terça-feira, 24 de março de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Postado por Leonardo Bruno Galdino às 13.15h

Há alguns dias atrás assisti ao filme “Ensaio sobre a cegueira”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. O filme é baseado na obra homônima do escritor português José Saramago, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, e conta o drama de uma população assolada por uma estranha epidemia de cegueira. Talvez o fato mais curioso disso tudo é que, em vez de enxergarem tudo escuro, os cegos enxergam tudo branco. É uma espécie de “treva branca”, como alguém já disse.

Não li o livro de Saramago. Aliás, como todo brasileiro que se preze, resolvi pegar um atalho e “pulei” direto para o filme. Embora todo filme destoe um pouco do livro em que se baseia, o âmago da estória é o mesmo (pelo menos nesse caso).

O dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa define ensaio como sendo uma “prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade”. Ao contrário de Saramago, Jesus tratou o tema da cegueira humana com muita profundidade, mesmo usando poucas palavras. Os Evangelhos nos dizem que Jesus curou muitos cegos (Mt 15.30; Mc 10.52; Lc 7.21; Jo 10.21). Teve até uma ocasião em que Ele usou lama, feita com terra e cuspe (Jo 9.6,7).

Entretanto, o pior tipo de cego com quem Jesus se deparou foram aqueles que pensavam que enxergavam. Eram os hipócritas religiosos, que guiavam seus seguidores para a mesma ruína a que se dirigiam (Mt 15.14). Ressentidos pelo fato de Jesus ter curado um cego de nascença, fato até então inédito na história da humanidade (Jo 9.32), eles criticaram duramente a Jesus, que lhes respondeu: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9.39). Inconformados com a afronta do Messias eles perguntaram: “Acaso, também nós somos cegos?” (Jo 9.40). Jesus retrucou: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado” (Jo 9.41).

A humanidade tem uma grande dificuldade em admitir sua cegueira, pior do que aquele tipo de velho ranzinza que resiste em procurar ajuda médica. Por mais que os discursos humanistas de auto-ajuda digam que devemos olhar o mundo a partir de uma ótica otimista, isso não passa de uma tremenda “treva branca” – não importa o degradê que se aplique ao breu. Na sua Segunda Carta aos Coríntios o apóstolo Paulo nos diz que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4). Isso só confirma ainda mais o primeiro ponto da “TULIP” calvinista: a Total Depravação da humanidade. O ser humano não somente detesta a luz, mas é incapaz de contemplá-la. Cristo é o único “oftalmologista espiritual” que pode dar jeito nessa cegueira.

Soli Deo Gloria!
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

“Fiz-me fraco para com os fracos” – Até que ponto? A Hermenêutica e o Carnaval

Uma das músicas da Cláudia Leite, ex-vocalista do Babado Novo, diz que “carnaval... não mata, não engorda e nem faz mal”. Para os foliões não há nada de mais verdadeiro do que isso. Aliás, alguém disse que, no Brasil, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Se vai ser em fevereiro ou março pouco importa. Da Marquês de Sapucaí às Ladeiras de Olinda; dos blocos de rua de São Luis do Paraitinga ao célebre Galo da Madrugada (o maior bloco de carnaval do mundo, segundo o Guiness Book) em Recife, o brasileiro “vai na fé”, sem morrer ou engordar.

Pois é. Parece que a moda pegou entre os evangélicos também. E para quem está pensando que dessa vez eu vou atacar os neopentecostais engana-se. Um grupo da Primeira Igreja Batista de São José dos Campos - SP, o “Conexão Livre”, vai desfilar com cerca de 500 integrantes no sambódromo de São José dos Campos em pleno domingo de carnaval. Contrariando o tradicional retiro espiritual, esse pessoal resolveu mesmo inovar. Um famoso jornal local, o Valeparaibano, estampa em manchete com letras garrafais que “Bloco da PIB canta prazer sem pecado” [1]. “Será o primeiro bloco evangélico a se apresentar oficialmente na região”, afirma a jornalista Lidiane Duarte. O bloco será reforçado com uma bateria de samba do Rio de Janeiro, tendo o samba-enredo composto pelo sambista Pedro do Borel. Contudo, esse samba-enredo teve que passar pelo crivo da Liga das Escolas de Samba de São José dos Campos, pois o regulamento não permite letras que façam qualquer tipo de apologia religiosa. “Conseguimos adequar uma condição favorável para a cultura carnavalesca e para o bloco evangélico. A igreja demonstrou que está voltada à cultura popular e esperamos que seja uma participação alegre, importante para a cidade[2]”, afirma Aderson Alves Pinto, presidente da Liga. Sob o lema “Prazer sem culpa” estampado nos seus abadás, com grupos circenses, de dança e teatro na avenida, esse pessoal também entra no coro de que “carnaval... não mata, não engorda e nem faz mal”.

O que mais me deixou intrigado nisso tudo foi o argumento pretensamente “bíblico” usado pelo líder do Conexão Livre, Marcos Madaleno. Disse ele que “na Bíblia está escrito: ‘fiz-me de tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns’”[3]. “Nossa intenção”, reitera, “não é falar de religião e nem combater as ações do carnaval. Nosso objetivo com o bloco é mostrar o estilo de vida com Jesus, que a gente pode ter um prazer sem culpa e uma festa que não dura somente quatro dias”[4].

Se fizermos um análise do texto no qual o líder do Conexão Livre se baseou para legitimar o evento, veremos que ele cometeu vários equívocos hermenêuticos. O texto foi o de 1 Coríntios 9.22, no qual Paulo diz que

Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.

Proponho-me a fazer uma breve consideração desse texto e do seu respectivo contexto a fim de mostrar o que realmente o apóstolo quis dizer com isso.

De acordo com o contexto da passagem, Paulo está se referindo ao seu desprendimento material a despeito de suas prerrogativas como apóstolo e ministro do evangelho. O apóstolo tinha todo o direito de ser sustentado pela igreja, se assim o quisesse (cf. 1 Co 9.14). Mas não foi isso que ele preferiu. A própria igreja de Corinto, a quem Paulo ora escreve, foi testemunha disso. Quando Paulo chega a Corinto, Lucas nos diz que ele juntou-se ao casal Priscila e Áquila, “pois a profissão deles era fazer tendas” (At 18.3). Considerando que Corinto era um importante centro comercial da época por ser uma cidade portuária, onde o fluxo de entrada e saída de mercadoria era muito grande, e onde havia também os Jogos Ístmicos, somente superados em importância pelos Jogos Olímpicos de Atenas, a profissão de fazer tendas, certamente, era um ótimo negócio. Na certa, muitos viajantes compravam tendas para não terem que, todas as vezes, pagar hospedaria. E muitos hospedeiros, certamente, compravam tendas para alojar os viajantes que não quisessem comprar uma tenda. Em qualquer caso, o comércio de tendas era promissor, e era dele que Paulo tirava o seu sustento.

Mas não foi apenas do seu direito de ser sustentado pela congregação que o apóstolo abriu mão. Ele abdicou, também, do direito de se casar, uma vez que a maioria dos apóstolos era casada (1 Co 9.5). A razão para isso talvez esteja nas próprias orientações do apóstolo à igreja corintiana (1 Co 7). Ele diz aos coríntios que

Considero, por causa da angustiosa situação presente, ser bom para o homem permanecer assim como está. Estás casado? Não procure separar-te. Estás solteiro? Não procures casamento. Mas, se te casares, com isso não pecas; e também, se a virgem se casar, por isso não peca. Ainda assim, tais pessoas sofrerão angústias na carne, e eu quisera poupar-vos (1 Co 7.26-28).

Em Éfeso, de onde Paulo escreveu aos coríntios, uma “angustiosa situação” já se instaurara. A igreja estava sendo perseguida. Um clima de terror tomava conta daqueles que professavam a fé em Cristo. O sofrimento lhes era uma certeza. Lucas nos informa do grande “prejuízo financeiro” que a pregação do evangelho causara em Éfeso (At 19.23-40). Além do mais, Paulo previa algo de mais caótico. O império romano estava prestes a se insurgir contra os cristãos nas pessoas de Tito e Nero, por exemplo. E o que Paulo fez foi justamente advertir os irmãos para esse fato que, tão logo, se tornaria realidade. Melhor seria para o homem padecer a perseguição sozinho do que ver toda a sua família sucumbir, caso escolhesse se casar. O argumento do apóstolo é que, estando o homem (ou, a mulher) sozinho, este estaria “livre de preocupações”, podendo dedicar-se exclusivamente à obra do Senhor (7.32). Foi por esse motivo que o apóstolo preferiu o celibato ao casamento, considerando aquele como um “dom” (7.7). Paulo não queria que absolutamente nada o atrapalhasse na sua nobre missão de pregar o evangelho aos povos.

Como se não bastasse, Paulo ainda teve que sofrer adaptações culturais. Ele mesmo disse que “sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível” (1 Co 9.19). O que será que o apóstolo estava querendo transmitir com essa intrigante afirmação? Penso que aqui reside o cerne do problema hermenêutico. Muitas pessoas confundem adaptação cultural com conformação cultural, que é o que o apóstolo nos adverte a rejeitar em Romanos 12.2. Um exemplo disso é o pessoal de um grupo dito “emergente” chamado Sexxx Church, que, para alcançar homossexuais, prostitutas e afins, querem “imprimir Bíblias, que serão doadas, com uma capa imitando a folha de um caderno de brochura e com listras da bandeira GLS, com a figura de Cristo de óculos escuros e tatuagem”[5]. Será que Paulo consideraria legítimos mecanismos como esse para alcançar os ditos “marginalizados” sociais? Será que a solução para evangelizar os foliões no carnaval é fazer o mesmo que eles? Afinal de contas, não é isso que podemos inferir das declarações do próprio Paulo? Penso que não.

É necessário entendermos até que ponto Paulo se adaptou. Nos versos 20 e 21 do capítulo 9, o apóstolo nos apresenta qual foi a sua conduta diante de duas classes sociais e religiosas completamente distintas: a dos judeus e a dos gentios. Quanto aos judeus, Paulo nos diz que

Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para com os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei (1 Co 9.20).

Podemos perceber isso, por exemplo, na pregação do apóstolo dirigida aos judeus. Em Atos 13.16-41 Lucas nos relata uma pregação de Paulo a um público formado por judeus e gentios prosélitos (convertidos ao judaísmo). Nada do que Paulo fala soa estranho. Todos compreendem perfeitamente a mensagem, tanto que rogam ao apóstolo que este permaneça na cidade para pregar no sábado seguinte na sinagoga (13. 42). Paulo cita personagens e fatos da história de Israel, e todos os conheciam. A diferença crucial é que Paulo traz a lume o real significado deles. Além disso, Paulo se submeteu a alguns aspectos da Lei Cerimonial dos judeus, como a questão dos alimentos, por exemplo. Se comer carne de porco escandalizaria um judeu, a quem Paulo pretendia evangelizar, então ele não comeria. E isso não trazia confusão mental alguma ao apóstolo. Ele mesmo tinha consciência de que não estava mais debaixo da lei (cerimonial), mas agia como tal para poder aproximar-se daqueles a quem visava pregar o Evangelho da Graça de Deus.

Quando se refere ao seu procedimento para com os gentios, o apóstolo afirma que

Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei (1 Co 9.21).

Mais uma vez a pregação de Paulo nos oferece um exemplo de como ele se adaptou culturalmente ao seu contexto. Em Atos 17 temos uma das pregações mais célebres da história da igreja. Paulo está em Atenas, berço da cultura ocidental. Os filósofos se encontram no Areópago a fim de exporem os seus pensamentos, e Paulo vai ao encontro deles. Paulo era um homem que sabia usar muito bem a sua bagagem cultural. Seu vasto conhecimento dava-lhe a oportunidade de dialogar com pessoas das mais diversas cosmovisões. Na sua abordagem ele não faz referências à história de Israel, pois os gregos não a conheciam. Em vez disso, aproveitando-se de uma inscrição existente num altar, que dizia “AO DEUS DESCONHECIDO”, ele prega sobre “o Deus que fez o mundo e tudo que nele existe”, combatendo a ideia grega de que o universo fora criado por obra do acaso. Notamos aqui que Paulo em momento algum negocia sua teologia a fim de parecer “politicamente correto”. Muito embora ele tenha lançado mão de pensamentos dos próprios filósofos gregos para realçar seu argumento (“… como alguns de vossos poetas tem dito: Porque dele também somos geração” – 17.28), ele não usou seu amplo conhecimento cultural como um fim em si mesmo. Seu interesse era pregar a cruz de Cristo, não com “linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (1 Co 2.4,5). Paulo estava mais interessado em ser “teologicamente correto”! Como ele havia dito aos coríntios, ele não estava sem lei para com Deus (1 Co 9.21) [6]. O resultado disso foi que alguns creram, inclusive um homem chamado Dionísio, que era membro do conselho do Areópago (17.34).

Agora, Paulo nos ensina de que forma ele se adaptou e com que objetivo. Ele nos diz que se fez “fraco para com os fracos” e “tudo para com todos” (1 Co 9.21). Como dissemos no início, esse texto é largamente usado por muitos como uma justificativa bíblica para as suas invenções evangelísticas. O pensamento que permeia os métodos dessas pessoas é o de que “os fins justificam os meios”. Para estes foi isso o que Paulo estava querendo dizer. Será que eles estão certos? Mais uma vez, penso que não.

Devemos entender, antes de qualquer coisa, que os “fracos” a quem Paulo se refere são os judeus e gentios a quem ele evangelizara. Depois de falar sobre o tratamento que ele havia dispensado a esses dois grupos, ele os une numa só palavra: fracos. Essa palavra é bastante abundante nas cartas paulinas (aparece cerca de 35 vezes, dentre fraco e fraqueza). Geralmente, quando Paulo emprega essa palavra, ele a associa a condições doutrinárias, físicas, materiais, morais e espirituais, basicamente. Escrevendo aos romanos ele se refere àqueles que possuem debilidades doutrinárias (Rm 14.1). A ordem do apóstolo é que esse irmão que é débil (lit.“fraco”) na fé seja acolhido, para que possa alcançar o discernimento necessário. Escrevendo aos coríntios ele se refere a si mesmo com um homem possuidor de muitas fraquezas físicas e materiais. “Somos fracos e vocês, fortes”, desabafou o apóstolo. “Temos fome e não temos o que vestir; fomos esbofeteados; não temos sequer onde morar, embora trabalhemos exaustivamente com as nossas próprias mãos. As pessoas nos consideram o lixo do mundo” (1 Co 4.10-13). Novamente aos romanos, Paulo fala da nossa fraqueza moral (6.19) e da nossa conseqüente necessidade de ser assistido espiritualmente pelo Espírito Santo (8.26). Paulo teve que se adequar a esses tipos de pessoas. Ele teve que abrir mão de muitos privilégios para ver a obra da evangelização avançar, mesmo que isso lhe custasse a própria vida, como ele mesmo diz aos presbíteros da igreja de Éfeso (At 20.24). Isso não significa, todavia, que Paulo conformava a mensagem do evangelho ao bel prazer humano, como já dissemos. Para o apóstolo os valores do Evangelho eram inegociáveis. Pode até ser que Paulo fosse flexível em algumas questões, mas ele não abria esse leque a qualquer um. Calvino observa que, quanto aos judeus, “ele assumiu a forma judaica na presença de judeus, porém não diante de todos eles; pois muitos deles eram obstinados, os quais, sob influência do farisaísmo orgulhoso e malicioso, gostariam muito de ver a liberdade cristã totalmente suprimida”. Calvino continua observando que “a tais pessoas ele jamais se submeteria, pois Cristo não quer que nos preocupemos com pessoas desse gênero. Nosso Senhor disse: ‘Deixai-os; são cegos, guias de cegos’ [Mt 15.14]. Por isso devemos acomodar-nos aos fracos, porém não aos obstinados”[7]. Paulo não ia ficar a inflar o ego dos incrédulos, como fazemos nos dias de hoje. Nosso maior erro é confundir os fracos com os obstinados. Perdemos tanto tempo com os obstinados que acabamos por perder de vista os fracos. A obstinação é incrédula, mesmo estando escondida debaixo do guarda-chuva religioso. É o que Paulo quer dizer a Timóteo falando das pessoas pretensamente religiosas e crentes, mas que negam a eficácia da fé que professam pelas suas condutas pecaminosas (2 Tm 3.5).

Acredito que uma boa hermenêutica nos previne de equívocos. Isolar o texto do seu respectivo contexto é dar margem para heresias. Dou graças a Deus pelo contexto! É por intermédio dele que eu posso identificar quais eram as intenções originais dos autores bíblicos aos seus destinatários. Sem essa percepção não pode haver uma correta interpretação da Bíblia. O grande problema dos defensores da “contextualização a qualquer custo” é exatamente a falta de uma hermenêutica sadia. Por esse motivo é que existem tantos desvios doutrinários em nossas igrejas.

Talvez, aqueles que pretendem pular o carnaval alegando que é necessário se fazer “fraco para com os fracos” pensem um pouco nisso. Mais uma vez, o jornal Valeparaibano diz que “Para o mestre em ciências da religião pela PUC e professor da Fatea, João Geraldo Júnior, o carnaval vem alcançando as igrejas desde [a] década de 80”.[8] Esse é o retrato de uma igreja que tem falhado em alcançar o pecador da forma correta. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Soli Deo Gloria!
______________________________________

[1] Jornal Valeparaibano, de 08 de fevereiro de 2009. Primeiro caderno, pág. 14.
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Revista da Folha de São Paulo, de 11/01/2009. O conteúdo da matéria pode ser encontrado no site www.igrejaemergente.com.br/?p=37
[6] Comentando essa passagem Calvino nos diz que “quando [Paulo] diz que procedia como se vivesse sem lei e como se estivesse debaixo da lei, devemos compreender que ele está se referindo somente à lei cerimonial, porquanto a lei moral era comum tanto a gentios quanto a judeus; e Paulo não pretendia agradar os homens até este ponto”. Em Calvino, João. 1 Coríntios. São Bernardo do Campo, SP. Edições Parakletos, 2003. Págs. 281, 282. Itálico meu.
[7] Op. cit. Pág. 282.
[8] Jornal Valeparaibano, de 08 de fevereiro de 2009. Primeiro caderno, pág. 14.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Análise da Música "Os Sonhos de Deus", de Ludmila Ferber


[Escrevi esse texto a irmãos de um grupo de louvor de uma igreja histórica que queriam incorporar a referida música aos cânticos congregacionais de sua igreja local. Acredito que, por isso, os leitores reformados hão de compreender minha parcimônia.]

Se tentaram matar os teus sonhos
Sufocando o teu coração
Se lançaram você numa cova
E, ferido, perdeu a visão
Não desista, não pare de crer
Os sonhos de Deus jamais vão morrer
Não desista, não pare de lutar
Não pare de adorar
Levanta teus olhos e vê:
Deus está restaurando os teus sonhos
E a tua visão
Recebe a cura
Recebe a unção
Unção de ousadia
Unção de conquista
Unção de multiplicação


Análise

A música fala sobre uma pessoa que está sendo ameaçada de ver os seus sonhos mortos e o coração sufocado; que foi jogada ferida e sem visão dentro de uma cova. A autora, então, encoraja tal pessoa a não desistir; a não deixar de crer; não parar de lutar, de adorar; a levantar os olhos e ver que Deus está restaurando os seus sonhos e a sua visão, pois “os sonhos de Deus jamais vão morrer”. A seguir ela declara que a pessoa receba a cura e a unção de ousadia, de conquista e de multiplicação.

A começar pelo título a música já comete um erro teológico gravíssimo: o de afirmar que Deus sonha. Essa afirmação (“os sonhos de Deus jamais vão morrer”) não encontra sustentação bíblica nem teológica. Quando afirmo que Deus “sonha” eu estou tirando-O da sua posição de soberania e reduzindo-O à categoria de ser submisso. Deus não sonha, Ele age (“E disse Deus: ‘Haja luz’. E houve luz” – Gn 1.3); Deus não sonha, Ele determina (“Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda” – Sl 139.16). Portanto, devemos ter muito cuidado em atribuir metáforas a Deus que não se harmonizam com os seus atributos.

Esse erro que acabamos de detectar puxa um outro, que é o de tornar Deus passivo na história e o homem senhor dela. Note que, na música, o sujeito não é Deus, e sim, o homem. Ou seja, para que as coisas aconteçam é preciso que você, e não Deus, tome a iniciativa. Esse pensamento, que na realidade é uma doutrina, é conhecido como “Confissão Positiva”, que prega que você deve ter um pensamento positivo para ser vitorioso. A autora apela para os sentidos do ouvinte, e não para a razão, ao usar palavras como “sonho”, “coração”, “visão”, “cura” e “unção” para indicar que atitude se deve tomar diante das dificuldades. Além disso, parece haver aqui uma pitada de “batalha espiritual” (“não desista, não pare de lutar”), que é um tema bem presente nos grupos denominados neopentecostais.

O refrão é o expoente máximo de toda a teologia contida no restante da música, pois nele estão os seus elementos essenciais. “Recebe a cura/ recebe a unção/ unção de ousadia/ unção de conquista/ unção de multiplicação”: aqui estão algumas das palavras-chave do movimento conhecido como G-12 (Grupo dos 12, em referência aos doze apóstolos), do qual a autora é adepta (assim como Diante do Trono, David Quinlan e outros). Receber a cura, aqui, significa ter a “visão dos 12”, frase bastante usada por esse grupo; receber a unção pode significar, dentre outras coisas, receber o título de apóstolo, como o fazem muitos dos líderes do G-12, para não dizer todos, ou mesmo uma capacitação especial; unção de ousadia significa não medir esforços para combater os principados e potestades, fazendo com que o evangelho seja pregado, não importa de que forma; unção de conquista significa, por exemplo, declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus”, conquistando as regiões celestes que estão dominadas pelas hostes malignas, por meio de “Marcha pra Jesus” e coisas do gênero; unção de multiplicação significa igreja em células, método de crescimento das igrejas neopentecostais que adotam a filosofia do G-12 (uma célula contém doze pessoas; cada célula tem um líder; doze células são lideradas por um pastor-supervisor, e assim sucessivamente).

Para concluir gostaria de dizer que o desejo de encorajar a um irmão que está passando por dificuldades, sejam elas materiais ou espirituais, é absolutamente legítimo, e a música tem um papel muito importante nisso. Mas quando ela ultrapassa certos limites impostos pela própria Palavra de Deus e presume ser usada nos cânticos congregacionais é necessário que se analise se realmente ela se encaixa nos padrões confessionais da igreja, desde que os mesmos sejam bíblicos.

Leonardo Bruno Galdino

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Credo

Aguarde: em processo de edição.

Uma versão alternativa pode ser encontrada aqui.

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Contato

Para entrar em contato comigo, use os seguintes endereços de e-mail:

  1. sgtgaldino06@gmail.com;
  2. galdino_85@yahoo.com.br.
Estou também no Facebook (aqui).

Será um enorme prazer poder conhecê-lo!

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Quem escreve

LEONARDO BRUNO DE CASTRO GALDINO é um pernambucano de Recife, apaixonado pelas letras, por música e, como todo brasileiro que se preze, por futebol.

Seu interesse inicial foi o futebol, assim que começou a andar (que exagero!). Até tentou ser jogador profissional, quando jogava nos times de várzea de sua cidade. Finalmente, foi reprovado num “peneirão”, fato que o fez concluir que o caminho não era bem esse (buáááá!). A desculpa que ele sempre deu é que a lateral esquerda não é tão valorizada pelos olheiros de plantão.

Aos 16 anos de idade, ganhou seu primeiro violão (um Gianinni Série Estudo), que até hoje possui. Suas influências musicais foram o pop rock nacional dos anos 80’s e a MPB, basicamente. Tentou estudar violão clássico num conservatório (recentemente), mas não conseguiu prosseguir no curso por uma série de fatores. Contudo, aprendeu maior parte do que sabe observando e ouvindo os grandes músicos (o grande segredo está no ouvir). Atualmente, tem como principais influências nomes famosos como Lenine, Yamandu Costa e João Alexandre, por exemplo, mas também desconhecidos como Andy Mckee, Antoine Dufour, Peter Ciluzzi, Eric Mongrain e Michael Hedges (vale a pena clicar).

Mas seu interesse mais recente e forte foi mesmo a teologia. Interessou-se por ela quando começou a estudar a Bíblia com mais seriedade, fato que o levou ao conhecimento da Teolgia Reformada. A partir de então, tem se dedicado a estudá-la com mais afinco, por meio dos livros que compra. Foi a partir do interesse por teologia que começou a escrever seus próprios textos, numa tentativa de registar por escrito os seus pensamentos a respeito daquilo que lê (e crê).

Atualmente, além de escrever para este blog, escreve também para o blog 5 Calvinistas.
Ademais, é casado com uma bela mulher chamada Adnna e é pai do pequeno Lucas.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"Não basta consertar a cerca - é preciso melhorar, também, o pasto".


Ouvi essa frase de um irmão quando conversávamos sobre a crise que assola os púlpitos de nossas igrejas. A falta de clareza expositiva, bem como a eficácia na aplicação do sermão ao coração dos ouvintes tem sido marcas não registradas na voz daqueles que, a bem do ofício, deveriam ser arautos de Deus. Hoje, gasta-se muito em arame farpado, madeira e prego, mas quase nada em pastos realmente verdejantes para o rebanho. Gostaria de apontar algumas razões para isso.

Em primeiro lugar o grande problema está no desprezo (ou falta de preparo mesmo!) de muitos pastores à pregação expositiva. Está cada dia mais difícil ver um pastor destrinchar o texto bíblico. O atrativo moderno são sermõezinhos tópicos de três pontos, duas ou três estorinhas engraçadas e pronto, "vão na benção, meus irmãos". Às vezes até (pra não dizer que eu não falei das flores) fazem advertências contra falsos ensinos, mas sem expor a verdadeira doutrina. Augustus Nicodemus costuma dizer que o grande problema não está somente no que o pastor fala, mas no que ele deixa de falar. Isso quando eles não fazem aberrações exegéticas. Certo dia estava no ônibus e subiu um desses pregadores itinerantes de coletivos. Ele disse que "a Bíblia diz que Cristo virá como um ladrão na noite, e o ladrão só veio pra matar, roubar e destruir". Pode ser que um pastor não chegue a esse extremo, mas, se ele deixa de expor o texto, na prática, produzirá resultados semelhantes ao do pregador que citei (uma mulher começou a rir no ônibus e ele a chamou de "macumbeira").

Em segundo lugar está a impressão que muitos pastores tem de que seus ouvintes não estão mais "suportando" a pregação. Sei que eles (os pastores) estão certos em muitos casos. Aliás, é o que Paulo diz a Timóteo ("Nos últimos tempos os homens não suportarão mais a sã doutrina. Sentirão como que coceiras nos ouvidos" - 2Tm 4.3). Mas o apóstolo não disse "olha, Timóteo, não enche a paciência dos irmãos não! Seja o mais breve e menos profundo possível na sua pregação"! Não. Ele disse "prega a palavra", e sabemos o que Paulo entendia ser uma verdadeira pregação da Palavra, não é mesmo? Acredito que o grande problema é que os pregadores parecem não crer na atuação poderosa do Espírito pela ministração fiel da Palavra, e ficam procurando uma forma de "enrolar" o rebanho. Uma certa ovelha chegou para o seu pastor e disse: "Pastor! Tenho sido muito abençoada com a sua pregação. O senhor não tem idéia"! O pastor, muito surpreso, disse: "Fico feliz por isso, irmã. Mas, no que especificamente minhas pregações a tem abençoado"? Ela respondeu: "É que ultimamente eu tenho tido problemas de insônia, e a sua pregação tem me abençoado por isso! Durmo tão bem quando o senhor tá falando, pastor"! Essa estória é fictícia (pra ser honesto [mas a do ônibus foi verdade mesmo!]), mas o que acontecerá com a saúde da igreja se tendências como essas se afirmarem como fatos? E, "venhamos e convenhamos", sabemos que a linha que separa a ficção da realidade, nesse caso, é bastante tênue.

E em terceiro lugar há uma relutância por parte dos pastores em admitir que seus sermões não estão sendo edificantes para as suas congregações. Acredito que pior do que não pregar expositivamente e do que achar que as ovelhas estão cansadas é não reconhecer que o auditório é reflexo do púlpito. Não estou sugerindo, aqui, um discurso pragmático, que dê resultados. Todavia, acredito que pregações genuinamente bíblicas dão, sim, resultados, sejam eles para encher ou até mesmo esvaziar mais a igreja. O próprio ministério de Jesus ilustra bem o que acabo de dizer. Numa certa ocasião, quando Jesus apontou a incredulidade de muitos dos seus seguidores, muitos O abandonaram (Jo 6.64-66). Não dá para entender como é que muita gente insiste em dar "murro em ponta de faca" (e a faca cega da flacidez doutrinária!). Discursos vazios, totalmente desprovidos de poder do alto, lotam a agenda dos relutantes pastores que não veem (o "vêem" foi abolido pela Reforma Ortográfica!) que o rebanho quer pastos verdejantes tanto quanto precisam de uma cerca resistente. "Deitar-me faz em verdes pastos; guia-me para junto das águas tranquilas", é a descrição que Davi encontrou de um pastor que cuida bem de suas ovelhas (Sl 23.2).

Alguém já disse que "a crise da igreja é fruto da crise na pregação", e esse sinal tende a se tornar cada dia mais pujante. A menos, é claro, que se invista no pasto tanto quanto na cerca (embora, por uma questão lógica, uma coisa deveria pressupor a outra).
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