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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobre os textos supostamente “arminianos” da Bíblia[3] – Análise de 2 Pedro 1.9

Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora.

(Almeida Revista e Atualizada).

[Introdução]

Quando comentei com um amigo que analisaria mais uma passagem de 2 Pedro nessa minha série sobre os supostos textos “arminianos” da Bíblia, ele rapidamente exclamou: “Mais uma?! Desse jeito você vai deixar a impressão de que Pedro era mesmo arminiano”! É óbvio que ele quis apenas fazer uma brincadeira, visto que também é reformado. Na realidade eu não pretendia, de início, analisar o texto que ora estou considerando. Minha intenção inicial era a de analisar, em 2 Pedro, apenas os dois textos que já analisei. Mas, lendo a carta novamente, me deparei com este de agora. E fiquei sobremodo inquieto. Comentando com outro amigo sobre essa mesma questão, ele me disse que nunca tinha visto os arminianos usarem esse texto contra os calvinistas. Como eu também nunca vi, fiquei perguntando para mim mesmo se eu não estaria dando um tiro no próprio pé ao mostrar aos arminianos algo que nem eles mesmos tinham visto. E a conclusão a que cheguei foi a de que é justo admitirmos quando estamos em dificuldades diante de um texto de difícil interpretação. Todavia, o que tenho sempre em mente é que “a Escritura não pode falhar” (Jo 10.35), muito menos contradizer-se. Isso é o que deve nortear toda a nossa hermenêutica e exegese, e nos motivar a ir em busca de respostas para questões tão aparentemente insolúveis como esta.

Como sempre proponho nas minhas abordagens, vamos analisar o referido versículo por partes e dentro do seu contexto, para que possamos obter uma compreensão mais consistente e adequada do seu real significado. Isso evitará que incorramos em interpretações errôneas do texto sagrado.

Só gostaria de chamar a atenção dos leitores para algo que julgo ser essencial, antes de adentrarmos na análise do texto propriamente dito. Penso que a chave hermenêutica para a compreensão de toda a segunda carta de Pedro esteja no seu primeiro versículo, onde o apóstolo endereça a sua carta “aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”. O que é que a justificação pela fé está fazendo num contexto onde o foco de Pedro é alertar os crentes sobre a falsa doutrina escatológica e ética dos falsos mestres? Resposta: somente os que creem na perfeita justiça de Cristo[1] é que receberão de Deus “todas as coisas que conduzem à vida [eterna] e à piedade” (2Pe 1.3) e todas as suas “preciosas e mui grandes promessas”, para que por elas os mesmos possam se tornar “co-participantes da natureza divina” e livrar-se da “corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe 1.4). Mais uma vez repito: Pedro está escrevendo para a igreja. Isto posto, vamos ao texto de 2Pe 1.9.

[Análise]

Em primeiro lugar, Pedro fala sobre certas “coisas” que não estão presentes na vida dos falsos crentes (“Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes”). Que “coisas” são essas? Vejamos 2Pe 1.3-8:

    • 3 Visto como, pelo seu divino poder, nos tem sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude,
    • 4 pelas quais nos tem sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos das paixões que há no mundo,
    • 5 por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude o conhecimento;
    • 6 com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio a perseverança; com a perseverança a piedade;
    • 7 com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor.
    • 8 Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Já no versículo 3 Pedro nos fala algo interessantíssimo e crucial. Ele diz que todas as coisas que nos conduzem à vida [eterna] e à piedade nos foram doadas. Fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor são coisas que nós nunca conseguiríamos produzir sozinhos – é dom de Deus. E esse dom visa exatamente a que não sejamos “inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 8). Ora, se tais coisas não estavam presentes na vida dos falsos cristãos, é porque eles nunca haviam sido agraciados por Deus da mesma maneira especial como os verdadeiros crentes o foram. Por este motivo é que eles eram inertes e infrutíferos. Tais dons de Deus são o indicador infalível que distingue a verdadeira religião de uma mera profissão de fé, aquela “fé morta” da qual Tiago fala (Tg 2.14-26). Charles Spurgeon falou sobre isso de forma magistral, quando disse que “a profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta”.

Para reforçar mais ainda seu argumento, em segundo lugar Pedro diz que quem não tem nenhuma das qualidades supracitadas é “cego, vendo só o que está perto”. A palavra grega que ele usa para cego é a palavra τυφλος (typhlos), que também é usada no NT com seu sentido metafórico de “cegueira mental ou espiritual” (cf. Mt 15.14; 2Co 4.4). Sendo assim, não há contradição alguma no fato de Pedro dizer que os tais são cegos e ainda assim enxergam apenas o que está perto deles. Minha opinião é que aqui Pedro está apenas sendo irônico. Basta lembrarmos que uma das coisas que os falsos mestres negavam era exatamente o retorno triunfal de Cristo, que eles julgavam deveras demorado, para não dizer ilusório (2Pe 3.4,9). E o que Pedro está querendo dizer é que qualquer um que tenha sua visão limitada a esta vida terrena sofre de cegueira espiritual. Em outras palavras, é como se ele quisesse dizer: “Vejam o quão cegos eles são! Pois não são capazes de enxergar algo que ainda está ‘longe’ do alcance de suas medíocres visões”. Uma santa ironia! [Em minha análise de 2 Pedro 2.1, mostrei que alguns adjetivos que Pedro usa para qualificar os falsos crentes indicam que os tais jamais foram salvos. Por isso, não pretendo me estender mais quanto a este particular].

Mas, então por que Pedro falou que os falsos crentes foram um dia purificados dos seus pecados de outrora? Será que existe um outro sentido para a palavra “purificação”?

Bem. A esta última pergunta eu respondo que “sim”, que Pedro usou a palavra “purificação” com um outro sentido diferente daquele que comumente extraímos quando fazemos uma leitura superficial do texto, o que faz com que ele se pareça mesmo “arminiano”. Então, a que Pedro estava se referindo quando falou da “purificação” dos antigos pecados dos falsos crentes? Minha resposta é: ao batismo. E vou tentar explicar o porquê dela.

Pra ser sincero, eu não pude consultar a opinião de outros comentaristas sobre a passagem em questão porque não possuo nenhum comentário sobre a mesma (nem sobre as cartas de Pedro). Eu deduzi a opinião que ora sustento por um breve estudo que fiz do texto grego (este, pelo menos, eu tenho). Mas, para a minha felicidade (e surpresa, também), descobri que essa opinião é sustentada também por Simon Kistemaker, famoso comentarista bíblico reformado e sucessor do erudito William Hendriksen. Eis o seu parecer sobre o texto que estamos considerando:

As palavras de Pedro, purificada de seus pecados passados, dizem respeito ao batismo. Estão de acordo com o comentário de Paulo sobre a igreja: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra” (Ef 5.25,26; ver também 1 Pe 3.21). O batismo é o símbolo dessa purificação, e a morte sacrificial de Jesus na cruz é uma realidade.

Com o termo passados, Pedro indica alguém que vivia em pecado, converteu-se e foi batizado. Talvez essa pessoa não tenha percebido a importância dessa purificação e, portanto, não tenha rompido com seu passado, mas misturado sua vida mundana com o viver cristão. Talvez ela tenha gradualmente se separado de seu compromisso com Cristo ao esquecer-se da importância de seu batismo e ao voltar para sua antiga vida pecaminosa[2].

Infelizmente, Kistemaker não foi tão profundo em sua análise quanto eu esperava que ele fosse, mas também não pretendo, aqui, “remendar” o trabalho de tão respeitado e competente teólogo. Apenas desejo fazer mais algumas observações que julgo relevantes à questão.

A palavra que Pedro usa para “purificação”, no texto que estamos considerando, é a palavra grega καθαρισμου (katharismou), derivada de καθαρος (katharos), termo que significa, literalmente, “limpo”; “puro”. Jesus usou esta palavra nas suas bem-aventuranças, quando quis se referir aos “limpos” de coração, que verão a Deus (Mt 5.8 – cf. Sl 24.4). Fiz questão de expor isso para mostar que em alguns casos a palavra katharos era usada no sentido de uma pureza espiritual, e não apenas física (Ap 15.6) ou ritual (Lc 17.14; Rm 14.20; Hb 1.3)[3]. Penso que não seria honesto de minha parte esconder essa verdade, principalmente daqueles que hão de discordar do ponto de vista reformado que defendo. Entretanto, meu argumento é que Pedro não empregou a palavra katharismou no seu sentido de purificação espiritual, e minhas razões para tal posicionamento são bem simples. A primeira é que, se Pedro quisesse mesmo se referir a uma verdadeira purificação espiritual, então não faltariam para os falsos crentes certas “coisas” como fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor, coisas essas que o próprio Pedro diz que eram completamente ausentes nos tais (2Pe 1.3-9). Minha segunda razão, semelhante à anterior, é que, se os tais tivessem sido mesmo purificados espiritualmente, então Pedro não deveria tê-los chamado de “cegos”, já que tal “purificação” deveria ter sido integral. Talvez ele devesse ter usado termos mais amenos, como “fracos”, “imaturos” ou coisas do tipo. Essa proposição é simplesmente absurda! Pedro não falhou em tachar os falsos crentes de cegos, nem de dizer que Deus não doou a eles as coisas que doou aos verdadeiros crentes. Pedro foi inequivocamente exato!

Tendo chegado à conclusão[4] de que Pedro não estava se referindo a uma purificação espiritual, precisamos fundamentar melhor nossos argumentos em prol de uma purificação ritual – o batismo, nesse caso. Mais uma vez, apelarei para o texto grego e para um princípio básico da hermenêutica (de uma boa hermenêutica), a saber, o de averiguar o uso que o mesmo autor faz de um determinado termo em outras passagens de sua lavra. Mas nesse caso eu não me referirei ao termo grego katharismou, e sim à palavra “purificação”.

Se não for determinante, é no mínimo significativo o fato de que a palavra que Pedro usa para “purificar”, em sua primeira carta, não tenha sido a palavra katharismos, e sim a palavra hegnikótes, que é oriunda do verbo αγνιζω (hagnizo), que também significa “purificar”. Hagnizo (e seus cognatos) é o termo que os autores do NT geralmente preferem quando o assunto é purificação moral e espiritual. Antes de dar mais explicações, vejamos o texto em 1 Pedro:

    • 1Pe 1.22: “Tendo purificado [hegnikótes] a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente”.

É interessante notar que essa palavra (hegnikótes) e seus cognatos (hagnizo e hagnismos) são usados apenas duas vezes, em todo o NT, com o sentido próprio de “purificação ritual” (em Jo 11.55 e At 21.26). No restante das ocorrências, ela assume o sentido de uma purificação moral e espiritual (cf. Tg 4.8; 1Jo 3.3). Ora, se Pedro quis mesmo dizer (em 2Pe 1.9) que os falsos crentes tiveram suas almas moral e espiritualmente purificadas, por que será que ele não usou o mesmo termo que ele havia usado em sua primeira carta? Resposta: porque ele não estava se referindo ao mesmo tipo de purificação, nem ao mesmo tipo de pessoas.

Isso me levar a crer que Pedro estava se referindo a uma “purificação de superfície”, e não de natureza, e um próprio exemplo que ele usa na mesma carta (2Pe) confere com essa perspectiva. Numa quase evidente referência ao batismo (em águas), Pedro compara os falsos crentes a uma porca que volta a revolver-se na lama depois de ter sido lavada (2Pe 2.22). Apesar de eu já ter dissertado um pouco sobre esse texto em outra postagem, penso que seja oportuno fazê-lo novamente aqui. Note que Pedro diz que o banho não mudou em nada a natureza da porca, pois ela voltou para a lama logo na primeira oportunidade. Ele aplica esse adágio popular aos falsos crentes. Mesmo que se batizem, nunca serão purificados de fato; mesmo que se batizem, nunca poderão obter “fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.1); mesmo que se batizem, nunca poderão confirmar sua “vocação e eleição” (2Pe 1.10), pois não foram chamados nem eleitos; mesmo que se batizem, nunca poderão conhecer completamente aquele que chamou os eleitos para a sua própria glória e virtude (2Pe 1.3). Ao contrário dos verdadeiros crentes, a entrada para o reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo não será amplamente suprida aos meros professos, visto que foi no próprio Cristo que eles tropeçaram (cf. 2Pe 1.10-11). E ainda que os tais se esperneiem naquele Dia, dizendo “Senhor, mas eu fui batizado nas águas”, eles terão que ouvir a dura realidade da boca do próprio Cristo que eles rejeitaram: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticam a iniquidade” (Mt 7.22-23).

[Conclusão]

A profissão de fé torna-se algo puramente vazio se não for acompanhada de genuíno e constante arrependimento. Os falsos crentes, ainda que professem publicamente a sua fé por meio do batismo, suas próprias condutas hão de denunciar que a fé que eles possuem é morta. Nesse caso, é mais do que apropriado dizer que os tais não passam de “sepulcros caiados” (Mt 23.27,28).

Soli Deo Gloria!

Publicado originalmente no blog 5 Calvinistas.


[1] Embora a partícula εν também possa ser traduzida como “pela”, penso que a tradução mais coerente seja mesmo “na justiça”, visto que Pedro está mais preocupado em expor o objeto da nossa fé do que em expor o meio pelo qual viemos a crer. Fé “em que”, e não “por meio de que”.

[2] KISTEMAKER, Simon. Epístolas de Pedro e de Judas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p.340-341. Obrigado, Helder, por ter se dado ao trabalho de digitar o comentário do Kistemaker sobre essa passagem e mandar pra mim por e-mail.

[3] Embora devamos admitir que a linguagem que o salmista usa no Sl 24.4 é uma metáfora tirada dos rituais levíticos (cf. Lv 11-15).

[4] O método hermenêutico que geralmente uso nesses casos é o da eliminação das proposições falsas (semelhante àquele que usamos para responder às questões objetivas nas provas de vestibular, concursos e etc.). Eliminando-se as proposições improváveis (falsas), sobrará apenas uma única e provável (verdadeira) resposta.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sobre os supostos textos “arminianos” da Bíblia[2] – Análise de 2 Pedro 3.9

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento (Almeida Revista e Atualizada).

[Introdução]

O texto supracitado é largamente usado pelos arminianos como uma prova irrefutável de que Cristo morreu por toda a humanidade. O raciocínio é mais ou menos o que segue: “Como é que Jesus veio morrer por alguns, se o próprio Deus deseja que todos se salvem”? É interessante o fato de que até mesmo um grande teólogo reformado como John Murray endosse exatamente o parecer arminiano. Veja o que ele diz sobre esse mesmo texto:

Deus não deseja que nenhum homem pereça. Seu desejo, antes, é que todos entrem para a vida eterna chegando ao arrependimento. A linguagem nessa parte do versículo é tão absoluta que é altamente anormal encarar Pedro como querendo dizer meramente que Deus não deseja que nenhum crente pereça… A linguagem das cláusulas, então, mais do que naturalmente refere-se à humanidade como um todo… Ela não tem em vista os homens como eleitos ou como réprobos[1].

Sinceramente, não sei porque cargas d’água um teólogo do calibre do John Murray, autor de obras tão consagradas no meio reformado, como o Comentário de Romanos e Redenção – Consumada e Aplicada, tenha errado tão crassamente como ele o fez aqui. Mas isso não me interessa. O que interessa, de fato, é analisar se tanto ele quanto os arminianos estão certos em suas interpretações.

[Análise]

Se o contexto da referida passagem for cuidadosamente observado, a interpretação arminiana não tem como se manter de pé. Para não sermos desnecessariamente longos em nossa exposição, vamos nos deter apenas do versículo 8 em diante, em busca de algumas provas contra a interpretação que os arminianos conferem ao Texto Sagrado.

A primeira prova contra a interpretação arminiana é que Pedro está se dirigindo aos crentes (os “amados”). Senão, vejamos:

    • 2Pe 2.8: “Há, todavia, amados, uma coisa que não deveis esquecer: que para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia”.

Haveria uma chance de escape para a interpretação arminiana se Pedro tivesse como objetivo, aqui, corrigir os falsos mestres, dirigindo-se especialmente aos tais. Mas não é isso que a carta como um todo revela. Pedro está escrevendo à igreja, preocupando-se em trazer à lembrança desta as “palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos” (2Pe 3.2 – cf. 1.12-14). Seu objetivo é alertá-la contra o ensino dos falsos mestres, que negavam a promessa de Cristo quanto ao seu retorno triunfal (também conhecido como “parousia”). Compreender isto, que é aos crentes que Pedro se dirige, é fundamental para a intepretação da passagem em questão.

Isto posto, chegamos à nossa segunda prova de que a interpretação arminiana está equivocada. Pedro começa o versículo 9 dizendo que “alguns” julgavam que a parousia era uma farsa, haja vista que a promessa de Cristo quanto a ela estava “demorando” para ser cumprida. Pedro, então, explica aos crentes o porquê de Cristo ainda não ter voltado: “ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. Não há dificuldade alguma no texto. Ele é mais do que claro. As palavras que sublinhei só podem se referir aos crentes. Deus é longânimo somente para aqueles a quem Ele não fará perecer. E quem é o único povo que não perecerá? Resposta: a Igreja. Essa verdade é reforçada pelo uso que Pedro faz da palavra grega boulomenos (do verbo boulomai – lit. “ter vontade”, “intentar”) para o “querer” de Deus (“não querendo que nenhum pereça”). Geralmente, essa palavra é usada para designar uma “determinação incontestável” e deliberada da parte de Deus[2].

Mas, suponhamos que os arminianos estejam certos, e que o “todos” a quem Pedro se refere seja mesmo a humanidade inteira. A que conclusões chegaríamos?

  1. Se o retorno tão esperado de Cristo depende mesmo do arrependimento de toda a humanidade, então os falsos mestres contemporâneos de Pedro estão cobertos de razão, pois Jesus, nesse caso, jamais voltará;
  2. Se não é bem esse o caso, então os propósitos de Deus foram frustrados (contrariando Jó 42.2), visto que nem toda a humanidade se arrependerá;
  3. Se também não é esse o caso, então das duas uma: ou os hereges estão certos (o que faria de Jesus um mentiroso, de fato), ou Deus falhou na sua empreitada redentiva. ABRE PARÊNTESE. Este terceiro ponto era para soar redundante, mesmo. FECHA PARÊNTESE.

Como podemos perceber, as próprias premissas do pensamento arminiano para o caso que estamos tratando, se levadas às suas últimas implicações, excluem-se mutuamente. E as conclusões que delas podemos tirar são absurdas!

Somos levados, então, à terceira prova do erro arminiano. Se o versículo 9 ainda está obscuro no que diz respeito a que tipo de pessoa é alvo da longanimidade de Deus para fins salvíficos, então vejamos o que o próprio Pedro diz no versículo 15:

    • 2Pe 3.15: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada”.

Mais uma vez, haveria outra chance remota de escape para os arminianos se esse versículo não estivesse onde está. Mas ele está aí – resoluto, firme, inconteste! E ele está dizendo que nossa salvação só é possível porque Deus é longânimo. E para agravar ainda mais a situação (dos arminianos, é lógico), Pedro resolve fazer referências a Paulo. O texto paulino mais provável que Pedro tem em mente é o de Romanos 2.4. Vejamos o que diz:

    • Rm 2.4: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento”?

Vejam só! Paulo está dizendo que somos conduzidos ao arrependimento por causa da bondade de Deus. Isso é maravilhoso! E Pedro não está fazendo aqui uma citação despropositada, como se ele estivesse apenas querendo conferir autoridade ao seu parecer apelando para Paulo. Nada disso. Pedro está simplesmente corroborando uma verdade já anunciada anteriormente pelo apóstolo aos gentios, a saber, que somente chegarão ao arrependimento aqueles a quem Deus dispensar a sua longanimidade.

Pode ser que aqui os arminianos se levantem e vociferem: “se for assim, então há controvérsias”! Eles poderão alegar um outro possível texto paulino, na mesma carta, que também fala da longanimidade de Deus. Vejamos qual:

    • Rm 9.22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”.

Bem. Não consigo imaginar qual seria exatamente o argumento dos arminianos. Se eles apelarem para o fato de que Deus suporta com muita longanimidade “os vasos de ira”, ou seja, os incrédulos, então eles também terão que admitir que os tais foram “preparados para a perdição” (réprobos), enquanto que outros foram preparados para a glória (os eleitos – Rm 9.23). Sinceramente, se eu fosse arminiano, jamais apelaria para um texto desses. A não ser que eu estivesse disposto a admitir que realmente “o Senhor fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamindade” (Pv 16.4). Mas isso seria demais para quem não aceita a absoluta e irrestrita Soberania de Deus. Tudo isso mostra que não há escapatória para quem deseja contestar a Verdade. Ela “encurrala”, mesmo.

[Conclusão]

Diante de tudo o que vimos, não me resta outra alternativa, senão a de concluir “doxologicamente” (valeu por esse insight, Roberto Vargas!):

“Obrigado, Senhor, pela tua imensa paciência dispensada a nós, pobres e miseráveis pecadores. Sem ela não nos restaria tempo para nos arrependermos de ter ofendido o teu Santo Nome. Dessa forma, podemos dizer, com absoluta certeza, que fomos salvos pela Tua longanimidade. Aleluia”!

Soli Deo Gloria!

Publicado originalmente no blog 5 Calvinistas.


[1] The Free Offer of the Gospel, Murray and Stonehouse ,no city, no publisher, no date, 26, 27. Citado no site Monergismo (clique aqui).

[2] Verbete “vontade”, do Novo Dicionário Internacional de Teologia do NT (Ed. Vida Nova, pág. 2677).

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobre os supostos textos “arminianos” da Bíblia[1] – Análise de 2 Pedro 2.1

“Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (Almeida Revista e Atualizada – ARA).

O primeiro texto supostamente “arminiano” que escolhi para início de conversa é o de 2 Pedro 2.1. O que faz este texto “parecer” arminiano é o uso que Pedro faz da palavra “resgatou” durante a sua descrição dos falsos profetas. Não é ilusão de ótica, meus caros. Realmente a Palavra está dizendo que pessoas renegaram a Deus após terem sido por Ele resgatadas. Será que este versículo compromete, de fato, a doutrina da perseverança dos santos, como querem os arminianos? Pedro não poderia ter escolhido uma palavra menos “comprometedora”? Por que ele fez isso? Nosso objetivo, aqui, é tentar responder a essas questões.

[Estudo da palavra “resgatou”]

A palavra que Pedro usou para “resgatou” é a palavra grega agorasanta (lit. “que comprou”), uma variação do verbo agorazō, que significa, literalmente, “comprar”. Esse verbo, bem como suas variantes, ocorre trinta vezes em todo o Novo Testamento, mas apenas em cinco dos casos ele se refere à “compra” de cristãos (vd. 1Co 6.20, 7.23; Ap 5.9, 14.3,4). No restante das ocorrências ele assume seu sentido comercial usual (e.g. Mt 13.44; Mc 6.36; Lc 14.18; Jo 4.8; 1Co 7.30; Ap 13.17). Alguém poderia objetar dizendo que a ocorrência no texto petrino que estamos considerando também se refere à “compra” de cristãos, o que aumentaria para seis o número de ocorrências da referida palavra com este sentido redentivo. Minha resposta a tal objeção é que Pedro, diferente dos outros autores das passagens citadas, não está se referindo ao rebanho que foi comprado pelo sangue de Jesus, a Igreja. Senão, vejamos:

    • 1Co 6.20: “Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo’’;
    • 1Co 7.23: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens”;
    • Ap 5.9: “e entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”;
    • Ap 14.3,4: “3 Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra. 4 São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos [egorasthesan] dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro”.

No caso dos textos em 1 Coríntios, o que Paulo tem em vista é a nova situação dos crentes como escravos de Deus, já que foram comprados por alto preço por Ele. O argumento paulino (vd. contexto) é que os cristãos tem que viver à altura do nome que agora carregam. Já em Apocalipse, o que João tem em vista é a “compra” dos salvos, e tão somente destes, pelo sangue do Cordeiro (5.9). João ainda diz que somente os que foram “comprados da terra” é que podem entoar o novo cântico diante do trono (os 144 mil representam a totalidade dos eleitos). E ele finaliza dizendo que apenas “os que foram redimidos dentre os homens” é que foram capazes de manter sua fidelidade espiritual ao Deus que lhes comprou.

Definitivamente, parece não ter sido esta a sorte dos falsos mestres a quem Pedro se refere. Eles não viviam à altura do nome que arrogavam para si, visto que eram extremamente libertinos, avarentos, mentirosos, atrevidos, arrogantes, adúlteros e jactanciosos (vd. 2.2, 3, 10, 14 e 18). Sendo assim, eles jamais poderão cantar o “novo cântico” diante do trono (Ap 14.3), uma vez que não foram capazes de manter sua fidelidade doutrinária, espiritual e moral. Isso nos mostra que a incapacidade para tal deveu-se ao fato de os tais não estarem dentre aqueles homens que foram redimidos, a saber, os verdadeiros seguidores do Cordeiro (Ap 14.4). ABRE PARÊNTESE. Sei que os arminianos, aqui, vão discordar da Expiação Limitada. Nesse caso, paciência. FECHA PARÊNTESE. Sendo assim, então por que será que Pedro usou a palavra “resgatou”?

Bem. Mesmo com a correlação do texto petrino com os supracitados, esta pergunta ainda continua difícil de ser respondida. Porém, se atentarmos para o fato de que Pedro está fazendo um paralelo dos falsos mestres do NT com os falsos profetas do AT (ver Dt 13. Cf. 1Rs 22; Jr 23; Ez 13; Zc 13.4), poderemos extrair o sentido que ele quis emprestar à palavra em questão. É somente dessa forma que poderemos justificar o uso que ele faz do referido termo.

Jesus comparou o reino dos céus a uma rede que, “lançada no mar, recolhe peixes de toda espécie” (Mt 13.47). Essa verdade pode muito bem ser aplicada ao povo de Israel. Pensemos na saída do povo do Egito nesses termos, por um momento (ou seria “forçar demais” o texto?). Quando por ocasião do êxodo do Egito a “rede” foi lançada, não devemos pensar que apenas “peixes bons” foram fisgados, e sim que também havia “peixes ruins” no meio. Ou seja, nem todo mundo que saiu de lá era crente de fato! A própria história nos mostra que, não obstante o fato de serem hebreus, nem todos faziam parte, de fato, do povo da Aliança. É Paulo mesmo quem fala que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6). Do Egito saíram homens corajosos como Josué e Calebe, mas também ímpios revoltosos como Corá, que foi tragado vivo, com todos os seus, pela terra que Deus fez abrir debaixo dos seus pés (Nm 16). Quando o povo foi murmurar contra Moisés e Arão dizendo que estes haviam matado o “povo do Senhor” (Nm 16.41), o próprio Deus se encarregou de exterminar, mediante terrível praga, o restante da massa incrédula, totalizando “catorze mil e setecentos, fora os que morreram por causa de Corá” (Nm 14.49). Ora, Corá e os rebeldes foram “resgatados” do Egito também, mas eles eram “povo de Deus”?

Penso que aqui criamos uma ponte para a nossa compreensão do motivo pelo qual Pedro resolveu usar a palavra “resgatou”. Pedro não está falando de um resgate efetivo, e sim, de um resgate potencial. Ou seja, não é a “graça especial” (aquela que é derramada apenas sobre os eleitos) que ele tem em mente, e sim, a “graça comum” (aquela que Deus derrama sobre toda a humanidade)[1]. Para esclarecer melhor este ponto, voltemos por um instante à parábola de Jesus em Mateus 13.47-50. Como é que Jesus a conclui? Ele diz que os pescadores, ao chegarem à praia, assentam-se para escolher os peixes bons para o cesto, ao passo que os ruins são deitados fora. “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dos justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (vs. 49,50). Isto significa que os incrédulos (os “peixes ruins”) poderão “pegar carona” no barco somente até à hora em que ele ainda está navegando. Mas ai deles quando o barco chegar à praia e os pescadores começarem a ver quem é quem!

[Mais dois argumentos]

Embora eu acredite que a parábola e o restante da explanação por si só já tenham sido suficientes para lançar luz sobre a questão em geral, particularmente sobre o uso que Pedro fez da palavra “resgatou”, gostaria de usar apenas mais dois fatos para reforçar minha argumentação.

1) A certeza que Pedro tem quanto ao juízo que Deus derramará sobre os falsos mestres indica que eles jamais estiveram nos planos salvíficos de Deus. Pedro diz que a condenação dos falsos mestres não é uma “ideia recente” na mente de Deus, e sim que “para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e sua destruição não dorme” (2.3). Pedro, na realidade, já havia declarado algo semelhante na sua primeira carta, ao dizer que os construtores da auto-justificação vieram à existência justamente para tropeçarem na “Pedra de tropeço”, que é Cristo (1Pe 2.8). ABRE PARÊNTESE. É por essas e outras que sou supralapsariano. FECHA PARÊNTESE. Pedro, então, usa alguns exemplos da história do Antigo Testamento para reiterar ainda mais o seu parecer sobre o destino desses ímpios. Ele faz citações da queda dos anjos (v. 4); do dilúvio (v. 5); e da destruição de Sodoma e Gomorra(v. 8). E aqui temos algo revelador. Se o salvo pode mesmo perder a salvação, como os arminianos afirmam, então o versículo 9 não deveria estar nesse contexto, pois ele diz que “o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia do Juízo”. O exemplo que Pedro usa para realçar tal verdade é o livramento que o Senhor deu ao justo Ló (v. 7,8). Posteriormente Pedro ainda fará uma referência a Balaão, o profeta que se extraviou do reto caminho, amando o “prêmio da injustiça” (v. 15,16). Para pessoas desse tipo, o apóstolo diz que o que Deus reserva é apenas juízo e trevas medonhas (cf. v. 4, 9 e 17).

2) Alguns adjetivos que Pedro usa indicam que esses tais que se diziam cristãos, na realidade, nunca o foram. Se os leitores observarem todo o contexto da passagem, logo perceberão que Pedro não fica fazendo rodeios nem se utiliza de eufemismos para dar aos hereges a classificação que lhes cabe. Sem melindres diplomáticos, Pedro os tacha diretamente de “falsos”. Ele não diz, por exemplo, que os tais eram “falsos profetas que foram verdadeiros um dia”. Essa verdade ganha realce empolgante no final do versículo 22, onde Pedro compara os falsos crentes com porcos: “com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro [...]: a porca voltou a revolver-se no lamaçal”. Mais uma vez, Pedro não diz, nem ao menos sugere, que eles já foram ovelhas um dia, mas que, agora, sofreram uma “mutação” e se transformaram em porcos. Não. Pedro, seguindo o seu raciocínio anterior de que tais pessoas são “como animais irracionais, que seguem a natureza” (v. 12), arremata falando que o porco, por alguns instantes de aparente bem-estar higiênico, voltou ao seu habitat natural - a lama! É justamente essa verdade que o apóstolo João endossa quando diz que os falsos mestres “saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos" (1 Jo 2.19).

[Conclusão]

Infelizmente, no momento não tenho como me antecipar a absolutamente todas as objeções que os arminianos porventura venham a levantar ao que foi acima explanado. Isso tornaria a exegese forçada e o trabalho cansativo. É por este motivo que o melhor a fazer é esperar até à próxima postagem da série. Até lá!

Soli Deo Gloria!

Leonardo Galdino.

Publicado originalmente no blog 5 Calvinistas.


[1] Aqui Pedro não está se referindo à “compra” realizada por Jesus na cruz, visto que o termo no original grego que ele utiliza para “Soberano Senhor” é a palavra despotes. Sugere-se que, aqui, ele esteja se referindo a Deus o Pai, uma vez que quando ele quer se referir ao senhorio de Jesus a palavra que ele geralmente usa é kyrios (cf. v. 20). Isso não significa que o “resgate” do Pai é menos efetivo do que o do Filho, e sim que o que Pedro tem em vista ao fazer uso da palavra “resgatou” é a graça comum de Deus sobre os homens.

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domingo, 15 de novembro de 2009

Sobre os supostos textos "arminianos" da Bíblia [0] - Questões Introdutórias

Antes de adentrar nas “questões introdutórias” propriamente ditas, gostaria de esclarecer algumas coisas sobre os motivos que me levaram (na realidade, que estão me levando) a escrever essa série. Tenho visto que nos últimos anos a internet, especialmente a blogosfera, tem se tornado o espaço preferido para as mais efusivas discussões (talvez porque dispense o “constrangimento” de uma acareação). “A arena está montada e só se digladia quem tem pulso!” – é mais ou menos este o discurso que paira implícito (e explícito, por vezes) em alguns ciberespaços. No entanto, percebo que pouco do que se diz tem sido realmente proveitoso ou produtivo. Na maioria das vezes esse pretenso “pulso” não tem se mostrado como firmeza na Verdade por Deus revelada, e sim, como firmeza no próprio “pulso” carnal – nas especulações vãs e irracionais da mente humana decaída, de modo que o foco na edificação mútua e no compartilhamento da “fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3) tem sido paulatinamente perdido. Contudo, isso não quer dizer que um “caloroso” debate seja ruim, e vou tentar explicar o porquê.

[Adentrando nas “questões introdutórias” – uma defesa da relevância da discussão]

Algum tempo atrás me envolvi num debate sobre a doutrina da perseverança dos santos, no blog de um famoso e influente pastor pentecostal (preciso citar quem foi?), que respondia com um “sim” à seguinte pergunta: “É possível perder a salvação, se ela nos foi concedida pela graça de Deus”? Na oportunidade, fiz alguns comentários (uns publicados, outros não, sei lá por que) pertinentes ao assunto, no intuito de apresentar as razões bíblicas pelas quais o parecer do referido pastor era inconsistente. O pastor em questão também apresentou mais alguns textos bíblicos para dar suporte ao seu ponto de vista, e o resultado foi que a discussão ficou “inacabada”, pois resolvi sair dela, o que foi interpretado por alguns seguidores do blogueiro anfitrião como um “pedido de arrego” de minha parte. Recentemente meus amigos blogueiros Clóvis e Helder Nozima (do Cinco Solas e do Reforma e Carisma, respectivamente) se envolveram num debate intenso com o Prof. Leandro Quadros, do programa de televisão e site adventista Na Mira da Verdade. Na ocasião, o pivô da discussão foi a doutrina da predestinação, na qual o referido professor mirou, mas errou (acho que por problemas de vista), embora tenha apresentado uma “enorme” lista de 48 textos (na realidade foram 56) que, segundo ele, “mostram ser possível o predestinado se perder”, o que “leva qualquer leitor a concluir que o calvinismo carece – e MUITO – de base bíblica”.

Diante de exemplos como os supracitados, paira no ar a seguinte pergunta: já que cada um usa a Bíblia para apoiar seu próprio ponto de vista, e como muitas das vezes o uso que elas fazem do texto sagrado parece ser coerente, quando é, então, que uma discussão sobre certos assuntos é relevante? Não seria essa uma “guerrinha de egos” somente para definir quem está com a razão?

Devo admitir que, de fato, na maioria dos casos as discussões tem se transformado mesmo em disputas puramente egocêntricas, onde a humildade é esquecida em prol do afã de se ganhar a disputa (inclusive este que vos escreve já agiu assim, por algumas vezes). Nesse caso, o debate, ainda que seja sobre um tema de extrema relevância, tornar-se-á não apenas inútil, mas, também, nocivo. Porém, creio que há uma “possibilidade de redenção” para a necessidade de se debater. Eu diria que isso se dá apenas quando ambas as partes se dispõem a se submeterem à Verdade. E aqui é bom que se diga que a Verdade é uma só. ABRE PARÊNTESE. Sei que essa minha declaração pode soar deveras soberba e exclusivista (além de “suspeita”), mas, sinceramente, não estou nem um pouco preocupado com isso, contanto que minhas assertivas estejam respaldadas pela Verdade contida na Palavra. FECHA PARÊNTESE.

[Chegando mais perto…]

Muitos são os textos que os arminianos (ainda que alguns deles não gostem de ser chamados assim, pois preferem ser chamados de “bíblicos”, ou “equilibrados”) usam para tentar legitimar suas doutrinas e pareceres sobre certos assuntos em que divergem da teologia reformada. Essa divergência geralmente dá-se em virtude da soteriologia calvinista, resumida em cinco pontos pelos seus próprios oponentes arminianos (para um breve resumo histórico, clique aqui). O famoso acróstico TULIP os resume: Total depravação, Uma eleição incondicional (Predestinação), Limitada expiação, Irresistível graça e Perseverança dos santos. Ainda que nós, reformados, saibamos perfeitamente que o calvinismo é muito mais do que soteriologia, devemos admitir que a doutrina da salvação é realmente o ponto nevrálgico dessa disputa.

Quanto a este último particular, há quem diga que uma leitura ipso facto da Bíblia favorece mesmo a algumas das interpretações que os arminianos advogam como verdadeiras. Talvez seja esse um dos principais motivos pelos quais o arminianismo seja mais palatável à maioria dos cristãos de hoje. Ora, se Paulo mesmo fala que Deus “deseja que todos os homens cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4), e que Jesus “a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2.6), os arminianos não estão porventura corretos quando afirmam que a morte de Jesus foi para salvar a toda a humanidade, e não apenas aos eleitos? Não é de fato esta a primeira impressão que se tem quando se depara com um texto tão “claro” como esse?

Bem, a discussão relativa ao referido texto propriamente dito, bem como tudo o que envolve sua exegese, ficará para as próximas postagens (que não será necessariamente a próxima). Nesse momento basta dizer apenas que o grande problema da visão arminiana é, primariamente, um problema de referência. Sem medo de parecer arrogante ou coisa que o valha, afirmo, sem meias palavras, que o sistema arminiano (ou qualquer outro que procure limitar Deus em Seus atributos) é puramente humanista em seu âmago, visto que o homem, e não Deus, é sempre tomado com o ponto de partida nas discussões. E, ainda que vários textos da Bíblia sejam usados para apoiar seus argumentos, os mesmos mostrar-se-ão completamente falsos se o referencial certo (ou seja, o próprio Deus) não for devidamente considerado. Este ponto é de crucial importância para qualquer tipo de abordagem que se queira fazer envolvendo as verdades eternas.

[Um testemunho]

A esta altura considero ser oportuno comentar algo. Penso que boa parte dos reformados, na qual me incluo, já se sentiu profundamente inquieta diante de textos como os supracitados quando iniciaram sua jornada pelas Antigas Doutrinas da Graça (das quais o calvinismo é apenas um “apelido”, digamos). Como nem sempre assimilamos tudo de uma vez só, creio que muitos de nós já questionamos até mesmo a validade da perspectiva que resolvemos abraçar. Eu, particularmente, não abracei todos os cinco pontos logo de imediato, mas a posteriori (a “conta-gotas”, digamos). Resisti por um tempo à doutrina da predestinação, que é tida (erroneamente) como o coração do calvinismo. Mas depois de muito meditar na Palavra percebi que, se Deus não predestinasse, ninguém poderia ser chamado eficazmente pelo Espírito, nem justificado dos seus pecados, o que significa que ninguém jamais seria glorificado naquele glorioso Dia (cf. o silogismo paulino em Rm 8.30). Mas não foi o medo de ser tachado como um “calvinista manco” (de quatro pés, ou melhor, pontos) ou coisa do tipo que me fez acatar a doutrina da predestinação. Eu o fiz simplesmente por perceber uma unidade intrínseca entre cada ponto, bem como a interdependência deles entre si. E foi pensando nessas questões que me decidi a escrever sobre o que fazer com aqueles textos supostamente “arminianos” da Bíblia.

[Considerações finais]

Em princípio, meu objetivo é analisar apenas os textos que os arminianos usam como “provas irrefutáveis da falácia calvinista”, mas não prometo que será sempre assim. Paralelo aos textos que os arminianos pervertem, pode ser que eu coloque outros textos, apelando para o princípio hermenêutico de que a Bíblia se auto-interpreta. Na medida do possível também pretendo expor algumas das falácias hermenêuticas e exegéticas mais comuns em nosso meio (acadêmico, clerical ou leigo), mas somente o farei quando for pertinente. Espero em Deus que essa série possa se tornar útil para todos aqueles que, como eu, desejam “manejar bem” a Palavra da Verdade (2Tm 2.15), e que, nisso tudo, somente Deus seja glorificado.

Soli Deo Gloria!

Leonardo Galdino.

Publicado originalmente no blog 5 Calvinistas.

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