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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Resenha do livro “Cristianismo sem Cristo”, de Michael Horton

Horton, Michael. Cristianismo sem Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 208 pp. Tradução de Neuza Batista.

cristianismo sem cristo

Quem está familiarizado com os escritos do Dr. Michael Horton sabe que não é à toa que ele é tido como um dos maiores e mais competentes pensadores reformados da atualidade. A solidez doutrinária de seus escritos e sua aguda percepção em analisar as coisas que acontecem no mundo dito cristão a partir de uma ótica reformada (e confessional), aliadas à sua imensa capacidade argumentativa (que nem sempre é tão sistemática e lógica quanto gostaríamos, é verdade) e de exímio pesquisador que é, são fatores que tem justificado seu prestígio mesmo entre alguns cristãos de perspectiva não-reformada (e não-confessional).

Agora, ele nos brinda com um de seus livros mais polêmicos, cujo título não só é intencionalmente provocativo, mas essencialmente reflexivo: Cristianismo sem Cristo – que, nas palavras do bispo metodista William Willimon (prefaciador da obra), também pode ser encarado como uma “polêmica induzida de Cristo” (p. 10). Se essa afirmação soa pretensiosa e arrogante demais, só mesmo lendo a obra para descobrir.

Algo marcante nos escritos de Horton é que ele é sempre muito seletivo nas citações de obras e estatísticas que usa em suas pesquisas, objetividade que o distingue de muitos escritores prolixos e cansativos, apesar de ser ele mesmo um pouco repetitivo às vezes. Por exemplo, ele pode muito bem começar falando de um assunto, bruscamente interrompê-lo, e voltar a repeti-lo em outro capítulo que, em princípio, deveria tratar sobre outra coisa. Por este motivo é que esta breve resenha é mais sistemática (análise por assunto) do que linear (análise de cada capítulo separadamente).

Apesar do “auê” que o título da obra pode causar nos leitores mais apaixonados, Horton se apressa em dizer que, a despeito de sua superficialidade, desatenção e humanismo, a igreja contemporânea ainda não chegou ao que ele chama de “cristianismo sem Cristo”, mas está a caminho (p. 10). Esse esclarecimento é importante especialmente porque aqueles de perfil mais polemista correm o risco de ser mais radicais do que o autor da obra na qual tanto se deleitam (assim como tem gente que quer ser mais calvinista que Calvino). Entretanto, não estão equivocados aqueles que entenderem que Horton está apenas sendo eufêmico, adiando a bomba que está prestes a estourar no desenrolar de sua argumentação.

Mas, o que vem a ser, finalmente, esse tal “cristianismo sem Cristo”? O autor o definiria como sendo “uma história sobre nós [nossos feitos] em vez de uma história sobre o Deus Trino que nos transporta para o drama em andamento [os feitos de Deus]” (p. 91). Cristianismo sem Cristo é quando “Deus e Jesus ainda são importantes, porém mais como parte do elenco de apoio do nosso próprio show” (p. 17). Nesse sentido, o cristianismo sem Cristo é deísta, visto que não é mais Deus quem governa as coisas, e sim o homem; é moralista, visto que o imperativo “faça mais, esforce-se mais” (p. 10) – ou, a famosa máxima de Benjamin Franklin de que “Deus ajuda a quem se ajuda” – está no âmago da religiosidade que norteia a maior parte das igrejas contemporâneas; e é terapêutico, visto que “não há pecado nem culpa a ser perdoados por Deus, mas apenas os pesos e sentimentos de culpa por não corresponder às expectativas de si mesmo ou de outros seres humanos” (p. 37). Finalmente, Horton diz que a “chave” para essa sua crítica “é que, uma vez que você faz sua paz de espírito em vez de paz com Deus, que é o principal problema a ser resolvido, todo o evangelho é radicalmente definido”, e que “a autorrealização, a autossatisfação e a autoajuda são todas distorções contemporâneas de uma heresia antiga, que Paulo identificou como obras de justiça” (p. 34). Nesse sentido, entendo que a obra de Horton é, antes de tudo, uma forte argumentação e clamor em prol da doutrina bíblica da justificação pela fé somente, que os reformadores entenderam ser o coração do evangelho.

Para efeito de síntese, Horton faz um quadro comparativo muito interessante entre o cristianismo sem Cristo (que ele chama de “lei leve”) e o verdadeiro evangelho (p. 158):

Lei Leve

O evangelho

Deus como treinador de vida

Deus como Juiz e Justificador

Bom conselho (fazendo)

Boas-novas (feito)

Cristo como exemplo

Cristo como Salvador

A Bíblia como manual de instrução

A Bíblia como mistério de Cristo sendo revelado

Sacramentos como meio de compromisso

Sacramentos como meios de graça

A igreja como recurso de autoajuda (foco no nosso serviço/ministério)

A igreja como embaixada da graça (foco no serviço/ministério de Deus)

Nós subimos até Deus

Deus desce até nós
Nós enviamos a nós mesmos Deus nos envia

O diagnóstico que Horton dá para essas distorções divide-se em basicamente dois braços. O primeiro é baseado num estudo realizado pelo sociólogo Christian Smith, que definiu a religiosidade norte-americana como sendo um “deísmo moralista e terapêutico” (p. 34), conceito este que Horton vai usar em praticamente todo o livro. Não se trata de apenas uma frase de efeito, mas Horton se preocupa em mostrar estudos e estatísticas que comprovam a sua veracidade, como ele mesmo avisa na página 18. O segundo braço do diagnóstico é teológico: Pelagianismo – é o “termo teológico para esta moléstia”, diz ele (p. 37). “Afinal de contas, é a nossa teologia mais natural”, ironiza.

Mas apesar de traçar paralelos entre o cristianismo sem Cristo e certas distorções teológicas que marcaram a história da Igreja (como o gnosticismo, o semi-pelagianismo e o liberalismo teológico, por exemplo), Horton chega a admitir que “o ‘cristianismo sem Cristo’ é invasivo, atravessa o espectro liberal-conservador e todas as linhas denominacionais” (p. 22), motivo pelo qual “nenhuma denominação está livre desse cativeiro, incluindo a minha, e ninguém, incluindo eu mesmo” (p. 23). Ironicamente, essa nova religiosidade não é tão profunda quanto se pretende, mas é exatamente vazia (niilista?). “Muito do que estou chamando de ‘cristianismo sem Cristo’”, diz Horton, “não é profundo o suficiente para constituir heresia”, comparando a mensagem do cristianismo sem Cristo com aquele tipo de música de fundo que ouvimos tocar nos estabelecimentos comerciais: “trivial, sentimental, aceitada e irrelevante” (p. 17). E mais: “O Deus da religião norte-americana contemporânea é trivial demais para valer o nosso tempo” (p. 91). Mas é exatamente isso que torna esse novo tipo de religiosidade mais perigoso do que seus antecedentes gnósticos, pelagianos e liberais.

O liberalismo começou por subestimar a doutrina em favor do moralismo e da experiência interior, perdendo Cristo por hierarquia. No entanto, é mais tolice que heresia que está nos matando. Deus não é negado, mas banalizado – usado para nossos programas de vida, e não recebido, adorado e usufruído [p. 20 – ênfase minha].

Englobando as Pessoas da Trindade nesse sacrílego processo de trivialização, Horton observa que no cristianismo sem Cristo “Deus é usado como um recurso pessoal, em lugar de ser conhecido, adorado e confiado; Jesus Cristo é um treinador com um plano de jogo bom para nossa vitória, em vez de um Salvador que já alcançou a vitória para nós; […] e o Espírito Santo é uma tomada elétrica que podemos ligar para obter o poder necessário para sermos tudo o que podemos ser” (p. 17 – negrito meu). Aliás, Horton esbanja nos adjetivos que o cristianismo sem Cristo tem conferido a Jesus. Ele observa que “Jesus tem sido vestido como um […] treinador de vida, guerreiro de cultura, revolucionário político, filósofo, copiloto, companheiro de sofrimento e parceiro na realização de nossos sonhos pessoais e sociais” (p. 21); ou como um “mascote na guerra das culturas” (p. 166); ou ainda, em um simples “ponto de encontro para jogos de futebol e inauguração de shopping centers” (p. 64). Porém, o resultado disso tudo, diz Horton, em vez de um relacionamento verdadeiro com o Filho de Deus, “é um apego vago e sentimental por alguém que é mais um amigo invisível do que o Salvador dos ímpios, encarnado, morto e ressuscitado, que subiu e é Rei” (p. 64). O cristianismo sem Cristo definitivamente não contempla o Jesus das Escrituras – Histórico, Redentor, Deus!

Tudo isso, naturalmente, leva a uma banalização não somente de Cristo, mas também dos meios de graça por Ele instituídos. O Batismo e a Ceia, por exemplo, são transformados em “meios de compromisso” – um “veículo da experiência pessoal” (p. 142), uma vez que o indivíduo é levado a pensar que tanto a salvação como a manutenção desta dependem única e exclusivamente dele mesmo.

Para muitos de nós, criados em contexto evangélico-conservador onde a pregação era principalmente uma exortação para fazer mais, o Batismo foi nosso ato de compromisso em vez de ser o ato de compromisso de Deus, a Ceia do Senhor era um meio de nossa lembrança em vez de um meio da graça de Deus e muitos hinos eram expressões da nossa piedade mais que um relato das misericórdias maravilhosas de Deus na história da redenção [p. 154].

Mas Horton faz questão de nos lembrar que “o Batismo não é nosso ato de compromisso, com base em nossa decisão, é o ato de compromisso de Deus, baseado em sua decisão. […] A Ceia do Senhor não é nossa lembrança e reconsagração, mas se centra na promessa de Deus de nos dar seu Filho como nosso alimento e bebida – certificando e ratificando nossa inclusão no pacto da graça” (p. 180).

Todos esses “apelos para a ação sem o anúncio da ação de Deus”, segundo Horton, está gradualmente “desevangelizando” a igreja (p. 155). Ela se imiscuiu tanto na agenda secular que, em sua tentativa de tornar o evangelho relevante, perdeu-se pelo caminho, transformando as boas-novas da salvação em meros estímulos morais de autoajuda. E é justamente aqui que Horton vai fazer críticas ferrenhas ao tipo de pregação e pregadores que o cristianismo sem Cristo (ou, quase sem Cristo, na melhor da hipóteses) tem produzido, justamente pelo fato de que esta pregação, como vimos, exorta o espectador a sempre “fazer mais”. Charles Finney, Joel Osteen, Robert Schuller, Rick Warren, Joyce Meyer e o emergente Brian McLaren, dentre outros, não escapam da flecha certeira de Horton. Para ele, as pregações dos tais não diferem muito do que podemos encontrar nos ditos do Dr. Phill ou da Oprah Winfrey (p. 15 – trazendo para o nosso contexto, algo parecido com Super Nani, Max Gehringer e Ana Maria Braga). Por este motivo, não é mesmo a toa que, “na autoajuda secular, as vendas dos gurus chegam perto dos concorrentes evangélicos” (p. 58). Esse tipo de pregação, para Horton, também tira Cristo do cristianismo.

Quando a mensagem básica da igreja é menos sobre quem é Cristo e o que ele fez de uma vez por todas para nós e mais sobre quem somos e o que temos que fazer para tornar a vida dele (e a nossa) relevante para a cultura, a religião que é feita “relevante” não é mais o cristianismo [p. 118].

É nesse ínterim que Horton também vai criticar a tendência desse tipo de religião em moralizar e alegorizar as histórias bíblicas, como se a sabedoria da Escritura se nivelasse àquelas encontradas nas fábulas de Esopo (p. 121). De fato, é muito comum vermos isso acontecer nos dias de hoje. A pregação é tudo, menos exegética. O que sobra disso só pode ser mesmo alegorias e princípios morais. Daí temos que, assim como Davi, precisamos vencer os “gigantes” em nossas vidas; que temos que nos “atrever” a ser um Daniel; que devemos “sonhar” como José; etc. É por isso que nesse tipo de pregação geralmente Deus nunca está de mau-humor para com os pecadores, mas sempre pronto a recebê-los, não importa como estejam vivendo. Horton relembra de uma ocasião em que entrevistou o Dr. Robert Schuller em um programa de rádio, quando lhe perguntou como ele interpretaria a exortação que Paulo faz a Timóteo em 2 Tm 3.1-5. E, antes mesmo de terminar de articular sua pergunta, Schuller respondeu apressado às palavras apostólicas, dizendo: “Eu espero que você não pregue isso. Vai magoar um monte de gente bonita” (p. 28). Para Horton, coisas desse tipo não passam de “autoajuda pelagiana e autodeificação gnóstica” (p. 59), onde Deus novamente é nosso coadjuvante no esquema do já denunciado “deísmo moralista terapêutico”.

Em um paradigma terapêutico, não só o membro da igreja, mas o próprio Deus é colocado no sofá enquanto nós interpretamos, com empatia, os sentimentos dele. Deus nunca está com raiva ou é crítico em relação às pessoas; na verdade, ele é mais angustiado que nós, visto que sabe o quanto nossas ações podem nos prejudicar. […] Podemos até nos sentir inclinados a sentir pena desta divindade [p. 48].

Mesmo que esses assuntos estejam largamente presentes na agenda do pessoal do movimento de igreja emergente (a quem Horton faz fortes críticas nos capítulos 4 e 6, especialmente) e dos adeptos do teísmo aberto, para Horton isso nada mais é do que um eco do antigo liberalismo e do conceito de kantiano de religião moralista em oposição à religião de doutrina (p. 93). Somos ensinados de que não devemos apenas pregar o evangelho, mas sobretudo ser o evangelho. É aquela velha máxima atribuída a S. Francisco de Assis: “evangelize sempre; se necessário, use palavras” – como se nossas vidas pudessem pregar “melhor do que o evangelho” (p. 127). É muita empáfia! Esse novo legalismo, para Horton (na realidade, um legalismo revisitado), é o “murmúrio otimista e alegre tocando como música de fundo”, que nem nos ameaça com o inferno nem nos conforta com o céu (p. 102). Mais uma vez, Horton nos lembra de que este é o nosso “pelagianismo nativo” (p. 93), uma vez que nosso destino está em nossas próprias mãos.

Ainda tratando dessa questão da busca desenfreada por relevância, Horton argumenta que não precisamos da Bíblia para saber que nossos filhos precisam de padrões regulares de sono; que o segredo para um bom casamento é o diálogo; e que se não administramos bem nossos cartões de crédito eles nos dominam (p. 85). “Qualquer pessoa pode perder peso, parar de fumar, melhorar um casamento e se tornar mais agradável sem Jesus”, garante ele (p. 86). É certo que estimular as pessoas para que estas busquem uma melhor “qualidade de vida” (somente para usar um linguajar que está na moda) não é um mal em si mesmo, mas “mesmo quando coisas boas, santas e apropriadas se confundem com o evangelho, é apenas uma questão de tempo antes de chegarmos ao cristianismo sem Cristo(p. 91).

Temos visto que, de fato, a “religião moralista de autossalvação é nossa configuração padrão como criaturas caídas” (p. 36). Precisamos urgentemente nos desvencilhar dela. “Chega de nós” (p. 115)! Como clamou William Willimon no prefácio, “vamos colocar Cristo de volta no Cristianismo” (p. 10). Mas a pergunta é: como? Horton arrisca algumas propostas para que sejamos libertos desse cativeiro. Vamos tentar resumi-las:

  1. Precisamos fazer uma urgente distinção entre a lei e o evangelho (p. 103). Do contrário, o que teremos é somente mais e mais ativismo religioso em vez de fé viva e verdadeiramente eficaz. “Nosso padrão é a lei, e não o evangelho, coisas para fazer (imperativos), no lugar de indicativos (coisas para acreditar)” (p. 108). “Confundir a lei e o evangelho é a tendência natural do coração caído. Todas as religiões – incluindo o cristianismo sem Cristo, que não é cristianismo de jeito nenhum – pressupõem alguma forma de redenção por esforço próprio [..] Deixe a lei ser lei e o evangelho ser evangelho” (p. 102);
  2. Precisamos pregar corretamente a lei (p. 106), porque “até que nossa pregação da lei tenha exposto nossos corações e a santidade de Deus a esse nível profundo, nossos ouvintes jamais irão para Cristo em busca de segurança, mesmo que venham até nós para conselho” (p. 107);
  3. Precisamos nos preocupar com as necessidades realmente primárias (p. 115). “Os gentios amam a sabedoria, então lhes mostre um Jesus que é mais inteligente em resolver enigmas da vida diária e a igreja vai ter uma multidão de adeptos”. Contudo, “a igreja”, diz Horton, “existe para mudar o assunto de nós e de nossos atos para Deus e seus atos de salvação, e de nossas missões de salvar o mundo para a missão de Cristo, que já realizou a redenção” (p. 115). O que precisamos é de um novo paradigma: “de nossa agenda para a agenda de Deus” (p. 168);
  4. Precisamos recuperar os conceitos do cristianismo bíblico, resgatando-os da trivialização pós-moderna (p. 116). “Cristianismo sem Cristo não significa religião ou espiritualidade desprovida das palavras Jesus, Cristo, Senhor ou até mesmo Salvador. Significa que a forma como esses nomes e títulos são empregados os deslocará de seu local específico no desdobramento histórico da trama da rebelião humana e do resgate divino, e de práticas como o Batismo e a Ceia. Jesus como treinador de vida, terapeuta, amigo, outro significativo, fundador da civilização ocidental, messias político, exemplo de vida radical e outras inúmeras imagens podem nos distrair do escândalo e da loucura de ‘Cristo e este crucificado’” (p. 117); e, por último,
  5. Precisamos que nossa missão se oriente pelo evangelho, não pela “justiça decorrente das obras” (p. 165). No afã de ganhar o mundo inteiro, muitas vezes temos perdido nossas marcas – identidade reformada; e por vezes amamos tanto as marcas que temos negligenciado a missão – evangelização. Precisamos manter acesas as duas coisas, porque “sem as marcas a missão é cega; sem a missão, as marcas estão mortas” (p. 166).

Como as resenhas geralmente fazem com que corramos o risco de reduzir o conteúdo da obra aos nossos próprios termos, iremos parar por aqui. Mas cabem mais algumas observações pontuais ao livro como um todo. Agora me refiro à questão estética – enfim, todo o processo editorial. Elogios e críticas também são oportunos nesse aspecto. Primeiramente quero parabenizar a Editora Cultura Cristã – além do fato de pôr nas mãos do público de fala portuguesa uma obra de tamanha envergadura teológica como esta que temos aqui, é claro – pelo trabalho dos revisores em explicar certas expressões e conceitos próprios da cultura e linguajar norte-americanos (pp. 17, 19, 21, 29, 33, 60, 64, 86, 93, 95, 136, 140, 169, 181, 192 e 201), coisas estas que, na maioria das vezes, muitos tradutores e revisores não explicam. Em alguns casos, compreender tais conceitos torna-se essencial à compreensão do que o autor quer transmitir. Isso denota uma preocupação e respeito dos editores pelo leitor que é leigo em outras culturas.

Em relação aos pontos que poderiam ter sido melhores podemos citar a falta de um índice onomástico e de assuntos, o que em muito facilitaria a pesquisa e pouparia o leitor (inclusive quem resenha!) de exaustivas anotações marginais (embora saibamos que o processo para tal é um pouco demorado, tendo em vista a “urgência” da publicação). Quanto aos erros de digitação, gramática e afins, foram tão leves que chegam a ser insignificantes (pp. 15, 137, 138, 139, 143, 176, 179, 182 e 187). E poderia também ter aquela tradicional folha em branco na última página (na qual consta o tipo de papel, a imprensa, etc.), pois sua falta deixa aquela impressão de que o livro ainda não chegou ao seu fim, especialmente no caso do livro em questão, que Horton conclui com uma citação sem acrescentar aquelas costumeiras observações, doxologias ou apelos. Mas nenhuma dessas faltas, evidentemente, é capaz de tirar o brilho da obra desse estimado pensador, que certamente perdurará como um dos textos apologéticos mais importantes desta década. Quem ainda não leu, é bom se apressar, antes que os três mil exemplares se esgotem!

Soli Deo Gloria!

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

“Meu partido é um coração partido” – Do partidarismo teológico dos evangélicos brasileiros

A frase de Cazuza supracitada entre aspas reflete bem a postura de muitos evangélicos brasileiros diante das diversas perspectivas teológicas existentes dentro do Protestantismo. Tenho lido ultimamente (em blogs, sites, livros, revistas etc.) diversos manifestos cada vez mais verborrágicos de muitos que defendem uma suposta neutralidade hermenêutica, argumentando que “nada de Calvino ou Armínio, prefiro ficar com a Bíblia”, aliada a uma espécie de desilusão teológica, argumentando que “teologia é aquilo que os teólogos dizem acerca de Deus”. Para os tais, tudo isso se constitui numa prova incontestável da vaidade e tagarelice dos “teólogos de plantão”, que só sabem ficar repetindo as frases e pensamentos de teólogos renomados, já que são “incapazes” de ser originais.

Embora seja oportuno fazer uma referência às centenas de novas denominações (“partidos”) que surgem no cenário brasileiro a cada dia, de nomes que vão de Igreja Noiva de Jesus da Segunda Divisão a Igreja Abastecedora de Água Abençoada, não é meu objetivo, aqui, comentar sobre essas aberrações, embora o assunto por si só já dispense comentários. Mas, talvez eu escreva algo específico sobre isso. Meu alvo no presente artigo são aqueles que arrogam para si uma hermenêutica “equilibrada”, os quais eu chamaria carinhosamente de “os equilibrados”. Estes parecem ignorar completamente os conceitos teológicos e hermenêuticos embutidos em suas mentes, acusando de “parcialidade teológica” os pobres mortais que não conseguem se desvencilhar dos seus pressupostos. Para eles, tudo isso gera somente disputas teológicas inúteis e nocivas ao Reino de Deus, ainda que elas sirvam para traçar limites entre a ortodoxia e a heresia (Calcedônia serviu para alguma coisa!).

Uma das disputas mais acirradas é entre calvinistas e arminianos, particularmente no que se refere às questões soteriológicas, o que também se constitui, via de regra, numa questão hermenêutica. Não quero entrar no mérito da discussão sobre quem está com a razão, até porque sou muito suspeito para falar sobre isso. Mas o que mais me irrita é ver gente se dizendo que não é uma coisa nem outra. Semelhantemente àquele “garoto que ia mudar o mundo”, da aludida música do Cazuza, os profetas do equilíbrio agora assistem a essa disputa teológica “em cima do muro”. “É preciso evitar os extremos – a virtude está no meio”, é o jargão favorito deles. Mas o pior de tudo é que, geralmente, eles não sabem delinear com precisão que extremos são esses, muito menos a virtude. Quando o assunto é predestinação, por exemplo, um livro bastante usado pelos “equilibrados” é Eleitos, mas livres (Editora Vida), de Norman Geisler, que arroga para si uma pretensa “perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio”. Todavia, qualquer leitor que tenha uma boa instrução teológica logo saberá que o livro nada mais é do que um arminianismo disfarçado sob o guarda-chuva da “moderação”[1]. Prefiro lidar com os mais convictos, ainda que arminianos, aos pretensos “neutros”. Não creio que haja um meio-termo entre uma coisa e outra. Recentemente fui questionado por um leitor por que escrevo “a partir de uma ótica calvinista, e não, a partir de uma ótica bíblica”. Minha resposta foi:
“O uso que faço da palavra ‘calvinista’ é de conotação histórica; não visa à pessoa de Calvino, e sim, à sua teologia, que serviu de base para as igrejas reformadas na Suíça e Holanda (Igreja Reformada), Inglaterra (Congregacionais, Batistas [alguns] e Anglicanos) e Escócia (Presbiterianos), bem como ao movimento Puritano dos séculos XVI, XVII e XVIII, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Por uma questão de coerência, você deveria sugerir também que eu mudasse o nome do blog (Optica Reformata), uma vez que ótica reformada é sinônimo de ótica calvinista”.
Para muitas pessoas, o fato de alguém se declarar como um calvinista não demonstra apenas arrogância, mas também, desprezo por Cristo. Segundo eles, estamos incorrendo no mesmo erro da igreja de Corinto, ao criarmos “partidos” no corpo de Cristo (cf. 1Co 1.10ss; 3.1-7). E isso engrossa mais ainda o coro da multidão dos inconformados: “Abaixo o PPC (Partido Predestinalista de Calvino)”!

A questão é mais abrangente do que se imagina. Certa vez perguntei a um irmão qual era a igreja (denominação) que ele fazia parte, e ele me respondeu que era da “igreja de Jesus”. Eu perguntei a ele se ele pertencia a uma “igreja sem nome”, o que ele interpretou como uma ironia de minha parte (e foi, de fato). “Mostre-me na Bíblia uma igreja presbiteriana, batista, congregacional, episcopal ou qualquer outra denominação que eu calo a minha boca”, disse ele contrariado. Imediatamente, lembrei-me dos “espirituais” de Corinto, que diziam que eram “de Cristo”, constituindo-se, talvez, no pior dos partidos daquela igreja (1Co 1.10ss). O que noto nessas ideias é um discurso de protesto contra os modelos tradicionais de igreja do período da Reforma. Para muitos, a igreja moderna entendeu errado a mensagem de Jesus. É preciso rever absolutamente tudo. Muito pouco (para não dizer nada) restou da igreja primitiva. É exatamente isso que Brian McLaren, o guru do movimento de igreja emergente propõe no livro A mensagem secreta de Jesus (Ed. Thomas Nelson Brasil). Para ele, a igreja até hoje ainda não entendeu o que Jesus queria transmitir. O evangelho foi sendo modificado ao longo da História, de tal forma que pouco restou da genuína doutrina apostólica. Urge, pois, que compreendamos qual é a “mensagem secreta” do Mestre. Apesar de McLaren ter razão em alguns aspectos, não creio que a igreja perdeu por completo a essência do evangelho. Aliás, é bom que se diga que a proposta dele se aproxima mais de uma “neo-ortodoxia pós-moderna” do que de um clamor ao resgate das origens da igreja primitiva[2]. Creio que, pelo fato de Deus preservar os seus eleitos de tropeçar (cf. Jd 24, onde o contexto sugere um livramento de apostasia total), Ele mesmo é quem supre a sua Igreja com os meios ordinários para tal. Ou será que Deus aderiu a uma espécie de “deísmo teológico”, abandonando o Seu povo por completo da Sua Palavra, deixando-o à deriva?

Fico me perguntando se uma “extinção denominacional” seria a solução para a crise de identidade da igreja evangélica brasileira; se isso traria mais “equilíbrio” ao povo de Deus. Será que aqueles que promovem a esse tipo de unidade estão certos? Não está na hora de derrubar os “partidos” (calvinista, batista, presbiteriano, episcopal, arminiano, pentecostal etc) e viver a plenitude orgânica do Corpo de Cristo? Sinceramente, além de não crer que isso seja possível, também não creio que seja viável. Não seria possível porque ninguém estaria disposto a abandonar seus pressupostos, e não seria viável porque isso só aumentaria ainda mais a cratera – não haveria unidade teológica, obviamente. Prefiro continuar seguindo o sistema reformado de teologia, não por julgá-lo perfeito, e sim por ver que é o que mais se aproxima do padrão legado pelos apóstolos (o bom e velho método gramático-histórico). Sei que muitos me considerarão um arrogante exclusivista pelo que acabo de dizer, mas essa é minha opinião. Sei também que a grande massa evangélica no Brasil não é reformada, mas nem por isso eu chegaria ao ponto de dizer o que Cazuza disse, que os “meus inimigos estão no poder”. Apesar das diferenças teológicas que tenho com algumas pessoas, reconheço-as como irmãs e irmãos em Cristo. Mas, continuo dizendo que a teologia e uma boa hermenêutica são necessárias. Talvez tão necessárias ao ponto de eu parafrasear (sem medo de ser feliz!) nosso poeta: “Teologia: eu quero uma pra viver”[3]!

Soli Deo Gloria!


__________________

[1] Sobre esse livro veja a excelente resenha de Franklin Ferreira em http://www.monergismo.com/textos/resenhas/eleitos_livres_franklin.htm

[2] Sobre isso, ver artigo de Mauro Meister em http://tempora-mores.blogspot.com/2007/03/em-meio-ao-caos-areo-igreja-emergente.html.

[3]Por uma questão de precaução, gostaria de avisar aos leitores que NÃO ESTOU AFIRMANDO QUE É A TEOLOGIA REFORMADA QUEM IRÁ ME CONDUZIR PARA O CÉU! Como bem disse o erudito reformado Herman Bavinck, em seu leito de morte, "minha erudição para nada serve agora. Somente a fé me resta".

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Carta a Elvis: Deus e a Cultura Pop

Caro Elvis (*),


Recebi o seu e-mail comentando sobre a matéria de capa da Revista Época de 12/06/09, que diz que “Deus é Pop”. Seu entusiasmo foi tanto que eu não pude resistir em te responder, para refletirmos juntos sobre algumas das implicações que esse assunto nos traz como povo de Deus.

Quando li o seu e-mail, imediatamente lembrei que, quando éramos adolescentes no bairro do Ibura, periferia de Recife, ficávamos discutindo letras de músicas que gostávamos, e uma delas era “O Papa é Pop”, dos Engenheiros do Hawaii. Recordo-me até do dia em que chegamos à conclusão de que Humberto Gessinger (autor da letra) fez um trocadilho entre pope, palavra inglesa para “papa”, e pop. Foi um deleite só! “Ele fez uma aliteração!”, concluiu você todo orgulhoso, depois que saímos de uma aula de gramática sobre figuras de estilo. A gente até achava que os católicos achavam essa música uma blasfêmia contra Sua Santidade. Mas você dizia: “Os católicos são muitos rígidos. Que problema há em ser pop”?

Não me senti surpreendido pelo fato de você ter achado legal a matéria de Época. Você sempre foi mais “mente aberta” para esses assuntos do que eu (inclusive lembro-me de como você ficou chateado com o pastor de nossa igreja quando ele não permitiu que você cantasse um funk gospel no culto jovem – e você ainda estava com um lenço na cabeça!). Você dizia que eu era “quadrado”, “conservador”, e outros adjetivos que não gosto muito de lembrar. Dizia ainda que eu era “da turma dos véio [sic]”, somente porque eu não gostava de muita agitação nos cultos, mesmo que fossem “cultos jovens”. Sempre falei pra você que o culto é para agradar única e exclusivamente a Deus, e que, sendo assim, os “terceiros ficam em segundo plano” (desse tipo de trocadilho você não era muito fã!).

Você vibrou com as estatísticas levantadas pelo instituto alemão Bertelsmann Stifung, que diz que 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam que são “profundamente religiosos”. “Isso é um avivamento”, concluiu você entusiasmado. Acho que você não prestou muita atenção numa coisa: a pesquisa fala de jovens que se dizem religiosos, o que não significa que necessariamente sejam crentes (confessos, pelo menos) em Cristo. E ainda que fossem, vale ressaltar que nem sempre os números dizem muita coisa. Sei que na igreja primitiva, por exemplo, havia conversões em massa (At 2.41; 4.4). Mas também havia os entusiastas da fé, como no ministério do próprio Jesus (Jo 6.60-66; Mt 16.22) e dos apóstolos (At 5.1-11; 8.13-21). Você acaba esquecendo, por vezes, de que o joio se infiltra no meio do trigo, e considera a superlotação dos templos uma prova da atuação do Espírito. Quando conversávamos sobre os grandes avivamentos da história da Igreja, você fazia questão de jogar na minha cara os grandes despertamentos decorrentes da Reforma. Em contrapartida eu te lembrava das palavras de Jonathan Edwards, ele mesmo um grande avivalista, de que há sempre autenticidade e falsidade nos avivamentos; de que há elementos divinos e humanos operando juntos, e que, por isso, é preciso muito discernimento espiritual para separá-los.

Fiquei sabendo que ultimamente você tem freqüentado uma comunidade dita “emergente”. Talvez seja por isso que você defende tanto a ideia de que a igreja deve se conformar ao mundo, e não o contrário. Lembro-me de que você costumava cantar “eu não vou me adaptar”, dos Titãs, para se referir ao seu enquadramento na igreja da qual éramos membros. Como era difícil tentar te convencer de que não devemos nos conformar a este mundo, mas transformar-nos pela renovação de nossas mentes, para podermos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para as nossas vidas (Rm 12.1, 2), e que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus (Tg 4.4; 1Jo 2.15-17). Você cita um trecho da matéria que fala que “é entre os evangélicos que surgem mais propostas de igrejas flexíveis”, o que fomenta mais ainda a ideia de um Deus pop, como você mesmo fez questão de assinalar. Pra você isso é sinal de que, finalmente, estamos aprendendo a evangelizar, o que, para mim, é sinal de que a igreja está negociando valores inestimáveis. Em uma coisa, pelo menos (pra você não dizer que não falei das flores!) estamos de acordo: de que esse negócio de igrejas para gays é contrário à Bíblia (a gente costumava dizer que “Deus não criou Adão e Ivo”!).

A assertiva da antropóloga Regina Novaes de que “a internet virou um templo” faz todo sentido pra você, que não vê mais o congregar-se como algo essencial. “A igreja somos nós, as pessoas”, você vocifera. Sou ciente dos benefícios que a internet pode trazer ao povo de Deus. Eu mesmo sou bastante edificado com sites e blogs que leio e com pregações que ouço e faço download. Entretanto, cabe lembrar, querido Elvis, de que a Bíblia nos recomenda a que não deixemos de nos congregar (Hb 10. 25). A igreja é insubstituível! Além do que, garanto que você não poderá fazer download do pão e do vinho, elementos da Ceia do Senhor, e não poderá tomá-los juntamente com outros internautas. Pense nisso.

Despeço-me dizendo que, a despeito de nossas discordâncias, ainda tenho você em grande estima. Minha esperança é que você possa refletir um pouco nas questões acima expostas. Quanto à máxima de que “Deus é Pop”, bem... Continuo preferindo dizer que “Deus é Deus”!


Um grande abraço!

Leonardo.

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(*) Elvis é um nome fictício, bem como alguns detalhes. As circunstâncias, porém, são reais.

Todas as alusões à matéria de Época foram retiradas do site da revista (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI77084-15228-2,00-DEUS+E+POP.html).
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