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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

“Algumas certezas, muitas dúvidas” – Sobre a fé incrédula da espiritualidade pós-moderna

dúvida4 É interessante como o lema da propaganda do seriado global Malhação, algumas certezas, muitas dúvidas”, tem tudo a ver com o tipo de “espiritualidade” que muitos evangélicos tem abraçado nos dias de hoje. Ao contrário da espiritualidade do antigo Evangelho, que sempre se pautou mais pelas certezas do que pelas dúvidas dos crentes, o que pode ser percebido pela grandeza dos credos e confissões de fé antigas, a nova espiritualidade não apenas se firma sobre um terreno movediço, mas também parece até se orgulhar disso. E não estamos falando daquele tipo de questionamento sobre se o batismo deve ser por imersão ou por aspersão; ou se as mulheres devem ou não orar no culto, mas se os pontos fundamentais do cristianismo são mesmo tão fundamentais assim. Para quem ainda não a conhece, esta é a boa (ops!) e velha incredulidade, que na maioria das vezes se esconde sob a capa de um dócil espírito piedoso.

Ricardo Gondim escreveu um livro cujo título reflete muito bem o que propõe esse tipo de espiritualidade. O livro se chama Eu creio, mas tenho dúvidas – a graça de Deus e as nossas frágeis certezas [o negrito não é meu], e foi lançado pela editora Ultimato em 2007. Apesar do título aparentemente inofensivo e “piedoso”, o livro, que na realidade é uma coletânea de artigos do autor, no conjunto se mostra um verdadeiro amálgama não de crenças, mas de descrenças (salvo alguns capítulos em que ele apropriadamente rejeita o evangelho da prosperidade e outras esquisitices neopentecostais), onde há endossos (por vezes explícitos) a engodos como a teologia relacional e as teorias desconstrucionistas de Foucault e Derrida, somente para citar os mais relevantes. Curiosamente, o mesmo Ricardo Gondim fez a apresentação de outro livro com o mesmo tema, agora lançado pela editora Mundo Cristão, cujo título é Fé e Descrença, de autoria de Ruth Tucker (na realidade, o evento foi um debate sobre o assunto do livro, promovido pela própria editora). Confesso que não li toda a obra, mas a julgar pelo seu próprio título e também pelo tema abordado por Gondim em sua palestra de apresentação, a qual ele sugestivamente intitulou de “A fé de mãos dadas com a dúvida” (aqui), nem é preciso folheá-la toda para saber do que se trata.

O mais interessante é que os duvidosos se mostram sempre muito humildes e, na maioria dos casos, muito piedosos. Aliás, é bom que se diga que esta é, na realidade, uma das principais táticas que eles usam para não serem precocemente rechaçados. Na grande maioria das vezes eles adotam uma postura defensiva contra tudo aquilo que eles chamam de cristianismo “elitista”, “desumano”, “opressor”, “arrogante” e até “anticristão”, exaltando conceitos nobres como liberdade, diversidade, justiça e democracia, sempre com o intuito de que as pessoas os vejam como vítimas da “ortodoxia fundamentalista” (a “monolítica teologia evangélica estadunidense”) daqueles que reclamam para si o cristianismo histórico. Assim como existem os marginalizados sociais, os duvidosos se sentem como os “marginalizados teológicos” dessa disputa. Mas cuidado: em alguns casos tudo isso pode não passar de pura ironia.

Arrependo-me de ter aliciado algumas pessoas para meu texto. Atraí alguns imprudentes leitores e eles, coitados, passaram a gostar das minhas doidices autofágicas, das minhas apostasias teológicas e dos meus delírios existenciais. Pior, condenei-me a continuar escrevendo para alimentar esses famintos pintassilgos que, de bico aberto, esperam o insípido pão que regurgito em forma de palavra.

Gondim, Ricardo. Op. cit. p. 13.

É justo reconhecer, entretanto, que nem todos usam essa tática com o fim último de ganhar adeptos, embora isso acabe, no fim das contas, por aliciar gente inconstante e imatura para o terrível, porém convidativo, mar da incerteza, onde há pouquíssima luz e muita escuridão. A despeito de sua crença (ou da falta dela), também é bom que se diga que nem todos os duvidosos são, por assim dizer, libertinos práticos, pois nem todos estão envolvidos em escândalos sexuais, drogas, alcoolismo, lavagem de dinheiro e coisas do tipo, o que não os melhora em muita coisa, é verdade, mas que pelo menos livra suas caras das páginas que os jornais dedicam aos abusos eclesiásticos nossos de cada dia.

Toda essa maré de incertezas me faz crer que a máxima modernista de que “tudo o que é sólido desmancha-se no ar” (Marx) parece ter encontrado terreno fértil na religiosidade dos dias atuais. Na cultura hodierna a fé não pode mais sobreviver sem a dúvida. Melhor: as incertezas são infinitamente mais sublimes do que as convicções. A virtude de um homem não está mais na robustez de sua fé, e sim na fragilidade da mesma. Incrível isso, não? Como diria Humberto Gessinger, líder da banda de rock Engenheiros do Hawaii, “a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza”. Ora, é o próprio deus (de cognome “Papai”) do best-seller A Cabana quem diz que “a fé não cresce na casa da certeza”. Se foi “Deus” mesmo quem disse, o que questionar? Até mesmo o Espírito Santo (de cognome “Sarayu”) disse que “gosto demais da incerteza”. E, para que toda a Trindade enfim endosse esse culto à dúvida, só falta o parecer de Jesus, que não diz exatamente que está “incerto” quanto a algo, mas hilariamente declara que “eu não sou cristão” e que “minha vida não se destinava a tornar-se um exemplo a copiar”[1]. De fato, numa sociedade onde nem a própria divindade crê mais em uma verdade absoluta, nada disso surpreende.

Mas apesar de estar bastante em voga nos dias de hoje, essa temática na realidade é bem antiga. Não, não estou me referindo às teorias ateias de Marx nem ao Iluminismo, muito menos aos seus filhotes – os liberais. Estou me remontando ao Éden, pois foi lá que a guerra pela Verdade adentrou na História. Com uma clareza mais que indubitável, Deus havia dito ao casal que ele acabara de criar que se eles comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal certamente morreriam. Deus não disse que “provavelmente” a desobediência desembocaria em morte, mas “certamente morrerás” (Gn 2.17). Então a serpente, o mais sagaz de todos os animais selváticos, semeou a dúvida na mente de Eva: “Foi assim que Deus disse: não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1). O resultado final foi que o casal acabou cedendo à tentadora oferta que Santanás lhes propôs, a de ser “como Deus”, tendo sido lançada naquele dia as bases de um piso escorregadio que até hoje tem levado a humanidade a deslizar e cair em todas as formas de paganismo. E é justamente por isso que a dúvida tem conquistado o seu espaço no panteão moderno como uma divindade digna de ser adorada.

Àqueles que me oferecem, muito obrigado, mas eu não quero abraçar essa tal “espiritualidade”, pois ela propõe exatamente um outro deus, apesar de este ser sempre inclusivo, não preconceituoso e indulgente para com tudo, até mesmo para com os nada-indulgentes cristãos “tradicionais”. Não quero essa espiritualidade porque ela cheira àquilo que Paulo tanto advertiu a Timóteo, de que certas pessoas ostentariam um certo tipo de “piedade”, mas que no fim de tudo negariam o poder desta tanto por seu credo quanto por suas práticas malignas (2Tm 3.5), ainda que estas reluzissem como verdade (cf. 2Co 11.14). Não quero essa tal espiritualidade porque ela me faz lembrar dos místicos medievais, que, de tanto abraçar o “mistério”, acabaram por reduzir a fé cristã a meros exercícios ascéticos e contemplativos, mantendo viva a tocha gnóstica que os pais primitivos tanto lutaram para apagar. E por fim, não quero essa tal espiritualidade porque no fim das contas ela acaba desacreditando daquilo que o apóstolo denominou de “coluna e baluarte da verdade”: a igreja (1Tm 3.15).

Vou ficar mesmo com a fé do cristianismo histórico, que, a despeito da fragilidade de seus personagens, certamente diria com a mais firme convicção que as certezas sempre sobrepujam as dúvidas, ainda que estas não sejam poucas.

Soli Deo Gloria!

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[1] Young, William P. A Cabana. Editora Sextante. As citações “entre aspas” encontram-se nas páginas 176, 190, 168 e 136, respectivamente.

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

“Meu partido é um coração partido” – Do partidarismo teológico dos evangélicos brasileiros

A frase de Cazuza supracitada entre aspas reflete bem a postura de muitos evangélicos brasileiros diante das diversas perspectivas teológicas existentes dentro do Protestantismo. Tenho lido ultimamente (em blogs, sites, livros, revistas etc.) diversos manifestos cada vez mais verborrágicos de muitos que defendem uma suposta neutralidade hermenêutica, argumentando que “nada de Calvino ou Armínio, prefiro ficar com a Bíblia”, aliada a uma espécie de desilusão teológica, argumentando que “teologia é aquilo que os teólogos dizem acerca de Deus”. Para os tais, tudo isso se constitui numa prova incontestável da vaidade e tagarelice dos “teólogos de plantão”, que só sabem ficar repetindo as frases e pensamentos de teólogos renomados, já que são “incapazes” de ser originais.

Embora seja oportuno fazer uma referência às centenas de novas denominações (“partidos”) que surgem no cenário brasileiro a cada dia, de nomes que vão de Igreja Noiva de Jesus da Segunda Divisão a Igreja Abastecedora de Água Abençoada, não é meu objetivo, aqui, comentar sobre essas aberrações, embora o assunto por si só já dispense comentários. Mas, talvez eu escreva algo específico sobre isso. Meu alvo no presente artigo são aqueles que arrogam para si uma hermenêutica “equilibrada”, os quais eu chamaria carinhosamente de “os equilibrados”. Estes parecem ignorar completamente os conceitos teológicos e hermenêuticos embutidos em suas mentes, acusando de “parcialidade teológica” os pobres mortais que não conseguem se desvencilhar dos seus pressupostos. Para eles, tudo isso gera somente disputas teológicas inúteis e nocivas ao Reino de Deus, ainda que elas sirvam para traçar limites entre a ortodoxia e a heresia (Calcedônia serviu para alguma coisa!).

Uma das disputas mais acirradas é entre calvinistas e arminianos, particularmente no que se refere às questões soteriológicas, o que também se constitui, via de regra, numa questão hermenêutica. Não quero entrar no mérito da discussão sobre quem está com a razão, até porque sou muito suspeito para falar sobre isso. Mas o que mais me irrita é ver gente se dizendo que não é uma coisa nem outra. Semelhantemente àquele “garoto que ia mudar o mundo”, da aludida música do Cazuza, os profetas do equilíbrio agora assistem a essa disputa teológica “em cima do muro”. “É preciso evitar os extremos – a virtude está no meio”, é o jargão favorito deles. Mas o pior de tudo é que, geralmente, eles não sabem delinear com precisão que extremos são esses, muito menos a virtude. Quando o assunto é predestinação, por exemplo, um livro bastante usado pelos “equilibrados” é Eleitos, mas livres (Editora Vida), de Norman Geisler, que arroga para si uma pretensa “perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio”. Todavia, qualquer leitor que tenha uma boa instrução teológica logo saberá que o livro nada mais é do que um arminianismo disfarçado sob o guarda-chuva da “moderação”[1]. Prefiro lidar com os mais convictos, ainda que arminianos, aos pretensos “neutros”. Não creio que haja um meio-termo entre uma coisa e outra. Recentemente fui questionado por um leitor por que escrevo “a partir de uma ótica calvinista, e não, a partir de uma ótica bíblica”. Minha resposta foi:
“O uso que faço da palavra ‘calvinista’ é de conotação histórica; não visa à pessoa de Calvino, e sim, à sua teologia, que serviu de base para as igrejas reformadas na Suíça e Holanda (Igreja Reformada), Inglaterra (Congregacionais, Batistas [alguns] e Anglicanos) e Escócia (Presbiterianos), bem como ao movimento Puritano dos séculos XVI, XVII e XVIII, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Por uma questão de coerência, você deveria sugerir também que eu mudasse o nome do blog (Optica Reformata), uma vez que ótica reformada é sinônimo de ótica calvinista”.
Para muitas pessoas, o fato de alguém se declarar como um calvinista não demonstra apenas arrogância, mas também, desprezo por Cristo. Segundo eles, estamos incorrendo no mesmo erro da igreja de Corinto, ao criarmos “partidos” no corpo de Cristo (cf. 1Co 1.10ss; 3.1-7). E isso engrossa mais ainda o coro da multidão dos inconformados: “Abaixo o PPC (Partido Predestinalista de Calvino)”!

A questão é mais abrangente do que se imagina. Certa vez perguntei a um irmão qual era a igreja (denominação) que ele fazia parte, e ele me respondeu que era da “igreja de Jesus”. Eu perguntei a ele se ele pertencia a uma “igreja sem nome”, o que ele interpretou como uma ironia de minha parte (e foi, de fato). “Mostre-me na Bíblia uma igreja presbiteriana, batista, congregacional, episcopal ou qualquer outra denominação que eu calo a minha boca”, disse ele contrariado. Imediatamente, lembrei-me dos “espirituais” de Corinto, que diziam que eram “de Cristo”, constituindo-se, talvez, no pior dos partidos daquela igreja (1Co 1.10ss). O que noto nessas ideias é um discurso de protesto contra os modelos tradicionais de igreja do período da Reforma. Para muitos, a igreja moderna entendeu errado a mensagem de Jesus. É preciso rever absolutamente tudo. Muito pouco (para não dizer nada) restou da igreja primitiva. É exatamente isso que Brian McLaren, o guru do movimento de igreja emergente propõe no livro A mensagem secreta de Jesus (Ed. Thomas Nelson Brasil). Para ele, a igreja até hoje ainda não entendeu o que Jesus queria transmitir. O evangelho foi sendo modificado ao longo da História, de tal forma que pouco restou da genuína doutrina apostólica. Urge, pois, que compreendamos qual é a “mensagem secreta” do Mestre. Apesar de McLaren ter razão em alguns aspectos, não creio que a igreja perdeu por completo a essência do evangelho. Aliás, é bom que se diga que a proposta dele se aproxima mais de uma “neo-ortodoxia pós-moderna” do que de um clamor ao resgate das origens da igreja primitiva[2]. Creio que, pelo fato de Deus preservar os seus eleitos de tropeçar (cf. Jd 24, onde o contexto sugere um livramento de apostasia total), Ele mesmo é quem supre a sua Igreja com os meios ordinários para tal. Ou será que Deus aderiu a uma espécie de “deísmo teológico”, abandonando o Seu povo por completo da Sua Palavra, deixando-o à deriva?

Fico me perguntando se uma “extinção denominacional” seria a solução para a crise de identidade da igreja evangélica brasileira; se isso traria mais “equilíbrio” ao povo de Deus. Será que aqueles que promovem a esse tipo de unidade estão certos? Não está na hora de derrubar os “partidos” (calvinista, batista, presbiteriano, episcopal, arminiano, pentecostal etc) e viver a plenitude orgânica do Corpo de Cristo? Sinceramente, além de não crer que isso seja possível, também não creio que seja viável. Não seria possível porque ninguém estaria disposto a abandonar seus pressupostos, e não seria viável porque isso só aumentaria ainda mais a cratera – não haveria unidade teológica, obviamente. Prefiro continuar seguindo o sistema reformado de teologia, não por julgá-lo perfeito, e sim por ver que é o que mais se aproxima do padrão legado pelos apóstolos (o bom e velho método gramático-histórico). Sei que muitos me considerarão um arrogante exclusivista pelo que acabo de dizer, mas essa é minha opinião. Sei também que a grande massa evangélica no Brasil não é reformada, mas nem por isso eu chegaria ao ponto de dizer o que Cazuza disse, que os “meus inimigos estão no poder”. Apesar das diferenças teológicas que tenho com algumas pessoas, reconheço-as como irmãs e irmãos em Cristo. Mas, continuo dizendo que a teologia e uma boa hermenêutica são necessárias. Talvez tão necessárias ao ponto de eu parafrasear (sem medo de ser feliz!) nosso poeta: “Teologia: eu quero uma pra viver”[3]!

Soli Deo Gloria!


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[1] Sobre esse livro veja a excelente resenha de Franklin Ferreira em http://www.monergismo.com/textos/resenhas/eleitos_livres_franklin.htm

[2] Sobre isso, ver artigo de Mauro Meister em http://tempora-mores.blogspot.com/2007/03/em-meio-ao-caos-areo-igreja-emergente.html.

[3]Por uma questão de precaução, gostaria de avisar aos leitores que NÃO ESTOU AFIRMANDO QUE É A TEOLOGIA REFORMADA QUEM IRÁ ME CONDUZIR PARA O CÉU! Como bem disse o erudito reformado Herman Bavinck, em seu leito de morte, "minha erudição para nada serve agora. Somente a fé me resta".

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"NÃO VÁ LÁ"!

O Monte Mulanje foi a última parada que o economista brasileiro Gabriel Buchmann resolveu fazer após ter percorrido vinte e seis países em apenas um ano, com o objetivo de colher o máximo de informações e experiências possíveis para o seu doutorado em políticas públicas que iniciaria em setembro, nos Estados Unidos. Por ter 64% de sua população analfabeta e por elencar o rol dos vinte países mais pobres do mundo, Malauí, país do sudoeste africano, era o cenário ideal para o tipo de dados que Gabriel almejava coletar, especificamente a vila Mulanje, ao pé da montanha homônima. Ela era “um retrato da pobreza que Gabriel procurava”[1]. Acompanhado de um guia local, o brasileiro, que já havia escalado o Everest e o Kilimanjaro, decidiu subir até ao cume do monte, a três mil metros de altitude, pretendendo voltar no mesmo dia. O guia local, apesar de ter achado a empreitada uma tarefa bastante difícil, acatou a ideia. Num dado momento da subida, Gabriel abriu mão do guia, alegando que este estava indo “devagar demais”, e decidiu ir sozinho ao topo do Mulanje. O guia disse a Gabriel que era forte o suficiente para suportar a dificuldade da escalada, mas o brasileiro, após ter dito ao guia que ia por conta própria, dispensou-o, pois tinha pressa. Após ter pernoitado no Abrigo Chisepo, a mil metros abaixo do pico, Gabriel saiu cedo, de bermuda e blusa de mangas curtas, rumo ao alto da montanha. Seriam sete horas intensas de caminhada numa subida bastante íngreme. Era uma sexta-feira, 17 de julho, e o destino final seria o Pico Saptiwa, nome que significa “não vá lá”, em Chichewa, língua falada pelos nativos. O próprio nome do pico parecia ser um presságio, um aviso. Gabriel conseguiu chegar ao topo. Porém, quando ele descia o pico, teve uma surpresa nada agradável. Uma densa neblina tomou conta do alto da montanha. Gabriel se perdeu no caminho de volta, pois a neblina limitava sua visão a apenas dez metros à frente. Depois de alguns dias, foi dado como desaparecido. Uma experiente equipe de resgate, formada por seis canadenses e um argentino, comandou as operações de busca ao economista brasileiro. Cerca de sessenta pessoas vasculharam o Monte Mulanje por mais de duas semanas, sem encontrar nenhum vestígio do economista. Foi então que, no dia 1 de agosto, num despretensioso sábado, dois nativos que estavam na montanha colhendo folhas e madeira para construir casas encontraram o corpo do brasileiro. Gabriel Buchmann, de apenas vinte e oito anos, foi encontrado sem vida, debaixo de um ninho que ele mesmo construíra por entre a grama alta da montanha para se proteger de um frio que se aproximava do zero grau. Mesmo levando consigo agasalhos de lã, calças, gorro, cachecol e demais artefatos para o frio e conhecendo as técnicas de montanhismo, o corpo do brasileiro não resistiu à hipotermia. Pela posição em que Gabriel foi encontrado presume-se que ele morreu dormindo, sem sentir dor, apenas frio, muito frio. Há quem diga que, se Gabriel tivesse atentado para as recomendações do guia e para o significado nome do pico Saptiwa - “NÃO VÁ LÁ”, talvez ainda estivesse vivo para contar histórias e concluir o seu doutorado.

Não pretendo, aqui, entrar no mérito desta última questão. Particularmente, creio irrestritamente na soberania de Deus e que tudo, absolutamente tudo o que acontece, passa pelo planejamento e pelo crivo da Divina Providência, de modo que Deus não apenas é Sabedor (Onisciente) de todas as coisas, mas também o Ordenador (Senhor) de todas elas. Mas, como disse há pouco, não é sobre isso que eu quero dissertar (fica para uma próxima). Tampouco pretendo endossar alguma superstição pelo significado do nome do pico. Certamente, muitos já foram lá e não morreram. Quero apenas aproveitar o que aconteceu com Gabriel para ilustrar o perigo que um cristão professo corre ao não dar ouvidos ao seu “guia espiritual” (cf. Hb 13.7), quando este solenemente o alerta: “Não vá lá”!

Muitos são os casos de pessoas que estão dentro das igrejas e que se enfiam em apuros espirituais por não ouvirem seus pastores. Correm atrás das “novidades teológicas”, muitas das quais não passam de ventos de doutrinas, que as agitam de um lado para o outro. Ignoram o alerta dos seus guias de que naquela trilha que estão seguindo há uma densa neblina que obstruirá suas visões e lhes congelarão a alma. “Saptiwa, Saptiwa”, mas eles preferem ir. Por exemplo, conheço pessoas que de tanto flertarem com as falácias do Liberalismo Teológico, hoje não conseguem mais se livrar delas. O flerte virou namoro, evoluiu para noivado e acabou culminando em um casamento indissolúvel. Seus corações estão frios e vazios. Não há mais nenhum vestígio de fé. Muitos que antes eram conservadores hoje negam doutrinas fundamentais do Cristianismo, como a encarnação, a divindade e a historicidade de Cristo e a infalibilidade e inerrância das Escrituras. Muitos fazem declarações ousadas e firmes de sua própria incredulidade, revezando-se entre os púlpitos de suas congregações e as salas de aula dos seminários nos quais lecionam. No afã de alcançarem os mais altos “picos teológicos”, ultrapassaram a sã doutrina e racionalizaram a fé. Atentaram demais para a letra e se esqueceram da piedade, da devoção. Como diria Jorge Camargo, na sua belíssima música Letra Morta, “está no livro, está no templo, mas não está no coração; está no grego, está no hebraico, mas não se fez encarnação”. Por outro lado, há o tipo “liberal pós-moderno” (neoliberal), que é aquele que acredita em tudo e ao mesmo tempo em nada. Ele é inclusivo, absorve tudo o que puder, mesmo que sejam conceitos totalmente antagônicos. É defensor de uma fé líquida, e não sólida; instável, e não estável. Não traça limites entre a ortodoxia e a heresia. Para os tais defender a verdade é arrogância, e crer na exclusividade do Cristianismo é intransigência fundamentalista. Sua descrença se esconde sob a capa da piedade. Em minha opinião, esse é o tipo mais perigoso, pois arrebanha outros atrás de si com seus discursos “piedosos”. Fala em comunhão com Deus, em nome da “espiritualidade”. Busca uma transcendência sem Bíblia, e uma relevância sem doutrina. Dissemina seus ensinos por meio de livros, internet e todo tipo de mídia disponível, tendo como principais focos de ataque a natureza da igreja e a natureza de Deus, mudando a verdade de Deus em mentira (Rm 1.25), tudo sob a tutela do relativismo, pluralismo e inclusivismo pós-modernos. E o mais lamentável é que para tudo isso há um público bastante amplo, que muitas das vezes está dentro das igrejas questionando aquele “pobre e ignorante” pastor que ainda teima em crer na exclusividade do Evangelho como sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Essa pessoas estão deixando o Senhor, o “manancial de águas vivas”, e cavando “cisternas rotas, que não retem as águas” (Jr 2.13); estão trocando o Soberano Deus, Criador dos céus e da terra, por uma divindade pocket, que caiba nos seus bolsos. Enveredaram-se por caminhos de morte, ao desdenharem dos constantes avisos para não irem lá.

Sei que em parte isso se explica pela decadência dos púlpitos. Muitos pastores estão tão preocupados em reforçar as cercas que acabam se esquecendo de melhorar o pasto. Há uma frenética “caça às bruxas”, enquanto que a pregação expositiva tem sido relegada a segundo plano. Esperam firmeza de suas ovelhas sem lhes dar alimento sólido. Sendo assim, o “Saptiwa” de nada servirá se o rebanho não for suprido com pastos verdejantes, nos quais as ovelhas devem encontrar prazer e descanso para suas almas. É preciso atentar para a segurança do rebanho sem, contudo, esquecer-se de alimentá-lo.

O escritor aos Hebreus nos adverte: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hb 13.7). Essa advertência não está aí à toa. O guia é alguém que nos orienta sobre o caminho mais seguro, e suas vidas devem nos servir de referência. Com humildade e obediência devemos nos submeter àqueles que foram ordenados por Deus para serem nossos guias espirituais. E que nossos ouvidos estejam sempre atentos quando eles insistentemente nos alertarem: “Saptiwa, Saptiwa, Saptiwa”...


Soli Deo Gloria!

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[1] Site do Fantástico.

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