segunda-feira, 27 de julho de 2009

O dia mais importante para a Humanidade


2009 é o ano em que se comemoram os quarenta anos da chegada do homem à lua. Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar em solo lunar, ao fazê-lo, disse uma frase que até hoje ecoa como a mais triunfal conquista humana de todos os tempos: “É um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade” (quem nunca ouviu essa frase é porque deveria – ou, deve – estar no “mundo da lua”). Mas, o que mais me chamou a atenção foi o que disse Richard Nixon, o então presidente estadunidense da época. Com uma empáfia singular, talvez fruto do orgulho americano por serem eles os primeiros a conseguir tal façanha, Nixon falou em alto e bom som que “esse é o dia mais importante para a Humanidade – o dia em que o homem pôs os seus pés na lua”. Foi aí que um grande evangelista do século vinte, Billy Graham, resolveu reagir à afirmação de Nixon. Disse Billy: “o dia mais importante para a Humanidade não foi o dia em que o homem pôs os seus pés na lua, e sim, o dia em que Deus pôs os seus pés na Terra” [*]. A Casa Branca estremeceu!


A declaração de Billy Graham é largamente confirmada pelas Escrituras. Há cerca de novecentos e quarenta anos antes de Cristo nascer, Salomão já questionava: “de fato, habitaria Deus na terra?” (2 Rs 8.27). O evangelista João responde que “sim”, que o “verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). O “Servo Sofredor” de Isaías 53, finalmente, saiu das páginas do papiro para as páginas da História, ao tabernacular entre nós. As grandes profecias concernentes à vinda do Messias estavam sendo plenamente cumpridas (e.g. Gn 3.15; Dt 18.15-19; Is 7.14; 9.6,7; 61.1-3). E, ao contrário do que muitos possam pensar, a data do nascimento de Cristo não foi escolhida aleatoriamente, como se o planejamento de Deus fosse, de alguma forma, impreciso. De acordo como o apóstolo Paulo, Deus escolheu “a plenitude do tempo” para enviar Seu Filho, “nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4 – cf. Is 49.8). Ao mesmo tempo em que o apóstolo defende o nascimento virginal de Cristo, bem como a sua divindade e humanidade plenas (as “duas naturezas”), ele também faz uma apologia da Sabedoria e Providência de Deus em escolher o tempo preciso para a encarnação do Seu Filho. Ainda assim, tudo isso teve um propósito específico: “resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.5). Jesus não veio à Terra simplesmente para tornar-se carne e ponto final. Se assim o fosse não caberia a Ele o título de “Salvador”. O anjo que anunciou a José o nascimento de Cristo disse-lhe que Jesus (nome que significa “O Senhor é a salvação”) viria à Terra para salvar “o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Jesus veio fazer o que homem nenhum conseguiu e jamais conseguirá: cumprir a lei de Deus (Mt 5.17). Por este motivo é que “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feito justiça de Deus” (2 Co 5.21). Simeão bem sabia disso, quando louvou a Deus dizendo:

“Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para a glória do teu povo de Israel” (Lc 1.29-32).

Tanto para Simeão quanto para todos os outros santos e profetas aquele tinha sido o dia mais importante para a Humanidade.

Quarenta anos se passaram e o homem jamais conseguiu voltar à lua. Aliás, esse fato é alvo de muitas controvérsias. Há muitas teorias que buscam provar a farsa da NASA, haja vista o momento político da época, em que os Estados Unidos queriam provar a sua supremacia tecnológica sobre a emergente União Soviética (Capitalismo x Socialismo). Todavia, não é nosso objetivo, aqui, entrar no mérito da questão. O fato é que, se ainda há dúvidas sobre a odisseia lunar empreendida pelos norte-americanos, não nos resta dúvida da “odisseia terráquea” empreendida por Deus, a saber, a de enviar-nos o Seu Filho – Jesus Cristo, a “Luz do mundo” (Jo 8.12). Também não nos resta dúvida de que Cristo voltará à Terra (ao contrário do homem, que jamais conseguiu voltar à lua), desta vez não para derramar novamente seu sangue na cruz (cf. Hb 9.11-28), mas “com poder e grande glória”, para promover a redenção final daqueles que Lhe pertencem (Lc 21.27,28). Maranata!
Soli Deo Gloria!

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[*] O fato de eu ter citado Billy Graham não quer dizer que eu concorde com todas as suas práticas e posições doutrinárias.
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terça-feira, 21 de julho de 2009

Ilustrações do cotidiano* - "O desfibrilador espiritual"

Na organização militar em que trabalho chegou-nos, recentemente, um equipamento bastante utilizado nos hospitais (especialmente nas “Emergências”): o desfibrilador. Para quem não sabe do que se trata, basta lembrar-se daquelas cenas de filmes e novelas em que o médico aplica um “choque” no paciente para tentar reanimá-lo (ou veja a foto ao lado, é mais fácil!). O médico do quartel nos dava instruções gerais sobre o equipamento, como suas características, finalidade e manuseio. Referindo-se à finalidade do desfibrilador, o médico nos falava que ele serve, em resumo, para “tentar reanimar uma pessoa que tenha desfalecido”.

Fiquei a refletir sobre a necessidade de um “desfibrilador espiritual”. O número de pessoas que estão desfalecendo na fé não é menor do que o número de pessoas que estão desfalecendo por motivos de saúde (física, nesse caso). Aliás, é perfeitamente possível alguém não estar sucumbindo fisicamente e mesmo assim estar definhando espiritualmente. O contrário também é verdade. Há muitos que, apesar de estarem num leito de hospital, muitas vezes até como pacientes terminais, estão com sua saúde espiritual em perfeitas condições. Mas o fato a lamentar é o de pessoas que estão dentro das igrejas e, contudo, parecem mais moribundas do que sãs. Para as tais existem vários tipos de “desfibriladores espirituais” que podem livrá-las de tal letargia: a disciplina, seja ela preventiva ou até mesmo corretiva; a chamada para uma vida de piedade e quebrantamento diante de Deus, o que nem sempre acontece por meios “agradáveis”; as provações; as perseguições, dentre tantos outros instrumentos usados pelo Pai para forjar em nós o caráter por Ele requerido. São choques que realmente funcionam! Se não funcionar é porque o indivíduo já está morto (espiritualmente falando, são natimortos – nunca foram salvos de fato). Quando o choque surte efeito, não devemos atribuir os méritos da reanimação a nós mesmos. Assim como o manuseio do desfibrilador está fora do alcance do paciente, o “desfibrilador espiritual” está longe de funcionar por nosso querer. E é justamente aqui que o orgulho espiritual se constitui num grande inimigo de nossas almas, pois, além de achar que a reanimação se deu por conta do próprio paciente, também pode nos impedir de ver que um dia podemos precisar de um “desfibrilador espiritual”, e de que tal "equipamento divino" não foi feito somente para alguns crentes. Para aqueles que teimam nesse orgulho, o “Ministério da Saúde Espiritual” adverte: “aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12)!

Soli Deo Gloria!!!

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Pretendo escrever essas ilustrações em série ("Ilustrações do Cotidiano", que tal?), baseadas em fatos que me acontecem no cotidiano e que me possibilitam enxergá-los como algo mais do que meros fatos.

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sábado, 4 de julho de 2009

"O que você faria se só te restasse esse dia"? - Uma reflexão sobre a Morte

No ano de 1996 a Rede Globo lançou uma novela curta, de apenas 35 capítulos, que abordava uma das mais intrigantes questões existenciais que atormentam o ser humano. A novela se chamava O Fim do Mundo, um nome suficientemente sugestivo para causar no telespectador um misto de curiosidade, expectativa e terror (além de dar audiência, é claro!). À época eu tinha apenas onze anos, mas já conseguia mensurar mais ou menos as implicações que esse tema trazia consigo. O tema de abertura era uma música do Paulinho Moska chamada “O último dia”, que explorava o seguinte dilema em um dos seus versos: “O que você faria se só te restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar, me diz, o que você faria”? Essa simples indagação já era suficiente para que o medo e o pavor se instalassem em meus pensamentos.

É incontestável o fato de que essa é uma questão que inquieta tanto religiosos quanto céticos ao redor do mundo. Mesmo nós que cremos na ressurreição do corpo ficamos incomodados quando o assunto é a morte. Como bem observou Eleny Vassão no seu livro Aconselhando a Pacientes Terminais, “a simples menção dessa palavra tão deprimente e pesada faz com que desapareça o sorriso dos rostos das pessoas, transformando qualquer conversa descontraída em tétrico e constrangedor encontro”[1]. Se o que está em jogo é o fim do mundo inteiro ou de uma vida apenas pouco importa. O fato é que, diante da iminência do fim, todos tremem (e temem). O que será que se passa na cabeça daquelas pessoas que estão dentro de um avião que está prestes a cair na imensidão do oceano? “O que você faria se só te restasse esse dia”? – eis a pergunta que não quer calar.

Há alguns exemplos notáveis na Bíblia de pessoas cientes de que estavam nos seus “últimos dias”. Jacó reúne todos os seus filhos para falar-lhes o que haveria de lhes acontecer “nos dias vindouros” (Gn 49.1). Depois de lhes mostrar quais seriam as doze tribos de Israel e de ter abençoado a cada um dos seus filhos (v. 28), o velho patriarca “recolheu os pés na cama, e expirou” (v. 33). Deus convida Moisés para que este suba ao monte Nebo e lhe dá a seguinte certeza: “E morrerás no monte, ao qual terás subido” (Dt 32. 49-50). Diante da certeza indubitável de que aquele seria o seu “último dia” de vida na terra, a última coisa que o grande profeta faz é abençoar o povo em forma de cântico (Dt 33). Saul, diante da absoluta certeza de que seria trucidado pelos filisteus, resolveu suicidar-se (1Sm 31.1-4). Um dos exemplos mais conhecidos de todos talvez seja o dos dois malfeitores que estavam ao lado de Jesus na cruz, fato registrado pelo médico Lucas. Enquanto um deles, pensando apenas na vida terrena, blasfemou, o outro, temendo a Deus e confessando a impecabilidade de Jesus, creu na realidade do Reino e ouviu dos próprios lábios do Mestre a promessa de que “hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.39-43). No livro de Atos o mesmo Lucas nos informa ainda que, em meio a uma terrível tempestade no mar onde navegavam rumo a Roma, “dissipou-se, afinal, toda esperança de salvamento” (At 27.20). Naquela ocasião, entretanto, ninguém morreu, mas o susto foi tamanho que, aos olhos humanos, tudo estava perdido. O apóstolo Paulo também se viu diante do fim. Escrevendo ao jovem pastor Timóteo, Paulo prevê o seu próprio martírio: “estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado” (2Tm 4.6). A palavra no original grego para “partida” é analusis, que significa, literalmente, “o soltar das cordas” para a saída do navio[2]. Diante da inexorável marcha da morte o apóstolo ainda encontra tempo para utilizar-se de metáforas!

No decorrer da História da Igreja também temos inúmeros exemplos. Leia-se os mártires da Igreja Primitiva, por exemplo. O historiador Tácito registra que, sob a perseguição imposta pelo desvairado Nero, ainda na era apostólica, os cristãos
Uma vez condenados à morte, [...] se tornavam objetos de diversão. Alguns, costurados em peles de animais, expiravam despedaçados por cachorros. Outros morriam crucificados. Outros ainda eram transformados em tochas vivas para iluminar a noite[3].
Nos séculos subseqüentes muitos outros ainda seriam queimados vivos nas fogueiras do Império Romano. A Reforma também gerou seus mártires. John Bradfrod, Nicholas Ridley, Thomas Cranmer e Hugh Latimer estão entre eles. É dito que enquanto Nicholas Ridley ardia na fogueira da Inquisição, Latimer o encorajava dizendo: “Fique confortado, Meste Ridley, e jogue o homem; nós veremos este dia lançar uma luz tal sobre a Inglaterra, pela graça de Deus, como nunca ocorrera antes”[4]. O que todos eles tinham em comum era a plena convicção de que estavam sendo levados como ovelhas para o matadouro; todos sabiam que aqueles eram os seus “últimos dias”; todos se viam diante da temível e terrível morte.

Diante de um quadro tão aterrador alguém pode perguntar que outro sentimento, além do pavor e do desespero, tomava os corações daqueles cristãos que sabiam que estavam prestes a deixar este tabernáculo. Minha resposta é que o sentimento que os encorajava era a convicção de que, como bem disse o apóstolo Paulo, “se a nossa casa terrestre se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2Co 5.1). O mesmo apóstolo admite que “partir e estar com Cristo [...] é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Escrevendo a Timóteo, Paulo disse ao seu amado discípulo que após ter combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé, “a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4.7, 8). Comentando essa passagem, Calvino, após falar sobre o medo natural do ser humano quando o assunto é a morte, completa dizendo que “a fé, porém, deve vencer tal temor, para que o mesmo não nos impeça de partir obedientemente deste mundo, quando Deus nos chamar”[5]. O próprio reformador deu exemplo desta sua convicção na sua própria vida. No seu leito de morte, em 25 de abril de 1564, o reformador de Genebra disse em seu testamento:
Confesso ter vivido e confesso que morrerei nessa fé que Ele me deu, porquanto não possuo outra esperança ou refúgio além de sua predestinação sobre a qual toda minha salvação está baseada. Recebo a graça que Ele me ofereceu em nosso Senhor Jesus Cristo e aceito os méritos do seu sofrimento e morte, por meio dos quais todos os meus pecados estão enterrados[6].
O grande reformador confirma o pensamento de Paulo, de que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). É preciso acreditar que o melhor, e não o pior, espera aqueles que creem irrestritamente nas promessas de Deus.

Lembro-me de um dia em que eu estive diante da morte. Estava voltando da igreja quando fui abordado por um homem armado que me confundia com um bandido que ele queria matar. De início, fui tomado pelo pavor. Num instante passou-se um filme rápido em minha memória dos momentos que vivi ao lado das pessoas que eu mais amava. Mas depois, paulatinamente, o Espírito Santo foi me confortando. Entre as ameaças de morte que aquele homem respirava contra mim eu lhe falei que eu era crente. Logo, ele recuou, meio que arrependido (um amigo meu que estava comigo e não era crente, também resolveu dizer que era!). Comecei a lhe falar de Cristo, e subitamente o homem me interrompeu: “Tá bom, 'irmão'! Você quer ir pro céu mais cedo”? Naturalmente, eu lhe respondi que "não" (quem responderia que “sim” que atire a primeira pedra!), e aquele homem nos deixou partir, com a condição de que não olhássemos para trás. Depois do ocorrido fiquei a pensar se eu tinha realmente a certeza de que me encontraria com Cristo se o pior (humanamente falando) acontecesse. Posso dizer com toda a convicção que sim! O medo, como disse Calvino, não pode nos impedir de partir obedientemente deste mundo, quando Deus nos chamar. “A fé é a certeza de coisas que se esperam, e a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1)! Esta é uma certeza que somente aqueles quem tem a Cristo possuem. Aleluia!

Soli Deo Gloria!

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[1] Op. cit. Pág. 9.
[2] Nota de rodapé da Bíblia Shedd.
[3] Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. Editora Aste, São Paulo – SP, 2001. Pág. 27.
[4] Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova, São Paulo – SP, 1995. 2ª Ed. Pág. 271.
[5] Idem (itálico meu). [6] Beza, Theodore. The life of John Calvin. Edinburg, Scotland: Calvin Translation Society, 1844. Reimpresso por Back Home Industries, 1996. Pág. 99-103. Citado por Steve J. Lawson em A Arte Expositiva de João Calvino. Editora Fiel, 2008. Pág. 28.

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Carta a Elvis: Deus e a Cultura Pop

Caro Elvis (*),


Recebi o seu e-mail comentando sobre a matéria de capa da Revista Época de 12/06/09, que diz que “Deus é Pop”. Seu entusiasmo foi tanto que eu não pude resistir em te responder, para refletirmos juntos sobre algumas das implicações que esse assunto nos traz como povo de Deus.

Quando li o seu e-mail, imediatamente lembrei que, quando éramos adolescentes no bairro do Ibura, periferia de Recife, ficávamos discutindo letras de músicas que gostávamos, e uma delas era “O Papa é Pop”, dos Engenheiros do Hawaii. Recordo-me até do dia em que chegamos à conclusão de que Humberto Gessinger (autor da letra) fez um trocadilho entre pope, palavra inglesa para “papa”, e pop. Foi um deleite só! “Ele fez uma aliteração!”, concluiu você todo orgulhoso, depois que saímos de uma aula de gramática sobre figuras de estilo. A gente até achava que os católicos achavam essa música uma blasfêmia contra Sua Santidade. Mas você dizia: “Os católicos são muitos rígidos. Que problema há em ser pop”?

Não me senti surpreendido pelo fato de você ter achado legal a matéria de Época. Você sempre foi mais “mente aberta” para esses assuntos do que eu (inclusive lembro-me de como você ficou chateado com o pastor de nossa igreja quando ele não permitiu que você cantasse um funk gospel no culto jovem – e você ainda estava com um lenço na cabeça!). Você dizia que eu era “quadrado”, “conservador”, e outros adjetivos que não gosto muito de lembrar. Dizia ainda que eu era “da turma dos véio [sic]”, somente porque eu não gostava de muita agitação nos cultos, mesmo que fossem “cultos jovens”. Sempre falei pra você que o culto é para agradar única e exclusivamente a Deus, e que, sendo assim, os “terceiros ficam em segundo plano” (desse tipo de trocadilho você não era muito fã!).

Você vibrou com as estatísticas levantadas pelo instituto alemão Bertelsmann Stifung, que diz que 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam que são “profundamente religiosos”. “Isso é um avivamento”, concluiu você entusiasmado. Acho que você não prestou muita atenção numa coisa: a pesquisa fala de jovens que se dizem religiosos, o que não significa que necessariamente sejam crentes (confessos, pelo menos) em Cristo. E ainda que fossem, vale ressaltar que nem sempre os números dizem muita coisa. Sei que na igreja primitiva, por exemplo, havia conversões em massa (At 2.41; 4.4). Mas também havia os entusiastas da fé, como no ministério do próprio Jesus (Jo 6.60-66; Mt 16.22) e dos apóstolos (At 5.1-11; 8.13-21). Você acaba esquecendo, por vezes, de que o joio se infiltra no meio do trigo, e considera a superlotação dos templos uma prova da atuação do Espírito. Quando conversávamos sobre os grandes avivamentos da história da Igreja, você fazia questão de jogar na minha cara os grandes despertamentos decorrentes da Reforma. Em contrapartida eu te lembrava das palavras de Jonathan Edwards, ele mesmo um grande avivalista, de que há sempre autenticidade e falsidade nos avivamentos; de que há elementos divinos e humanos operando juntos, e que, por isso, é preciso muito discernimento espiritual para separá-los.

Fiquei sabendo que ultimamente você tem freqüentado uma comunidade dita “emergente”. Talvez seja por isso que você defende tanto a ideia de que a igreja deve se conformar ao mundo, e não o contrário. Lembro-me de que você costumava cantar “eu não vou me adaptar”, dos Titãs, para se referir ao seu enquadramento na igreja da qual éramos membros. Como era difícil tentar te convencer de que não devemos nos conformar a este mundo, mas transformar-nos pela renovação de nossas mentes, para podermos experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para as nossas vidas (Rm 12.1, 2), e que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus (Tg 4.4; 1Jo 2.15-17). Você cita um trecho da matéria que fala que “é entre os evangélicos que surgem mais propostas de igrejas flexíveis”, o que fomenta mais ainda a ideia de um Deus pop, como você mesmo fez questão de assinalar. Pra você isso é sinal de que, finalmente, estamos aprendendo a evangelizar, o que, para mim, é sinal de que a igreja está negociando valores inestimáveis. Em uma coisa, pelo menos (pra você não dizer que não falei das flores!) estamos de acordo: de que esse negócio de igrejas para gays é contrário à Bíblia (a gente costumava dizer que “Deus não criou Adão e Ivo”!).

A assertiva da antropóloga Regina Novaes de que “a internet virou um templo” faz todo sentido pra você, que não vê mais o congregar-se como algo essencial. “A igreja somos nós, as pessoas”, você vocifera. Sou ciente dos benefícios que a internet pode trazer ao povo de Deus. Eu mesmo sou bastante edificado com sites e blogs que leio e com pregações que ouço e faço download. Entretanto, cabe lembrar, querido Elvis, de que a Bíblia nos recomenda a que não deixemos de nos congregar (Hb 10. 25). A igreja é insubstituível! Além do que, garanto que você não poderá fazer download do pão e do vinho, elementos da Ceia do Senhor, e não poderá tomá-los juntamente com outros internautas. Pense nisso.

Despeço-me dizendo que, a despeito de nossas discordâncias, ainda tenho você em grande estima. Minha esperança é que você possa refletir um pouco nas questões acima expostas. Quanto à máxima de que “Deus é Pop”, bem... Continuo preferindo dizer que “Deus é Deus”!


Um grande abraço!

Leonardo.

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(*) Elvis é um nome fictício, bem como alguns detalhes. As circunstâncias, porém, são reais.

Todas as alusões à matéria de Época foram retiradas do site da revista (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI77084-15228-2,00-DEUS+E+POP.html).
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Heresias escondidas dentro de uma Cabana



O escritor canadense William Paul Young saiu do anonimato para a fama ao publicar um livro que se tornaria, em muito pouco tempo, um verdadeiro sucesso. Com mais de dois milhões de cópias vendidas e status de best-seller, “A Cabana” tem cativado a mente de muitas pessoas ao redor do mundo, especialmente/inclusive dos cristãos. Em linhas gerais, o livro conta a história de Mackenzie Allen Phillips, o “Mack”, um pai de família que encontra a Deus depois de ter sua filha caçula, Missy, raptada e brutalmente assassinada por um maníaco assassino de crianças (um serial killer). Cerca de três anos e meio depois do ocorrido, Deus, ou melhor, “Papai”, manda uma carta para Mack marcando um encontro com ele exatamente na cabana onde a polícia havia encontrado o vestido usado por Missy todo encharcado de sangue. Mack, depois de lutas intensas consigo mesmo, resolve aceitar o “encontro”, mesmo desconfiando de uma possível cilada do assassino de sua filha. Ao chegar lá, Mack tem uma, ou melhor, três surpresas: Deus lhe aparece na pessoa de uma mulher “negra enorme e sorridente” (pág. 73). Logo depois aparecem o Espírito Santo, na pele de uma mulher asiática, chamada Sarayu, e Jesus, um homem médio-oriental (hebreu, pra ser mais preciso) vestido de calça jeans e camisa xadrez. A partir de então, Mack vai viver uma inesquecível aventura ao lado dessa ilustre “Trindade”.

Qualquer cristão que tenha um mínimo de conhecimento de História da Igreja saberá que A Cabana nada mais é do que o ressurgimento de algumas das antigas heresias que tumultuaram a vida e o andamento da Igreja Antiga, principalmente aquelas que envolviam questões sobre a Trindade. Do ponto de vista teológico, o livro oscila entre heresias implícitas e explícitas; do ponto de vista literário, entre frases de efeito medíocres (quase sempre) e alguns poucos insights interessantes. Seu enredo envolvente propõe-se a apanhar os desavisados.

Não sei qual foi a experiência eclesiástica do autor de A Cabana, mas posso presumir que não foi das melhores. Torna-se patente, em muitas partes do livro, o desprezo pela igreja e pela adoração corporativa, ressaltando-se e a valorização da experiência pessoal, como bem reza a cartilha pós-moderna.
[Mack] Percebeu que estava travado e que as orações e os hinos dos domingos não serviam mais, se é que já haviam servido [...] Mack estava farto de Deus e da religião, farto de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam fazer nenhuma diferença expressiva nem provocar qualquer mudança real. Mack certamente desejava mais (pág. 54 – versão digital. Itálico meu).
Parece que a intenção inicial do livro não é a de levar os leitores a uma nova perspectiva sobre a Trindade, e sim, que eles desacreditem da Igreja como sendo a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e sigam atrás de outras alternativas de encontrar Deus. Em minha opinião, esse é o maior perigo que o livro oferece.

Quando o assunto, finalmente, é a Trindade, A Cabana traz à tona várias heresias antigas (não pretendo fazer comentários exaustivos sobre todas elas). Como já disse anteriormente, Mack vai à cabana encontrar Deus, que lhe aparece no corpo de uma mulher de pele negra. Logo de cara, vemos a verdadeira alma do paganismo, a saber, materializar Deus dando-lhe alguma forma física. Entendo perfeitamente que se trata de um romance e, como tal, precisa de personagens para dar substância ao enredo. Mas, em se tratando do Senhor Deus Todo-Poderoso, essa regra não deve ser aplicada em hipótese alguma. É exatamente isso que Deus expressamente proíbe no Segundo Mandamento (Ex 20.4-5). Jesus mesmo declarou que “Deus é Espírito” (Jo 4.24). Não devemos emprestar a Deus as formas vãs e tolas que concebemos em nossas mentes pecaminosas (cf. Rm 1).

Uma das antigas heresias às quais me referi há pouco é o Patripassianismo, doutrina monarquianista[1] segundo a qual foi o próprio Deus quem morreu na cruz, em vez de Jesus. Tertuliano combateu esse ensino com bastante veemência. Quando, certa vez, ele disse que “o demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la”, estava se referindo justamente a essa heresia, que estava sendo largamente difundida por Práxeas. Ele continua dizendo que “Ele [o demônio] defende a unidade de Deus, o onipotente criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética[2]”. Em uma passagem de A Cabana essa heresia é claramente visível:
Papai não respondeu, apenas olhou para as mãos dos dois. O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como as que agora presumia que Jesus também tinha nos dele. Ela permitiu que ele tocasse com ternura as cicatrizes, marcas de furos fundos, e finalmente Mack ergueu os olhos para os dela (pág. 86. Itálico meu).
Embora Jesus seja Deus, sabemos que não foi Deus, o Pai, quem morreu na cruz. Deus não tem as marcas dos pregos em seus punhos, como A Cabana quer que acreditemos. Foi o Seu Filho quem foi crucificado. No afã de ressaltar a unidade da Trindade, o Monarquianismo acabou resumindo tudo a uma só pessoa. Em mais uma declaração claramente sabeliana[3], “Papai” diz a Mack que “quando nós três penetramos na existência humana sob a forma do Filho de Deus, nos tornamos totalmente humanos” (pág. 85). Mas não é esse o ensino bíblico. A Palavra de Deus é bastante clara quando se refere ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como sendo Pessoas distintas que possuem uma mesma essência (ver Mt 28.29; 2 Co 13.13; 1 Jo 5.7; 2 Jo 3). E o pior de tudo é que, para confundir ainda mais o leitor, “Papai” desdiz tudo o que houvera dito antes, dizendo que
Não somos três deuses e não estamos falando de um deus com três atitudes, como um homem que é marido, pai e trabalhador. Sou um só Deus e sou três pessoas, e cada uma das três é total e inteiramente o um (pág. 87).
Seria algo equivalente à “Metamorfose Ambulante” proposta por Raul Seixas (“eu vou lhes dizer agora o oposto do que eu disse antes”)? Será que dá pra confiar no “Deus” proposto por William P. Young?

Mas os problemas não param por aí. Como se não bastasse, o livro também nega a divindade de Jesus. Em uma conversa entre Mack e Papai, Mack pergunta:
— Mas... e todos os milagres? As curas? Ressuscitar os mortos? Isso não prova que Jesus era Deus... você sabe, mais do que humano?
— Não, isso prova que Jesus é realmente humano.
[Papai continua...]
— Fez isso como um ser humano dependente e limitado que confia na minha vida e no meu poder de trabalhar com ele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém (pág. 90).
Ora, o que temos aqui não é o velho Ebionismo, que pregava que Jesus tornou-se Messias pelo Espírito Santo? Ou, ainda, o Arianismo, que dizia que Jesus era um simples homem elevado a uma categoria superior à dos demais seres humanos? O autor faz um divórcio entre a Humanidade e a Divindade de Jesus quando diz que “Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém”, quando, na realidade, as duas naturezas de Cristo são inseparáveis. Nas palavras de John Stott, “Jesus não é Deus disfarçado de homem e nem um homem disfarçado de Deus”. Ele é Deus-Homem, como bem foi definido em Calcedônia no ano de 451 d.C. E para dar mais ênfase ainda na humanidade de Cristo, a personagem Jesus “deixara cair uma grande tigela com algum tipo de massa ou molho no chão, e a coisa tinha se espalhado por toda parte” (pág. 95), o que rendeu boas gargalhadas a Mack e Papai. Era só o que faltava: um Jesus todo atrapalhado!

O livro prossegue no enredo seguindo a tônica do “o importante é relacionar-se”. Nada de imposições, de regras. Amor pressupõe liberdade. Baseado nesse pensamento o autor constrói, ou melhor, desconstrói a questão da hierarquia na Trindade. É assim que “Jesus” define a questão:
Esta é a beleza que você vê no meu relacionamento com Abba e Sarayu. Nós somos de fato submetidos uns aos outros, sempre fomos e sempre seremos. Papai é tão submetida a mim quanto eu a ela, ou Sarayu a mim, ou Papai a ela (pág. 129 – versão digital).
Sarayu, que personifica o Espírito Santo, diz que a hierarquia não faria sentido entre a Trindade (pág. 112). Como é que fica, então, frases como “Seja feita a vossa vontade”? Não havia uma submissão do Filho ao Pai? Jesus disse que desceu do céu para "fazer a vontade do Pai"(Jo 6.38). A Cabana não se coaduna com a Bíblia aqui.

Outro ponto que chama alguma atenção no livro é a questão da onisciência de Deus. Apesar de em alguns pontos ela ser ressaltada (págs. 81, 147, 148, 174, 192 e 206, e.g.), o livro parece bem confuso neste aspecto. Nas páginas 129-130, por exemplo, Jesus diz que “é impossível ter poder sobre o futuro, porque ele não é real, e jamais será”. Sophia, uma personagem que representa a Sabedoria de Deus (Teosofismo?) diz que Deus não pôde impedir a morte de Missy (pág. 151), e que tal tragédia “não foi nenhum plano de Papai” (pág. 152). Entretanto, mais uma vez ele se contradiz, ao afirmar que poderia ter impedido o que aconteceu a Missy (pág. 204). Os leitores mais familiarizados com as tendências teológicas pós-modernas saberão que isso se trata de Teísmo Aberto, uma doutrina que remonta ao Socinianismo do século XVI. Segundo essa ideia, o futuro não pode ser plenamente conhecido (nem mesmo por Deus!), pois depende das ações dos seres humanos (chamados de “agentes livres”). Isso inclui também as tragédias naturais (como o Tsunami, por exemplo). Se isso é verdade, como é que fica, então, a questão do Dilúvio? E de Sodoma e Gomorra? Não foi o próprio Deus quem orquestrou tudo? Não é justamente isso que Ele diz em Isaías 45.7 (“... faço a paz e crio o mal”)? William P. Young parece não acreditar muito nisso.

A verdade do Evangelho é outra questão que está em jogo em A Cabana. Como diria a máxima modernista, “tudo o que é sólido desmancha-se no ar”. Nada de certezas, convicções. Papai mesmo é quem diz a Mack que “a fé não cresce na casa da certeza” (pág. 176), declaração que faria Brian McLaren e Ricardo Gondim babarem! Sarayu diz: “gosto demais da incerteza” (pág. 190). Em outra ocasião Papai diz a Mack: “Quem quer adorar um Deus que pode ser totalmente conhecido, hein? Não há muito mistério nisso” (págs. 85 e 86 – versão digital). E as farpas contra a igreja continuam. Jesus diz: “não crio instituições” (pág. 166). Logo em seguida, numa declaração hilariante, ele afirma categoricamente: “eu não sou cristão” (pág. 168). Aliás, para esse Jesus, o evangelho não é exclusividade. Diante do pluralismo religioso “Jesus” é bastante inclusivista. Ele mesmo diz que
Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa (pág. 168).
Realmente, para um Deus que disse que “a morte dele [de Cristo] e sua ressurreição foram a razão pela qual eu agora estou totalmente reconciliado com o mundo” (pág. 180 – itálico meu) isso não é problema. Universalismo? Imagina! “Não preciso castigar as pessoas pelos pecados” (pág. 109). “Em Jesus eu perdoei todos os humanos por seus pecados contra mim, mas só alguns escolheram relacionar-se comigo”, disse Papai (pág. 209). Que estranho, não? Todo mundo perdoado e alguns que se relacionam? Bom, se é ele quem está falando, quem sou eu para questionar? No meio de toda essa confusão Mack parecia mesmo estar totalmente perdido. Foi “barrado” inclusive de ter seu momento devocional, quando foi perguntar pelas orações, ouvindo da boca de Papai: “nada é um ritual” (pág. 194). Coitadinho do Mack! Não tinha razão em nada! Mesmo quando pensou em Jesus como referencial de vida, um exemplo a ser seguido, ouviu da boca do próprio: “minha vida não se destinava a tornar-se um exemplo a copiar” (pág. 136). E agora, José, ou melhor, Mack? Caía por terra diante de seus olhos toda a instrução apostólica para que sejamos “imitadores de Deus” (Ef 5.1; 1Pe 1.16).

Ainda não acabou. Falta o “filé mignon”. Que tal uma pitadinha de Espiritismo para temperar nossa estória? Pois é. Mack vê sua filha, Missy! Uau! Que emocionante, hein? Foi Sophia (uma médium?) quem proporcionou esse encontro (pág. 153). E tem mais. Mack reencontra o seu pai (pág. 200), que ele havia envenenado depois de ter levado uma surra que o deixou de cama por duas semanas quando ele tinha apenas 13 anos de idade. Abre parêntese. O pai de Mack era um alcoólatra que batia na esposa, e Mack contou isso a um irmão da igreja da qual seu pai era membro. Fecha parêntese. Esse era um segredo que Mack guardava a sete chaves. Realmente, ele tinha muitas feridas que precisavam ser curadas. Então, por que não fazê-lo com uma sessão espírita? Os dois se abraçaram e fizeram as pazes, com direito a beijinho na boca e tudo (pág. 201). Jesus gosta tanto dessa ideia de beijar na boca que resolve fazer o mesmo com Papai (pág. 205).

Perdoem-me aqueles que ainda não leram o livro, pois revelei muitos dos seus suspenses. Achei por bem não expor absolutamente tudo de errado que encontrei. Expus apenas aquilo que considerei necessário. É perfeitamente compreensível o fato de A Cabana encabeçar o ranking dos livros mais vendidos[4], afinal de contas as pessoas estão à procura de um "Deus" (deus!) que se ajuste às suas pretensões. O que nos preocupa, entretanto, é saber que dentre os que financiam esse tipo de heresia estão aqueles que se professam crentes em Cristo. Sei que se trata de uma ficção, mas infelizmente não é dessa forma ela tem sido encarada. Perguntado sobre o que ele quer que as pessoas concluam ao lerem A Cabana, numa entrevista, William P. Young declarou que deseja que as pessoas “saibam ou tenham a noção de que Deus é bem maior do que eles já imaginaram”[5]. Lembrando de trechos do livro, sinceramente ainda não consigo enxergar grandeza alguma no “Deus” apresentado por Young. O que vi foi uma divindade deficiente que se curva aos caprichos humanos. Continuo preferindo o Deus que se revelou nas Escrituras. Este sim é a minha Rocha!

“Se alguém vos prega evangelho que vá
além daquele que recebeste,
seja anátema”! (Gl 1.9)

Soli Deo Gloria!!!

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Obs.: As referências tiradas do livro variam entre a versão impressa (Editora Sextante, 2008) e uma versão digital (e-book). Li o livro na versão impressa e fiz minhas anotações, mas devolvi-o ao dono (peguei o livro emprestado!). Depois anotei mais coisas na versão digital. É por isso que eu especifico as páginas e suas respectivas versões quando faço citações.

[1] O Monarquianismo, doutrina desenvolvida no final do século II e início do III, enfatizava tanto a unidade de Deus que acabou se transformando em numa espécie de Unitarismo, negando a realidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo como Pessoas distintas.
[2] Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo, 2001. Editora Aste, Pág. 81.
[3] Sabélio ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só e mesma essência, três nomes diferentes para a mesma substância. “Deus se manifestou como Pai no Velho Testamento, depois como Filho para redimir o homem e como Espírito após a ressurreição de Cristo. Não houve, então, três pessoas em Deus mas três manifestações” (Earle E. Cairns. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo - SP, 1988. Editora Vida Nova, Pág. 83). Esse ensino ficou conhecido como Monarquianismo Modalista.
[4] Segundo a Revista Veja, em http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/
[5] http://www.youtube.com/watch?v=EaGMliCxyWY.

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terça-feira, 24 de março de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Postado por Leonardo Bruno Galdino às 13.15h

Há alguns dias atrás assisti ao filme “Ensaio sobre a cegueira”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. O filme é baseado na obra homônima do escritor português José Saramago, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, e conta o drama de uma população assolada por uma estranha epidemia de cegueira. Talvez o fato mais curioso disso tudo é que, em vez de enxergarem tudo escuro, os cegos enxergam tudo branco. É uma espécie de “treva branca”, como alguém já disse.

Não li o livro de Saramago. Aliás, como todo brasileiro que se preze, resolvi pegar um atalho e “pulei” direto para o filme. Embora todo filme destoe um pouco do livro em que se baseia, o âmago da estória é o mesmo (pelo menos nesse caso).

O dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa define ensaio como sendo uma “prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade”. Ao contrário de Saramago, Jesus tratou o tema da cegueira humana com muita profundidade, mesmo usando poucas palavras. Os Evangelhos nos dizem que Jesus curou muitos cegos (Mt 15.30; Mc 10.52; Lc 7.21; Jo 10.21). Teve até uma ocasião em que Ele usou lama, feita com terra e cuspe (Jo 9.6,7).

Entretanto, o pior tipo de cego com quem Jesus se deparou foram aqueles que pensavam que enxergavam. Eram os hipócritas religiosos, que guiavam seus seguidores para a mesma ruína a que se dirigiam (Mt 15.14). Ressentidos pelo fato de Jesus ter curado um cego de nascença, fato até então inédito na história da humanidade (Jo 9.32), eles criticaram duramente a Jesus, que lhes respondeu: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9.39). Inconformados com a afronta do Messias eles perguntaram: “Acaso, também nós somos cegos?” (Jo 9.40). Jesus retrucou: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado” (Jo 9.41).

A humanidade tem uma grande dificuldade em admitir sua cegueira, pior do que aquele tipo de velho ranzinza que resiste em procurar ajuda médica. Por mais que os discursos humanistas de auto-ajuda digam que devemos olhar o mundo a partir de uma ótica otimista, isso não passa de uma tremenda “treva branca” – não importa o degradê que se aplique ao breu. Na sua Segunda Carta aos Coríntios o apóstolo Paulo nos diz que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4). Isso só confirma ainda mais o primeiro ponto da “TULIP” calvinista: a Total Depravação da humanidade. O ser humano não somente detesta a luz, mas é incapaz de contemplá-la. Cristo é o único “oftalmologista espiritual” que pode dar jeito nessa cegueira.

Soli Deo Gloria!
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

“Fiz-me fraco para com os fracos” – Até que ponto? A Hermenêutica e o Carnaval

Uma das músicas da Cláudia Leite, ex-vocalista do Babado Novo, diz que “carnaval... não mata, não engorda e nem faz mal”. Para os foliões não há nada de mais verdadeiro do que isso. Aliás, alguém disse que, no Brasil, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Se vai ser em fevereiro ou março pouco importa. Da Marquês de Sapucaí às Ladeiras de Olinda; dos blocos de rua de São Luis do Paraitinga ao célebre Galo da Madrugada (o maior bloco de carnaval do mundo, segundo o Guiness Book) em Recife, o brasileiro “vai na fé”, sem morrer ou engordar.

Pois é. Parece que a moda pegou entre os evangélicos também. E para quem está pensando que dessa vez eu vou atacar os neopentecostais engana-se. Um grupo da Primeira Igreja Batista de São José dos Campos - SP, o “Conexão Livre”, vai desfilar com cerca de 500 integrantes no sambódromo de São José dos Campos em pleno domingo de carnaval. Contrariando o tradicional retiro espiritual, esse pessoal resolveu mesmo inovar. Um famoso jornal local, o Valeparaibano, estampa em manchete com letras garrafais que “Bloco da PIB canta prazer sem pecado” [1]. “Será o primeiro bloco evangélico a se apresentar oficialmente na região”, afirma a jornalista Lidiane Duarte. O bloco será reforçado com uma bateria de samba do Rio de Janeiro, tendo o samba-enredo composto pelo sambista Pedro do Borel. Contudo, esse samba-enredo teve que passar pelo crivo da Liga das Escolas de Samba de São José dos Campos, pois o regulamento não permite letras que façam qualquer tipo de apologia religiosa. “Conseguimos adequar uma condição favorável para a cultura carnavalesca e para o bloco evangélico. A igreja demonstrou que está voltada à cultura popular e esperamos que seja uma participação alegre, importante para a cidade[2]”, afirma Aderson Alves Pinto, presidente da Liga. Sob o lema “Prazer sem culpa” estampado nos seus abadás, com grupos circenses, de dança e teatro na avenida, esse pessoal também entra no coro de que “carnaval... não mata, não engorda e nem faz mal”.

O que mais me deixou intrigado nisso tudo foi o argumento pretensamente “bíblico” usado pelo líder do Conexão Livre, Marcos Madaleno. Disse ele que “na Bíblia está escrito: ‘fiz-me de tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns’”[3]. “Nossa intenção”, reitera, “não é falar de religião e nem combater as ações do carnaval. Nosso objetivo com o bloco é mostrar o estilo de vida com Jesus, que a gente pode ter um prazer sem culpa e uma festa que não dura somente quatro dias”[4].

Se fizermos um análise do texto no qual o líder do Conexão Livre se baseou para legitimar o evento, veremos que ele cometeu vários equívocos hermenêuticos. O texto foi o de 1 Coríntios 9.22, no qual Paulo diz que

Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.

Proponho-me a fazer uma breve consideração desse texto e do seu respectivo contexto a fim de mostrar o que realmente o apóstolo quis dizer com isso.

De acordo com o contexto da passagem, Paulo está se referindo ao seu desprendimento material a despeito de suas prerrogativas como apóstolo e ministro do evangelho. O apóstolo tinha todo o direito de ser sustentado pela igreja, se assim o quisesse (cf. 1 Co 9.14). Mas não foi isso que ele preferiu. A própria igreja de Corinto, a quem Paulo ora escreve, foi testemunha disso. Quando Paulo chega a Corinto, Lucas nos diz que ele juntou-se ao casal Priscila e Áquila, “pois a profissão deles era fazer tendas” (At 18.3). Considerando que Corinto era um importante centro comercial da época por ser uma cidade portuária, onde o fluxo de entrada e saída de mercadoria era muito grande, e onde havia também os Jogos Ístmicos, somente superados em importância pelos Jogos Olímpicos de Atenas, a profissão de fazer tendas, certamente, era um ótimo negócio. Na certa, muitos viajantes compravam tendas para não terem que, todas as vezes, pagar hospedaria. E muitos hospedeiros, certamente, compravam tendas para alojar os viajantes que não quisessem comprar uma tenda. Em qualquer caso, o comércio de tendas era promissor, e era dele que Paulo tirava o seu sustento.

Mas não foi apenas do seu direito de ser sustentado pela congregação que o apóstolo abriu mão. Ele abdicou, também, do direito de se casar, uma vez que a maioria dos apóstolos era casada (1 Co 9.5). A razão para isso talvez esteja nas próprias orientações do apóstolo à igreja corintiana (1 Co 7). Ele diz aos coríntios que

Considero, por causa da angustiosa situação presente, ser bom para o homem permanecer assim como está. Estás casado? Não procure separar-te. Estás solteiro? Não procures casamento. Mas, se te casares, com isso não pecas; e também, se a virgem se casar, por isso não peca. Ainda assim, tais pessoas sofrerão angústias na carne, e eu quisera poupar-vos (1 Co 7.26-28).

Em Éfeso, de onde Paulo escreveu aos coríntios, uma “angustiosa situação” já se instaurara. A igreja estava sendo perseguida. Um clima de terror tomava conta daqueles que professavam a fé em Cristo. O sofrimento lhes era uma certeza. Lucas nos informa do grande “prejuízo financeiro” que a pregação do evangelho causara em Éfeso (At 19.23-40). Além do mais, Paulo previa algo de mais caótico. O império romano estava prestes a se insurgir contra os cristãos nas pessoas de Tito e Nero, por exemplo. E o que Paulo fez foi justamente advertir os irmãos para esse fato que, tão logo, se tornaria realidade. Melhor seria para o homem padecer a perseguição sozinho do que ver toda a sua família sucumbir, caso escolhesse se casar. O argumento do apóstolo é que, estando o homem (ou, a mulher) sozinho, este estaria “livre de preocupações”, podendo dedicar-se exclusivamente à obra do Senhor (7.32). Foi por esse motivo que o apóstolo preferiu o celibato ao casamento, considerando aquele como um “dom” (7.7). Paulo não queria que absolutamente nada o atrapalhasse na sua nobre missão de pregar o evangelho aos povos.

Como se não bastasse, Paulo ainda teve que sofrer adaptações culturais. Ele mesmo disse que “sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível” (1 Co 9.19). O que será que o apóstolo estava querendo transmitir com essa intrigante afirmação? Penso que aqui reside o cerne do problema hermenêutico. Muitas pessoas confundem adaptação cultural com conformação cultural, que é o que o apóstolo nos adverte a rejeitar em Romanos 12.2. Um exemplo disso é o pessoal de um grupo dito “emergente” chamado Sexxx Church, que, para alcançar homossexuais, prostitutas e afins, querem “imprimir Bíblias, que serão doadas, com uma capa imitando a folha de um caderno de brochura e com listras da bandeira GLS, com a figura de Cristo de óculos escuros e tatuagem”[5]. Será que Paulo consideraria legítimos mecanismos como esse para alcançar os ditos “marginalizados” sociais? Será que a solução para evangelizar os foliões no carnaval é fazer o mesmo que eles? Afinal de contas, não é isso que podemos inferir das declarações do próprio Paulo? Penso que não.

É necessário entendermos até que ponto Paulo se adaptou. Nos versos 20 e 21 do capítulo 9, o apóstolo nos apresenta qual foi a sua conduta diante de duas classes sociais e religiosas completamente distintas: a dos judeus e a dos gentios. Quanto aos judeus, Paulo nos diz que

Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para com os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei (1 Co 9.20).

Podemos perceber isso, por exemplo, na pregação do apóstolo dirigida aos judeus. Em Atos 13.16-41 Lucas nos relata uma pregação de Paulo a um público formado por judeus e gentios prosélitos (convertidos ao judaísmo). Nada do que Paulo fala soa estranho. Todos compreendem perfeitamente a mensagem, tanto que rogam ao apóstolo que este permaneça na cidade para pregar no sábado seguinte na sinagoga (13. 42). Paulo cita personagens e fatos da história de Israel, e todos os conheciam. A diferença crucial é que Paulo traz a lume o real significado deles. Além disso, Paulo se submeteu a alguns aspectos da Lei Cerimonial dos judeus, como a questão dos alimentos, por exemplo. Se comer carne de porco escandalizaria um judeu, a quem Paulo pretendia evangelizar, então ele não comeria. E isso não trazia confusão mental alguma ao apóstolo. Ele mesmo tinha consciência de que não estava mais debaixo da lei (cerimonial), mas agia como tal para poder aproximar-se daqueles a quem visava pregar o Evangelho da Graça de Deus.

Quando se refere ao seu procedimento para com os gentios, o apóstolo afirma que

Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei (1 Co 9.21).

Mais uma vez a pregação de Paulo nos oferece um exemplo de como ele se adaptou culturalmente ao seu contexto. Em Atos 17 temos uma das pregações mais célebres da história da igreja. Paulo está em Atenas, berço da cultura ocidental. Os filósofos se encontram no Areópago a fim de exporem os seus pensamentos, e Paulo vai ao encontro deles. Paulo era um homem que sabia usar muito bem a sua bagagem cultural. Seu vasto conhecimento dava-lhe a oportunidade de dialogar com pessoas das mais diversas cosmovisões. Na sua abordagem ele não faz referências à história de Israel, pois os gregos não a conheciam. Em vez disso, aproveitando-se de uma inscrição existente num altar, que dizia “AO DEUS DESCONHECIDO”, ele prega sobre “o Deus que fez o mundo e tudo que nele existe”, combatendo a ideia grega de que o universo fora criado por obra do acaso. Notamos aqui que Paulo em momento algum negocia sua teologia a fim de parecer “politicamente correto”. Muito embora ele tenha lançado mão de pensamentos dos próprios filósofos gregos para realçar seu argumento (“… como alguns de vossos poetas tem dito: Porque dele também somos geração” – 17.28), ele não usou seu amplo conhecimento cultural como um fim em si mesmo. Seu interesse era pregar a cruz de Cristo, não com “linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (1 Co 2.4,5). Paulo estava mais interessado em ser “teologicamente correto”! Como ele havia dito aos coríntios, ele não estava sem lei para com Deus (1 Co 9.21) [6]. O resultado disso foi que alguns creram, inclusive um homem chamado Dionísio, que era membro do conselho do Areópago (17.34).

Agora, Paulo nos ensina de que forma ele se adaptou e com que objetivo. Ele nos diz que se fez “fraco para com os fracos” e “tudo para com todos” (1 Co 9.21). Como dissemos no início, esse texto é largamente usado por muitos como uma justificativa bíblica para as suas invenções evangelísticas. O pensamento que permeia os métodos dessas pessoas é o de que “os fins justificam os meios”. Para estes foi isso o que Paulo estava querendo dizer. Será que eles estão certos? Mais uma vez, penso que não.

Devemos entender, antes de qualquer coisa, que os “fracos” a quem Paulo se refere são os judeus e gentios a quem ele evangelizara. Depois de falar sobre o tratamento que ele havia dispensado a esses dois grupos, ele os une numa só palavra: fracos. Essa palavra é bastante abundante nas cartas paulinas (aparece cerca de 35 vezes, dentre fraco e fraqueza). Geralmente, quando Paulo emprega essa palavra, ele a associa a condições doutrinárias, físicas, materiais, morais e espirituais, basicamente. Escrevendo aos romanos ele se refere àqueles que possuem debilidades doutrinárias (Rm 14.1). A ordem do apóstolo é que esse irmão que é débil (lit.“fraco”) na fé seja acolhido, para que possa alcançar o discernimento necessário. Escrevendo aos coríntios ele se refere a si mesmo com um homem possuidor de muitas fraquezas físicas e materiais. “Somos fracos e vocês, fortes”, desabafou o apóstolo. “Temos fome e não temos o que vestir; fomos esbofeteados; não temos sequer onde morar, embora trabalhemos exaustivamente com as nossas próprias mãos. As pessoas nos consideram o lixo do mundo” (1 Co 4.10-13). Novamente aos romanos, Paulo fala da nossa fraqueza moral (6.19) e da nossa conseqüente necessidade de ser assistido espiritualmente pelo Espírito Santo (8.26). Paulo teve que se adequar a esses tipos de pessoas. Ele teve que abrir mão de muitos privilégios para ver a obra da evangelização avançar, mesmo que isso lhe custasse a própria vida, como ele mesmo diz aos presbíteros da igreja de Éfeso (At 20.24). Isso não significa, todavia, que Paulo conformava a mensagem do evangelho ao bel prazer humano, como já dissemos. Para o apóstolo os valores do Evangelho eram inegociáveis. Pode até ser que Paulo fosse flexível em algumas questões, mas ele não abria esse leque a qualquer um. Calvino observa que, quanto aos judeus, “ele assumiu a forma judaica na presença de judeus, porém não diante de todos eles; pois muitos deles eram obstinados, os quais, sob influência do farisaísmo orgulhoso e malicioso, gostariam muito de ver a liberdade cristã totalmente suprimida”. Calvino continua observando que “a tais pessoas ele jamais se submeteria, pois Cristo não quer que nos preocupemos com pessoas desse gênero. Nosso Senhor disse: ‘Deixai-os; são cegos, guias de cegos’ [Mt 15.14]. Por isso devemos acomodar-nos aos fracos, porém não aos obstinados”[7]. Paulo não ia ficar a inflar o ego dos incrédulos, como fazemos nos dias de hoje. Nosso maior erro é confundir os fracos com os obstinados. Perdemos tanto tempo com os obstinados que acabamos por perder de vista os fracos. A obstinação é incrédula, mesmo estando escondida debaixo do guarda-chuva religioso. É o que Paulo quer dizer a Timóteo falando das pessoas pretensamente religiosas e crentes, mas que negam a eficácia da fé que professam pelas suas condutas pecaminosas (2 Tm 3.5).

Acredito que uma boa hermenêutica nos previne de equívocos. Isolar o texto do seu respectivo contexto é dar margem para heresias. Dou graças a Deus pelo contexto! É por intermédio dele que eu posso identificar quais eram as intenções originais dos autores bíblicos aos seus destinatários. Sem essa percepção não pode haver uma correta interpretação da Bíblia. O grande problema dos defensores da “contextualização a qualquer custo” é exatamente a falta de uma hermenêutica sadia. Por esse motivo é que existem tantos desvios doutrinários em nossas igrejas.

Talvez, aqueles que pretendem pular o carnaval alegando que é necessário se fazer “fraco para com os fracos” pensem um pouco nisso. Mais uma vez, o jornal Valeparaibano diz que “Para o mestre em ciências da religião pela PUC e professor da Fatea, João Geraldo Júnior, o carnaval vem alcançando as igrejas desde [a] década de 80”.[8] Esse é o retrato de uma igreja que tem falhado em alcançar o pecador da forma correta. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Soli Deo Gloria!
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[1] Jornal Valeparaibano, de 08 de fevereiro de 2009. Primeiro caderno, pág. 14.
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Revista da Folha de São Paulo, de 11/01/2009. O conteúdo da matéria pode ser encontrado no site www.igrejaemergente.com.br/?p=37
[6] Comentando essa passagem Calvino nos diz que “quando [Paulo] diz que procedia como se vivesse sem lei e como se estivesse debaixo da lei, devemos compreender que ele está se referindo somente à lei cerimonial, porquanto a lei moral era comum tanto a gentios quanto a judeus; e Paulo não pretendia agradar os homens até este ponto”. Em Calvino, João. 1 Coríntios. São Bernardo do Campo, SP. Edições Parakletos, 2003. Págs. 281, 282. Itálico meu.
[7] Op. cit. Pág. 282.
[8] Jornal Valeparaibano, de 08 de fevereiro de 2009. Primeiro caderno, pág. 14.

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