quinta-feira, 20 de maio de 2010

Respostas aos exercícios propostos por Henry Virkler no livro “Hermenêutica Avançada”[2]

PC18: Os cristãos tem discutido muito sobre o tópico da ira, baseando-se em Efésios 4.26 (“Irai-vos…”). Analise o significado deste versículo e discuta se ele apóia ou não a opinião positiva da ira normalmente derivada dele.

Virkler, Henry A. Hermenêutica avançada. Editora Vida, 1989, p. 85.

“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4.26): à primeira vista, este parece ser aquele tipo de mandamento bem sarcástico, algo do tipo “chupe aqui este limão bem azedo, mas sem fazer careta”. Isto, é lógico, se o texto for interpretado de forma indevida. Por este motivo, para uma interpretação mais acurada da aludida porção da Sagrada Escritura, vamos proceder a uma breve análise léxico-sintática (significado das palavras isoladamente – lexicologia, e da função que exerce dentro da frase – sintaxe) e, depois, a uma breve análise teológica (“como esta passagem se enquadra no padrão total da Revelação de Deus?”).

Análise léxico-sintática

É bastante significativo o fato de que o mandamento para irar-se (“irai-vos…”) esteja na voz passiva, enquanto que o mandamento para não pecar (“e não pequeis”) esteja na voz ativa. É como se isso quisesse dizer: “sejam tomados pela ira [voz passiva], mas não pequem [voz ativa]” – o que apoia a opinião da maioria teólogos, de que Paulo está se referindo a uma espécie de “ira santa”, movida por um genuíno zelo pela causa de Deus, e não por motivos pessoais.

Outro fator interessante é a partícula e (gr. kai) – “irai-vos, e não pequeis” – que tanto pode atuar como uma partícula conjuntiva aditiva (e.g., “eu e ela fomos ao cinema”), quanto como uma partícula conjuntiva adversativa (e.g., “ele foi e não voltou”). Se aditiva, então é como se Paulo presumisse que os efésios entenderiam o que ele estava querendo dizer; se adversativa, é porque Paulo queria adverti-los que o tipo de ira que ele estava recomendando não era uma ira carnal, e sim, como já dissemos, uma ira movida por um autêntico zelo pelas coisas concernentes a Deus (gosto de pensar que este último caso é mais apropriado para o contexto da passagem).

[Questões textuais]

A interpretação do referido texto, porém, não é tão simples quanto parece. E se Paulo estiver citando o Salmo 4.4, então a coisa fica ainda mais complicada. Por que? Porque uma das traduções possíveis para “irai-vos” no texto hebraico é temei (do verbo “temer”), o que é uma ideia apropriada à luz do contexto do Salmo em questão. Algumas versões bíblicas traduzem o referido termo (no Salmo) com esta mesma ideia:

  • “Stand in awe, and sin not” (“Temei, e não pecais” – King James Version);
  • “​​​​​​​Tremble with fear and do not sin!” (“Tremam com temor e não pequem!” – NET Bible);
  • “Pertubai-vos e não pequeis” (Almeida Corrigida e Fiel; e Almeida Revista e Corrigida);
  • “Tremei [de indignação] e não pequeis” (Bíblia Literal do Texto Tradicional Anotada).

A versão Revista e Atualizada de Almeida (ARA) parece basear-se na versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), que utiliza a mesma palavra grega (orgizo) usada por Paulo no texto de Efésios. Isto indica que muito provavelmente Paulo tenha usado a LXX em vez do Texto Massorético (texto tradicional dos judeus, em hebraico). Mas isso definitivamente indica que Paulo não tinha o Salmo 4 em mente? Penso que, ainda assim, não dá para precisar.

Análise teológica

Se Paulo tinha ou não o Salmo 4 em mente, o fato é que, do ponto de vista teológico, a ira que ele recomenda aos efésios não é um tipo de ira carnal, e sim, uma ira, digamos, santa – uma ira motivada por um autêntico zelo pela causa de Deus. Por exemplo, foi este o tipo de ira que Jesus sentiu quando expulsou os vendilhões do templo, o  que fez com que seus discípulos lembrassem do Salmo 69.10: “O zelo da tua casa me devorará” (Jo 2.13-17). Esta, sim, é uma ira não somente justificável, mas também ordenada e incentivada pelas Escrituras.

Mas há ainda um outro tipo de ira com o qual devemos ter cuidado, sobre a qual o próprio Paulo adverte a Tito (Tt 1.7), aos colossenses (Cl 3.8) e aos próprio efésios (Ef 4.31), a saber, a ira que nos leva a pecar, seja por egoísmo, seja por excessos. Calvino, ao comentar Efésios 4.26,  disse que há três erros pelos quais ofendemos a Deus quando nos iramos: 1) “quando nos iramos por motivos sem importância, e às vezes, por nada, ou, pelo menos, por injúrias e ofensas pessoais” [tipo eu quando estou no trânsito – Arghhh!]; 2) “quando vamos longe demais, e nos deixamos levar pelo excesso emocional” [tipo Moisés quando bateu na rocha em vez de falar a ela – Nm 20.1-13] ; 3) “quando nossa ira, que deveria ser direcionada contra nossos pecados, se volta contra nossos irmãos” [tipo todos nós quando queremos tirar o cisco do olho alheio...]. Por estes motivos é que o reformador diz que “seja o zelo pela glória de Deus o que inflame a nossa ira”, e que cuidemos para que esta “seja aplacada, para que não suceda que ela se mescle com os violentos afetos carnais”. ABRE PARÊNTESE. Cá pra nós, a linha que separa uma coisa da outra é tão tênue! Tem misericórdia de nós, Senhor! FECHA PARÊNTESE.

Conclusão

Penso que o conselho de Paulo aos cristãos de Roma resume bem o que ele quis dizer aos de Éfeso: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira [de Deus], porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19). É mais ou menos o que diz Tiago: “Sabei isto, meus amados irmãos: Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tg 1.19,20). 

Questões para reflexão

  1. Que cuidados devemos tomar quanto à nossa ira contra a injustiça e desigualdade sociais, bem como quanto à corrupção política?
  2. Calvino diz que, “quanto aos outros, que nos iremos contra seus erros em vez de nos irarmos contra suas pessoas”. De que forma isto é possível?

Soli Deo Gloria!

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2 comentários:

Lucas Yahn disse...

Respondendo a segunda questão (sobre o pensamento de Calvino), imagino que essa seja a nossa posição com relação, por exemplo, aos homossexuais. A quem não faz sentido recriminar, visto que é mais um pecado, como qualquer outro. Doutra forma, recriminamos a prática.

Então, aceitamos amar um homossexual (como qualquer pecador, nosso próximo), porém, de forma alguma o homossexualismo. Que tal?

Leonardo Bruno Galdino disse...

De acordo, Lucas.

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