Soli Deo Gloria!
quarta-feira, 30 de março de 2011
Panorama de 1ª João - Sermão
Soli Deo Gloria!
sexta-feira, 25 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
Lulu Santos e o Novo Calvinismo
Sem querer aumentar ainda mais o celeuma em torno das fervorosas discussões sobre o Novo Calvinismo (NC), e já correndo o risco de ser considerado como alguém totalmente avesso ao movimento (o que não é verdade, evidentemente), vou revelar aqui uma brincadeira que fiz alhures (via chat) com alguns colegas quando me referi àquela que poderia ser a modinha dos novos calvinistas. Trata-se da música O último romântico, de Lulu Santos, que assim reza em seus versos iniciais:
Faltava abandonar a velha escola/ tomar o mundo feito Coca-Cola.
É claro que não se trata de nenhuma análise “séria” do movimento, haja vista o elemento lúdico embutido na própria comparação em si. Sim, fiz isso mais como quebra-gelo mesmo, e até pensei se valeria a pena mesmo o post. Mas em que se pese essa proposta de ruptura com as velhas formas (ou, o velho modus operandi, de repente) e a consequente propagação de uma mensagem mais contextualizada para a cultura na qual está inserida – o ser “missional”, no caso do NC –, penso que a relação que fiz tem lá a sua validade, o que torna o este post, digamos, “publicável”, segundo penso.
Mas se é pra falar de coisa séria, aqui vai uma crítica. E mais uma vez me aproprio da deixa do Lulu, só que agora no que tange ao romantismo. Tenho notado que alguns irmãos que se identificam com o NC tem se deixado levar por uma postura quase acrítica quanto ao movimento, o que faz com que se irritem facilmente quando alguém questiona certos pontos de suas perspectivas. E o pior é que não são exclusivamente os ditos “neopuritanos” quem levantam as questões, mas até mesmo gente que está mais próxima do arraial do Piper do que do arraial do Peter Masters. E é justamente isso o que me preocupa, pois a impressão que tenho é que muitos estão simplesmente pegando arrego numa onda que nem bem sabem o que é, mas que já se apressam em defendê-la com unhas e dentes. Temo também que essa atitude irrefletida de alguns, somada aos seus ânimos acirrados pela "oposição", possa interferir de forma trágica no resultado pretendido por eles próprios, o que não seria nada bom para o calvinismo no Brasil. Para que seja um movimento realmente frutífero e duradouro [olha eu palpitando aí, gente!] – e não apenas um modismo –, é preciso que os novos calvinistas juntem o ouro, a prata e as pedras preciosas do que há de melhor na tradição reformada, largando de mão as madeiras, fenos e palhas de nossos modelos equivocados (cf. 1 Co 3.10-15). É necessário também que se vá com calma, muita calma, para que a noiva não se canse antes do baile.
É por essas e outras que tenho me recolhido ao silêncio nesses dias. Ainda preciso ler muito sobre o assunto para poder me definir como “a” ou “b”, se é que o farei. Mas de uma coisa eu sei: que a Fé Reformada é muito maior do que o Velho ou o Novo calvinismos. Maior até do que o próprio Calvino, como eu já disse alhures. E se porventura estivermos procurando estabelecer A ou B como o padrão último do que venha a ser um verdadeiro reformado, de modo que rompamos com as Escrituras e com a fé legada pelos nosso pais, então seremos achados não apenas os últimos românticos, mas também como os últimos tolos (isto se não deixarmos o mau exemplo para as futuras gerações, que também poderão continuar endossando essa nossa tolice). Que Deus nos dê discernimento!
Soli Deo Gloria!
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Lendo, aprendendo e compartilhando [1]: "A teologia do apóstolo Paulo", de Herman Ridderbos
Para o autor, mesmo tendo essa mudança iniciado o método histórico-crítico de exegese (via Iluminismo), ela teve sua importância na medida em que contribuiu para uma melhor distinção e compreensão dos grandes temas teológicos da pregação de Paulo dentro da sua importância original e histórica, mas por outro lado, se mostrou “vergonhosa” por deixar evidente o quanto tais métodos de investigação são determinados pelas premissas religiosas e filosóficas de cada época. Dessa “vergonha”, temos, segundo Ridderbos, o “Paulo hegeliano” da escola de Tübingen; o “Paulo liberal” da teologia liberal; o “Paulo místico” da escola da história das religiões; e o “Paulo existencialista”, propalado por Rudolf Bultmann.
Na esteira da escola de Tübingen, a escola liberal também tomou como seu ponto de partida a perspectiva de Paulo sobre o Espírito, só que nos termos da antropologia grega. Seus representantes entenderam que o aspecto jurídico-legal do Cristianismo – incluindo aí a doutrina reformada da justificação pela fé – era, na realidade, originário do judaísmo, ao passo que o aspecto ético-místico encontrava suas origens no pensamento greco-helenista. Em outras palavras, isso significa que quando Paulo escreve que os crentes estão “em Cristo” ou “com Cristo”, “essa comunhão é vista como um misticismo voltado para a ética, não como uma inclusão objetiva de crentes em Cristo” (p. 16). Como observa Ridderbos, “tudo é dirigido a um esforço de se reduzir a teologia e a religião de Paulo a uma religiosidade ética-racional geral que não depende de fatos redentores” (p. 18), o que acaba criando, invevitavelmente, uma separação entre Jesus e Paulo, transformando este último numa espécie de tradutor dos conceitos da cultura semítica para a cultura grega. Para Ridderbos, essas ideias nos remetem ao auge do liberalismo, que encontra em J. H. Holtzmann o seu maior expoente.
Mas essas ideias não perduraram por muito tempo, segundo Ridderbos, visto que as investigações que se seguiram por outros teólogos liberais mostravam a impossibilidade de o esquema “espiritualizante” de Holtzmann manter-se de pé. Gunkel devolve à cultura judaica o conceito paulino de pneuma; e Wrede reafirma a história da redenção como sendo a espinha dorsal do Cristianismo. Mas nada disso deve nos animar quanto a esse tipo de liberalismo que se seguiu, visto que, como aponta Ridderbos, Jesus de Nazaré ainda continua sendo visto “apenas como uma figura humana, independentemente dos elevados patamares espirituais que tenha alcançado” (p. 20).
Ridderbos também faz uma crítica à abordagem da história das religiões, que prega que Paulo se apropriou das ideias e dos fenômenos religiosos do helenismo de sua época (bem como daquele sincretismo vigente) para formar seu pensamento teológico. Seguno tal escola, Paulo tomou emprestado dos chamados “mitos cultuais” (como o de Ísis e Osíris e o mitraísmo, por exemplo.) suas concepções relativas aos atos sacramentais, bem como à expiação e ressurreição de Cristo. Assim sendo, tal escola entendia Paulo como “o maior dos gnósticos”, graças ao estudioso clássico literário R. Reintzenstein (p. 25). Bultmann também é enquadrado aqui nessa escola por conta de sua proposta “existencialista”, segundo Ridderbos (p. 30-31).
Soli Deo Gloria!
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Cristianismo em linha reta
Qualquer um admitiria de pronto que a arrogância e a mania de grandeza é algo que devemos abominar com todas as forças de nossa alma; que detratar os outros é feio; que não devemos "passar por cima" das pessoas; e que devemos sempre respeitar os espaços e as limitações (físicas, intelectuais e "espirituais") de cada um. Contudo, na maioria das vezes nossas ações conflitam flagrantemente com nosso discurso: assumimos uma postura arrogante para com os mais limitados e depois usamos de uma mea culpa "politicamente correta" para camuflar nossos intentos - mea culpa esta que, no fim das contas, servirá apenas de cal para embranquecer ainda mais as paredes dos nossos imponentes - embora podres - mausoléus.Abaixo segue o Poema em linha reta, do Fernando Pessoa, para que meditemos na necessidade daquilo que eu chamaria de um Cristianismo em linha reta (a cada um caberá a contextualização mais pertinente).
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Sem mais comentários.
Soli Deo Gloria!
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Cessacionismo x Continuísmo: a Grande (e confusa!) Batalha
Se o debate entre cessacionistas e continuístas se resumisse apenas a questões terminológicas, talvez a gente tirasse de letra. Mas não é. Tudo bem. Vamos considerar por ora as terminologias. O que configura exatamente as duas perspectivas? Talvez a resposta mais convencional seja a de que o cessacionista é aquele que crê que certos dons espirituais e extraordinários (miraculosos) operaram na igreja somente na era apostólica, e que os mesmos cessaram definitivamente até o final do primeiro século; ao passo que o continuísta é aquele que crê que todos os dons existentes no Novo Testamento, miraculosos ou não, ainda continuam sendo derramados pelo Espírito até que Cristo volte. Satisfeitos? Eu não. Aliás, tenho enormes dificuldades com certas terminologias. Em muitos casos elas não dizem muita coisa.
[Onde começa um e onde termina o outro?]
Apesar do “x” que coloca as duas perspectivas em extrema oposição no título deste post, penso que seja mais razoável falarmos em “cessacionismo e continuísmo”. Isto porque, em minha opinião, todo cessacionista é um continuísta potencial, e vice-versa. Antes dos “fiscais da ortodoxia alheia” (adorei essa, Gaspar!) me acusarem de “traidor da Confissão” e coisas do tipo, vou dar aqui um belo exemplo daquilo que eu chamaria de “continuísmo cessacionista”; exemplo este baseado no conceito que nós, reformados em geral, temos da tarefa da pregação. Veja o que diz Paulo Anglada, um dos mais respeitados teólogos reformados do Brasil:
A autoridade da pregação no Novo Testamento se fundamenta na comissão do pregador e depende da sua fidelidade à mensagem. Algumas passagens do Novo Testamento e a própria terminologia empregada indicam que, na qualidade de arauto, o pregador é um porta voz de Cristo, que sua pregação deve ser recebida como Palavra de Deus, e sua voz equiparada à voz de Cristo. […] Deveriam esses textos [no caso, Mt 10.17;20; 28.20; 2 Co 2.17; e 1 Ts 2.9,13] ser interpretados como casos particulares, relacionados apenas à inspiração apostólica; ou em termos mais amplos, com relação à autoridade da pregação dos ministros da Palavra? Algumas passagens [no caso, Lc 10.16; Rm 10.14; e Hb 1.1-2; 2.1-3; 3.7,8,15; 4.7; 12.25; 13.7-8] parecem apontar para a segunda possibilidade.
(ANGLADA, Paulo. Introdução à pregação reformada – uma investigação histórica sobre o modelo bíblico-reformado de pregação. Knox Publicações, 2005. Pág. 41, 42, 43. Itálicos meus).
Anglada é ainda mais contundente quando, fazendo exegese, se refere à carta aos Hebreus:
Quando, no final da carta, o autor exorta seus leitores a lembrarem-se dos seus guias espirituais “os quais vos pregaram a palavra de Deus” (13.7), mencionando no verso seguinte que “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre”, não estamos autorizados a concluir que na pregação da Palavra de Deus, Cristo faz ouvir a sua voz, exigindo irrestrita obediência dos ouvintes?
(Idem. Pág. 43-44).
As resoluções de Anglada lembram e muito um dos aspectos do dom de profecia no Novo Testamento, que é justamente a explicação e aplicação da Palavra à igreja (sobre o que pretendo tratar em outro post, se Deus permitir). Mas se você perguntar a um cessacionista se ainda existe profetas nos dias de hoje, poucos farão um esforço no sentido de definir biblicamente quais eram os atributos dos profetas, bem como o conteúdo de suas mensagens. Provavelmente, a resposta para sua pergunta seria um apressado e sonoro “não!”. Longe estou de sugerir que Paulo Anglada deva ser enquadrado naquilo que falei sobre o “continuísmo cessacionista”, visto que ainda não li nada dele sobre o debate em questão. Mas se ele ainda não se constitui em unanimidade entre os calvinistas cessacionistas e continuístas, talvez Calvino sim. Ou, de repente, não… Vejamos:
Onde quer que seja pregado o evangelho, é como se Deus viesse para o meio de nós. […] É certo que se vamos à igreja, não ouviremos apenas um homem mortal falando, mas sentiremos que Deus (por meio do seu poder secreto) está falando à nossa alma; sentiremos que Ele é o professor. […] Deus nos chama para si como se estivesse falando-nos por sua própria boca e pudéssemos vê-lo ali, em pessoa.
(CALVINO, João. Sermon on the epistle to the Ephesians. Carlisle, PA; Edinburgh, Scotland: The Banner of Truh Trust, 1562, 1577, 1973, 1979, 1987, 1998. p. 42. Citado por Steven Lawson em A arte expositiva de Calvino. Editora Fiel, 2008. p. 37).
Novamente, não me estenderei aqui por já estar preparando um post acerca da perspectiva de Calvino quanto à profecia. Embora não seja justo cansar a noiva antes do baile, faço questão de adiantar que a pesquisa apenas confirmará o mesmo ponto supracitado.
Mas os continuístas também tem lá o seu quê de cessacionismo. E como tem! Um exemplo? Simples: pergunte a qualquer continuísta sério se ele realmente crê que alguém, por mais cheio que seja (ou esteja) do Espírito, tenha a graça de ressuscitar alguém dentre os mortos, como o fez Pedro, por exemplo (At 9.40,41); ou então de curar enfermos simplesmente por meio de peças de roupas, como aconteceu a Paulo (At 19.12); ou então de estender um pedaço de pau e abrir um mar inteiro, como Moisés (Êx 14.15-31). Tudo bem, o exemplo citado de Moisés (e Paulo, quem sabe…) não se trata exatamente de um dom. Mas aqui temos outra confusão, e esta é entre dons e milagres. Se você me perguntar se Deus ainda cura doenças eu lhes respondo que “sim”. Mas se você me perguntar se existe alguém com o dom de cura, aí eu devo responder que “não”. Milagres, sim; dom, não necessariamente. Aqui ainda cabe outra confusão, e esta se refere aos tipos de milagres em si. Se alguém chegar para mim argumentando que podemos tudo porque “Jesus mesmo disse que ‘obras maiores do que estas vocês realizarão’”, aí eu vou pedir a esse irmão para realizar não menos que a ressurreição de algum morto. Entendam bem: a grande questão não é se Deus pode fazer estas coisas (abrir o mar, trasladar pessoas para o céu, retroceder a sombra do sol em dez graus, ruir as muralhas de Jericó, etc.). Sim, Ele pode! Mas a questão é: Ele está fazendo coisas assim nos dias de hoje? Pode Deus transportar o Pão de Açúcar do Rio de Janeiro para São Paulo? Visto que é Ele quem domina sobre os montes, claro que sim! Mas até que Ele não faça isso, os paulistas deverão se contentar apenas com a rede de supermercados homônima. Afora o tom irônico, há ou não certo cessacionismo no continuísmo?
[Mais confusão…]
Mas a confusão criada pela ala tresloucada dos continuístas (a qual eu chamaria de “caosrismáticos”) tem feito com que os cessacionistas acabem considerando quase todos os continuístas como farinha do mesmo saco. A julgar pelo trato que alguns cessacionistas dispensam aos que pensam diferente deles, inclino-me a crer que os reformados continuístas acabam escapando da degola (ou do “saco”, como queiram) somente porque ainda são “conservadores” em termos de soteriologia. Digo isso porque há, lamentavelmente, cessacionistas que chegam ao ponto de considerar os nossos irmãos pentecostais como “hereges” e “apóstatas”. E não porque os pentecostais tenham negado a divindade de Jesus ou sua ressurreição (como os liberais), mas extamente porque negam o que o cessacionismo (pelo menos ala mais radical deste) afirma. Desconfio seriamente que essa postura soa como um aviso para que os continuístas calvinistas ponham suas barbas de molho.
Mas é bom que se diga que certos continuístas também pecam pela falta de tato e pelo extremismo ao rotular os outros. Por exemplo, Vincent Cheung disse que considera os cessacionistas como “deístas práticos” e que, “sem relegá-lo ao nível de heresia”, vê o cessacionismo como uma doutrina “perigosa, vergonhosa e falsa”, que tem inflingido “tremendo dano à causa de Cristo, e contribuído para a situação lúgubre de alguns setores da igreja por toda a história e nos presentes dias”. Cheung ainda diz que “não contribui para uma discussão sóbria usar pessoas como Benny Hinn e Kenneth Copeland para determinar se a Escritura ensina a continuação dos dons espirituais”, e que “os carismáticos poderiam muito bem usar os ateístas para representar os cessacionistas, em cujo caso ganhariam o debate imediatamente”. Devo concordar com Cheung no que tange a usar como parâmetro para o debate líderes carismáticos caóticos, esdrúxulos e explicitamente desequilibrados como Benny Hinn e semelhantes. Certamente os “caosrismáticos” não representam a ala mais sóbria dos continuístas. “Existem vários recursos eruditos que refutam o cessacionismo, e é contra eles que os cessacionistas devem responder” [1], completa Cheung. Certíssimo! Contudo, discordo totalmente da noção de que o cessacionismo se constitui num deísmo prático; que é perigoso, vergonhoso e falso; e que tem contribuído para a situação letárgica de alguns setores da igreja ao longo dos séculos. Ora, se for assim é justo dizer que os responsáveis diretos pelo surgimento dos “Hagins” e “Hinns” da vida são os pentecostais. Discordo ainda mais do paralelo desrespeitoso e descabido entre cessacionistas e ateus. Então quer dizer que, dentro dessa linha de racioncínio, os cessacionistas estariam certos se comparassem a teologia pentecostal à salada mística da Nova Era, não é? Embora eu entenda Cheung, não justifico sua postura. Ele deveria pelos menos reconhecer que nem todo cessacionista é xiita, assim como nem todo continuísta é xamã. Um extremo leva a outro.
[Matéria de salvação?]
Além disso tudo, outro grande problema é que as partes discutem o assunto como se o mesmo fosse matéria de salvação; como se algum ponto fundamental do Cristianismo (como as doutrinas da justificação pela fé somente, da Encarnação e da ressurreição de Cristo, por exemplo) estivesse em jogo. Entendam bem: não estou relegando a pneumatologia a um plano inferior dentro da teologia, mas apenas dizendo que esse tipo de divergência ao qual estamos nos referindo aqui não torna absurdamente heréticas as partes conflitantes, como são absurdamente heréticos o sabelianismo, o teísmo aberto e o liberalismo, por exemplo. Sustentar o contrário seria o mesmo que dizer que apenas os que entendem a eleição é que serão salvos. Quando a coisa vai por esse caminho, declino do debate. Já se foi o tempo em que eu arrancava os cabelos por essas coisas.
[Conclusão]
Os cessacionistas dirão: “fim de papo”. Os continuístas dirão: “to be continued…”. Até que Cristo de fato volte, penso que sempre será assim. Que seja, mas que haja mais respeito entre as partes! Que cada um procure entender a perspectiva alheia e esclareça a sua própria, não somente para um melhor entendimento do assunto, mas para que a Verdade promova a humildade no seio dos envolvidos. E que a Escritura sempre seja, como bem rezam nossos símbolos de fé, o Juiz em tudo. Submetamo-nos, pois, ao Espírito que por ela ainda fala.
Soli Deo Gloria!
P.S.: Falei algo sobre o “cessacionismo que defendo” aqui no blog (aqui). A presente postagem, portanto, vem esclarecer em parte o que eu quis dizer naquela ocasião.
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[1] Site Monergismo.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Você já orou pelo seu gato hoje?
Confesso que não sou muito dado a gatos, mas anteontem uma cena que presencei me deixou sensibilizado (não que eu odeie gatos, tá? Pelo amor de Deus!). Minha esposa viu, quando estávamos adentrando os portões do residencial onde moramos, algo jogado no chão, parecendo mesmo um bicho. Aproveitando o farol aceso, desci do carro para ver o que era. E era um gato, gravemente ferido e agonizando, mas sem emitir nenhum som – somente abria a boca, como que querendo dizer algo. Seu pescoço sangrava, e seu corpo estava todo contorcido. Somente lamentamos. Nada pudemos fazer. Não demorou muito até que caísse uma daquelas chuvas bem típicas do Norte. E dentro de casa, no aconhego de nossa cama, eu e minha esposa lembrávamos daquele pobre bicho. “O coitadinho vai morrer nessa chuva”, dizíamos convictos.
No dia seguinte (ontem, no caso), bem cedinho, exatamente na hora em que eu ia saindo com o carro, vi a vizinha recolhendo o animal, já morto, e colocando-o num saco de lixo. Abri o vidro do carro, saudei-a com um bom dia, e comentei sobre aquela pobre criatura. Ele estava já a uns dois palmos da posição em que o vi na noite anterior, não sei se por força própria ou da forte chuva que havia caído. “Pois é, rapaz. Já fazia umas duas noites que eu ouvia um bicho agonizando de dor, mas não sabia de onde vinha”, disse minha vizinha. Aquilo me sensibilizou ainda mais. Duas noites pedindo ajuda sem ninguém para ouvir. Acabou no lixo do condomínio.
Ontem foi o dia de Fofucho, o cão de estimação dos pais de minha esposa, deixar este tabernáculo. O coitado já estava cego e altamente debilitado, o que levou meu sogro a, com pesar, sacrificá-lo. Foi enterrado no mesmo lugar que Pitucha, sua “namorada”, falecida a uns três anos. Minha esposa orava por ele. Mas aprouve a Deus que ele partisse.
Não é difícil saber porque as pessoas (incluindo este que vos escreve) choram ao ver filmes como Marley e Eu, Lessie, e outros do gênero. Eles mostram exatamente uma área de nossa vida que reconhecemos ser de muita importância (pelo menos os que já tiveram animal de estimação um dia). Em muitos casos, esses pequenos travessos se mostram como peça importante na educação dos filhos e até mesmo no equilíbrio de um lar (vide Marley e Eu, por exemplo, resenhado por Solano Portela). Até hoje guardo vívido em minha memória o dia em que meu cachorrinho de infância, por nome Fly, fugiu de casa e se perdeu, bem como dos esforços que meus pais envidaram para achá-lo, envolvendo eu e meu irmão naquela busca. Para uma criança de oito anos, aquilo foi uma bela demonstração de como devemos buscar “o que se havia perdido”, e isso em todas as esferas. Cerca de dois anos depois (outubro de 1995), Fly também se foi, mas não sem antes se despedir de todos de casa, roçando-se por entre nossas pernas, até ir para o quintal, expirando em seguida. Até hoje aquele gesto ficou marcado em minha memória. Tanto que, sem medo de errar, digo que cão igual àquele não existiu em nossas vidas.
Mateus 15.22-28 (com Mc 7.24-30, que trata do mesmo evento) é a única passagem da Escritura que conheço que fala, ainda que implicitamente, do costume de se ter animais de estimação (“cachorrinhos”, nesse caso). Mas se há alguma passagem na Escritura que legitime o título deste post eu não sei. Mas penso que Jesus, em um dos seus confrontos com os fariseus, evocou um princípio muito interessante envolvendo o amor paternal.
Qual de vós, se o filho ou o boi cair num poço, não o tirará logo, mesmo em dia de sábado? (Lucas 14.5).
Tudo bem: os bois não eram exatamente de estimação para os judeus. Serviam para o arado e de alimento também. Mas por que filhos e bois estão juntos aqui nessa passagem? O leitor que o diga. E se, de repente, a ideia de orar por um bicho de estimação (ou qualquer outro que você encontrar largado numa sarjeta, como o gato sem-nome dos primeiros parágrafos) deixar alguém escandalizado, é mister lembrar de que o sábado foi criado para o homem, e não o contrário (cf. Mc 2.27).
Soli Deo Gloria!
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Sobre os benefícios de se ter bicho de estimação, clique aqui.



