 57), o que é bastante apropriado dado o amplo campo semântico da palavra cobiça. “O mundo e Satanás podem incitar os desejos depravados, mas isso não é pecado no coração até que a vontade tenha concedido a sua permissão”, diz Street. E mais: “o coração perverso é, à semelhança de um ventre, o ambiente fértil ideal para que o óvulo fecundado da cobiça sexual se desenvolva”. Como, então, impedir que esse ente continue a crescer em nosso coração? O autor sugere que o mesmo seja “abortado pelo arrependimento” – e aqui justifico o título que escolhi para este post. Caso não se opte pelo arrependimento, chamemos esse segundo estágio de o mal gerado no ventre


Terceiro estágio: o coração fecundado com a cobiça, em algum momento, dará à luz os atos visíveis da trangressão (p. 59).
Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado… (Tg 1.15b).
Caso não haja o aborto de que falamos acima (o qual Deus efetivamente aprova), o pecado, mesmo sendo trevas, será dado à luz. Essa, na realidade, é uma outra forma de dizer que as más obras dos homens tornar-se-ão expostas em tempo oportuno. Assim como a “barriguinha” de uma gravidez indesejada começa a aparecer com alguns meses, os pecados dos homens serão definitivamente visíveis. E, como diz o Dr. Street, “a cobiça sexual nascerá para o mundo quando tiver atingido a maturidade de gestação na qual o ventre da imaginação não pode mais contê-la” (p. 60). No caso de um cristão, esse pecado que foi dado à luz será o seu “filho bastardo” – ou seja, mesmo que haja arrependimento depois, as consequências o acompanharão. Ainda assim, o crente pode se encontrar encantado por essa criança, a qual, com o passar do tempo, exigirá comida mais robusta: nada de “papinhas” de masturbação ou qualquer outro tipo de auto-excitação, mas formas cada vez mais intensas e prazerosas de excitação, o que pode perfeitamente resultar em estupro, incesto, homossexualidade, necrofilia, bestialismo e tantas outras aberrações sexuais. A perda de controle é total. A este terceiro estágio chamemos de a criança nasce e começa a mandar no pai.


Quarto estágio: o pecado completamente formado resulta em morte (p. 69).
…e o pecado, uma vez consumado, gera a morte (Tg 1.15c).
O termo usado por Tiago para “consumado” é apoteleo, que significa maduro; completamene crescido. Nesse caso, a criança já cresceu (“adulteceu”), e se volta contra o pai, que até resiste, mas nada mais pode fazer. Crentes que vivem sob essa condição “jamais experimentarão a morte eterna ou espiritual”, diz o Dr. Street, “mas é possível que experimentem a morte física” (p. 71). Parece ter sido este o caso em 1 Coríntios 5, onde Paulo ordena àquela igreja que exclua o “velho fermento” da comunhão dos irmãos, para que o mesmo fosse “entregue a Satanás para a destruição da carne” (v.5-7). Pessoas escravizadas pela cobiça hão de perceber que, à medida em que a frequência de delitos aumenta, a satisfação diminui, o que as levará a buscar prazer pessoal em formas cada vez mais complexas. O caso de Davi vem bem a calhar. E o resultado de tudo foi a morte do seu filho (1 Sm 11.15-17; 12.15-18). A este quarto estágio podemos chamar de a criança cresce e mata o próprio pai. 


É isso o que acontece toda vez que não resolvemos extirpar o mal pela raiz, preferindo formas paliativas de resolver o problema. A mensagem da cruz começa pelo coração, pois é lá onde estão escondidos os intentos mais nefastos do ser (Mc 7.14-22)! Medidas paliativas somente adiam o problema. De igual modo, livros com propostas superficiais produzem o mesmo tipo de efeito. Por estar absolutamene convencido de que Deus aprova não somente esse aborto do qual falei, mas inclusive o “assassinato” do ente já nascido, recomendo a leitura do livro do Dr. John Street, a qual tem me ajudado e muito a lidar com meus próprios conflitos. Afinal de contas, quem não tem um calcanhar de Aquiles?

Soli Deo Gloria!
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma palavrinha sobre o palavrão

Publicado originalmente no 5 Calvinistas.

Pegando carona num excelente texto escrito pela Norma Braga há uns quatro anos (leitura mais que obrigatória!), vou arriscar aqui mais algumas palavrinhas sobre os palavrões.
***
Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem.
Efésios 4.29.
Deveria ser justamente o oposto, mas não é raro ver cristãos simpáticos à ideia de que é perfeitamente válido ao crente falar palavrão, sob a desculpa de que “extravasar faz bem para o corpo e para a alma”, dentre outras coisas. Afinal de contas, “ninguém é de ferro”. De fato, ninguém o é. Mas escusar-se nisso é deveras pecaminoso, visto que o padrão maior, que é Deus, não é contemplado. E é muito triste observar que essa mentalidade é bastante comum em nosso meio. Outro problema é que nem sempre o palavrão é oriundo de um pico de fúria, mas inclusive das conversas amistosas, nas quais um palavrãozinho acaba se tornando “imprescindível” para que o papo fiquem ainda mais “interessante” – o que acaba sendo ainda pior em se tratando de uma rodinha de crentes.

É bem verdade que Paulo fez essa associação entre palavra torpe (“palavrão”) e explosões de raiva, no versículo 26 (não vou discorrer sobre tal verso aqui, visto que já tratei dele em outro post), mas, como já disse, esta não é a única associação possível. E aqui chamo a nossa atenção para a perspicaz observação da Norma Braga: “todos os palavrões, dos menores aos maiores, têm algo em comum: remetem invariavelmente ao sexo”. (Particularmente, não conheço nenhum palavrão que fuja a essa regra). Mas será que é este o sentido empregado por Paulo na referida passagem? Teria ela conexões com aquilo que hoje entendemos por palavrão? Existia palavrão no século I?

No grego, a palavra traduzida por torpe é sapros, que significa, literalmente, podre, sem proveito, e foi usada apenas por Jesus e Paulo. Cristo a usou como metáfora para a “árvore ”, a qual produz somente frutos maus (Mt 7.17ss; 12.33; Lc 6.43), e para os peixes “ruins” que são deitados fora do cesto (Mt 13.43). É evidente que o uso que Jesus fez dela não tem conexões diretas com a questão da sexualidade, visto que em suas falas Ele nunca se preocupou em dar esse tipo de especificação. Contudo, Jesus era bem específico numa coisa: em apontar o coração como a fonte de tudo aquilo que arruina o homem, incluindo os pecados sexuais (Mc 7.18-23). Assim sendo, o sentido esposado por Paulo se sustém, pois não há boca que sobreviva com uma dieta a base de palavras podres.

Na realidade, o entendimento de que Paulo, aqui, se refere à linguagem libidinosa pervertida não é novo. Por exemplo, Calvino, comentando a passagem em foco observou que esse termo usado pelo apóstolo se refere a “tudo aquilo que provoca excitamento erótico que costuma infeccionar a mente humana com a luxúria” – o que para nós é um sinal de que nos tempos do reformador os palavrões também estavam ligados ao sexo (ou, à deturpação deste). Alguém poderia argumentar que Calvino, aqui, escreveu pensando em sua própria época, e não na de Paulo. A estes respondo com textos como Romanos 1.26-27, 1 Coríntios 5 e 6.12-20, onde o apóstolo nos dá alguns detalhes do que era a imoralidade sexual de seu tempo, o que me leva a crer que a época em que ele viveu não era menos podre de linguagem do que o século XVI ou o século XXI. No entendimento do reformador, Paulo não está falando apenas de palavras vazias e bobas, mas de palavras podres e carregadas de imagens sexuais. Obviamente, são muitas as palavras e coisas que nos provocam esse tipo de excitamento apontado por Calvino, e é razoável aceitarmos que elas são alvo de Paulo nesse texto. Mas não nos enganemos, pois até mesmo palavras “inocentes” podem assumir a forma de um palavrão, pois o pecado, como já vimos, não começa na boca, e sim no coração. Por esse motivo é que devemos extirpar de nossas disposições mentais tudo aquilo que porventura nos remeta a tais pensamentos (cf. Fp 4.8-9), fugindo, assim, de toda a aparência do mal (1 Ts 5.22).

Em resumo, considerando a admoestação do apóstolo, deveríamos fazer os seguintes questionamentos acerca do palavrão, caso ainda queiramos considerar a sua legitimidade: 
  1. ele verdadeiramente promove a edificação (pessoal e coletiva)?
  2. ele verdadeiramente transmite graça aos que o ouvem?
Particularmente, penso que palavras podres e imorais jamais promoverão a edificação pessoal ou coletiva, visto que são fruto de uma árvore mau desde a sua raiz. De um coração tomado de pensamentos impuros não pode sair coisa boa. As obras da carne nada podem edificar senão a própria carne (cf. Gl 5.16-21). Por este motivo, tais palavras são incapazes de transmitir graça às pessoas que nos rodeiam. Em vez de graça, transmitem desgraça: mau testemunho, incitação à violência, ao sexo pervertido e por aí vai. É por esse motivo que Paulo diz para não darmos lugar ao diabo (Ef 4.27), o verdadeiro pai de toda podridão. Estejamos, pois, alertas, antes que o Senhor nos lave a boca com algo muito pior do que o sabão com que nossos pais nos ameaçavam.
Soli Deo Gloria!
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